REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 18.2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20140025

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Pesquisa

Curso de especialização em gestão em enfermagem: propostas de melhorias segundo discentes

Specialization course in nursing management: improvement proposals from students' perspective

Fabiana Silva Okagawa1; Elena Bohomol2; Isabel Cristina Kowal Olm Cunha3

1. Doutoranda no Programa de Pós-graduação da Escola Paulista de Enfermagem (EPE) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Assessora Técnica de Enfermagem da SPDM Afiliadas. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Administração dos Serviços de Saúde e Gerenciamento de Enfermagem (GEPAG/EPE/UNIFESP). São Paulo, SP - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Ciências. Membro do GEPAG/EPE-UNIFESP. Professora Adjunta da EPE e do curso de Especialização em Gestão em Enfermagem Modalidade à Distância da UNIFESP. São Paulo, SP - Brasil
3. Enfermeira. Livre Docente em Administração em Enfermagem. Líder do GEPAF/EPE/UNIFESP. Professora Associada e Coordenadora do Curso de Especialização em Gestão em Enfermagem Modalidade à Distância da UNIFESP. São Paulo, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Fabiana Silva Okagawa
E-mail: fabiaraxa@hotmail.com

Submetido em: 04/03/2014
Aprovado em: 12/05/2014

Resumo

O objetivo deste estudo foi conhecer as sugestões de melhoria dadas pelos alunos do curso de Especialização em Gestão em Enfermagem - modalidade à distância - sobre seus conteúdos programáticos. Trata-se de estudo exploratório do qual participaram 216 especializandos, entre setembro e dezembro de 2010. Listaram-se 211 sugestões que foram classificadas utilizando-se a triangulação de investigador. Frente à necessidade sentida na prática dos discentes, predominaram sugestões (81,5%) sobre conteúdos programáticos pertencentes ao curso. Tiveram destaque os relacionados às disciplinas: Gestão da Informação em Saúde (18,5%) e Gerenciamento de Enfermagem (19,9%). Propôs-se maior correlação dos conteúdos com a prática de enfermeiros inseridos em serviços públicos da atenção básica (7,6%). Ainda, contribuíram com estratégias de ensino, citando mais exemplos práticos (47,3%) e videoaulas (26,2%). Os resultados foram considerados dentro do projeto didático-pedagógico do curso, extrapolando os conteúdos programáticos às estratégias de ensino, valorizando e concretizando a participação ativa dos alunos no processo ensino-aprendizagem desse curso.

Palavras-chave: Educação à Distância; Especialização; Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

Desde a década de 1990 políticas públicas de ensino incentivam a incorporação de inovações das tecnologias de informação e comunicação e as técnicas de educação à distância (EAD) aos métodos didático-pedagógicos, promovendo o ensino de acordo com as novas necessidades dos indivíduos, do país e em concordância com as tendências mundiais.1

O último Censo da Associação Brasileira de Educação à Distância contabilizou mais de cinco milhões de alunos matriculados em cursos à distância no Brasil, oriundos de todas as regiões do país. O levantamento revelou que, entre 2011 e 2012, as matrículas nesses cursos aumentaram 12,2%, mais do que o ensino presencial.2

Peculiaridades dos cursos à distância, como a distância física e, por vezes, temporal, entre alunos e professores, implicam planejamento cauteloso, principalmente no tocante aos seus conteúdos programáticos. Entre outros aspectos, os conteúdos devem ser elaborados para atender, da melhor maneira possível, às necessidades sociais e individuais dos estudantes em determinada realidade.3

Um dos princípios que norteiam as "boas práticas" em EAD sugere o envolvimento dos alunos virtuais na elaboração dos cursos e em suas avaliações, possibilitando a cocriação de cursos interativos e coerentes. Autores pontuam que os discentes devem ter a oportunidade de opinar sobre os conteúdos das grades curriculares, aumentando seu significado para eles.4

Há algumas décadas os conteúdos programáticos eram construídos de acordo com um currículo mínimo, que previa o uso de livros, que eram a base para todas as atividades desenvolvidas em um curso. Atualmente, entretanto, as autoridades educacionais apenas definem diretrizes curriculares.3

Para avaliação dos conteúdos, diversos referenciais podem ser utilizados, como os Referenciais de Qualidade para Educação Superior à Distância, proposto pelo Ministério da Educação (MEC).5 A partir de modelos nacionais e internacionais existentes, instituições de ensino propõem instrumentos de avaliação de cursos à distância, que contemplam desde o planejamento do curso, elaboração de seus conteúdos, até os indicadores de resultados obtidos, sendo que poucos modelos de avaliação possuem validação conhecida.6

A avaliação sempre foi tema controverso, pois emite juízo de valor sobre a qualidade de determinado produto. Tal fato também é verdadeiro na análise dos cursos à distância. Esse processo protege os interesses dos estudantes e dos cursos e já ocorre em diversos países, como Índia, Austrália, Reino Unido e Estados Unidos.7

No Brasil, em 2010, foi aprovado o "Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação: Bacharelados e Licenciatura", na modalidade de educação à distância, que passou a ser utilizado pelo Sistema Federal de Educação Superior, todavia, não foi desenvolvido um instrumento para avaliação de cursos à distância na modalidade lato sensu.8

Ciente da importância e necessidade de rever sistematicamente os conteúdos oferecidos pelos cursos lato sensu à distância de forma dinâmica, acompanhando a velocidade das informações e avanços do conhecimento e de maneira a atender às demandas inerentes à prática dos profissionais, o curso Especialização em Gestão em Enfermagem Modalidade à Distância, investiu nessa forma de avaliação desde sua primeira edição, em 2009.

O curso foi realizado a partir da parceria entre a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e a Universidade Aberta do Brasil, criado com finalidade de preparar o enfermeiro para atuar como gestor de serviços de saúde. O objetivo foi habilitá-lo para utilizar modernas ferramentas gerenciais, torná-lo apto para busca de dados na literatura especializada, fornecendo, assim, subsídios para o gerenciamento eficiente dos recursos de suas instituições. Manteve, ainda, foco no contexto profissional dos alunos para que estes pudessem atuar na modificação de suas realidades.9

Esse curso contou com carga horária de 416 horas e duração de um ano. Compuseram sua grade curricular 12 disciplinas: Ambiente de Aprendizagem, Introdução à Administração Geral, Gerenciamento de Enfermagem, Gestão de Recursos Humanos, Gestão da Informação em Saúde, Gestão de Recursos Financeiros, Gestão de Recursos Físicos e Materiais, Avaliação em Serviços de Saúde, Metodologia da Pesquisa, Tendências em Administração, Marketing em Saúde e Orientação para Entrega da Monografia.

Assim, considerando a importância de se avaliar os conteúdos programáticos de cursos à distância e a sua premência por produzir subsídios que viabilizem a adequação desses conteúdos às diferentes realidades e necessidades profissionais dos discentes, o presente estudo teve como objetivo conhecer a opinião dos alunos do Curso de Especialização em Gestão em Enfermagem Modalidade à Distância (CEGEMD) sobre os conteúdos programáticos oferecidos.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo retrospectivo exploratório de abordagem quantitativa, aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UNIFESP 2119/11, que adota o referencial metodológico da pesquisa avaliativa formativa. Os primeiros trabalhos nesse formato datam de idos do século XVII e direcionavam-se à avaliação de programas sociais. Já no século XX passaram a ter mais visibilidade nos campos da educação e saúde, com o objetivo de levantar sugestões de melhorias em determinado contexto. Esse tipo de estudo possibilita levantar dados contextualizados e, a partir das evidências, identificar o que pode ser corrigido, melhorado e adaptado para aproximar-se mais dos objetivos preestabelecidos no processo ensino-aprendizagem.10

A coleta de dados foi feita por ocasião das apresentações dos TCCs, no período de setembro a dezembro de 2010, realizadas presencialmente nos polos.

Os 216 alunos que concluíram o curso concordaram em participar da pesquisa, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os estudantes eram oriundos de oito polos: Breves-PA - oito (3,7%), Parauapebas-PA - cinco (2,3%), Palmas-TO - 22 (10,2%), Juara-MT - sete (3,2%), Itapetininga-SP - 34 (15,8%), Jandira-SP - 61 (28,2%), São Carlos-SP - 34 (15,7%) e São José dos Campos-SP - 45 (20,9%).

O instrumento de pesquisa foi composto de um questionário com as seguintes questões: "Você sugere a inclusão de algum conteúdo que não foi abordado no curso? Há algum conteúdo que precisa ser mais aprofundado, devido à necessidade sentida na prática profissional?" As questões foram abertas, sem limite de espaço para as respostas e o discente pôde despender o tempo que julgasse necessário para escrevê-las.

Foram obtidas 272 respostas. Estas foram lidas pela primeira pesquisadora, transcritas em planilha do Microsoft Excel® e posteriormente analisadas a partir da nomenclatura dos conteúdos programáticos ou elementos que as caracterizassem. Após essa análise inicial, 61 foram excluídas por não responderem à pergunta de pesquisa, restando 211 respostas que constituíram o "N" do presente estudo.

Foi realizada uma segunda análise que as dividiu em duas grandes categorias: sugestões de conteúdos programáticos relacionados às disciplinas da grade curricular e outras sugestões. A primeira foi adicionalmente dividida em dois outros grupos ("Aprofundamento de Conteúdos Programáticos existentes" e "Introdução de Novos Conteúdos"), a partir da categorização central da temática de cada resposta. Esta última análise foi impressa e encaminhada para outros dois pesquisadores, conhecedores da grade curricular do curso e experts na área de Gestão em Enfermagem, para validação dos agrupamentos e sugestões de alterações. Após consenso, finalizou-se a classificação dos dados, caracterizando-se, desta forma, o processo de triangulação de investigador, que implica a colaboração de dois ou mais investigadores para interpretação de dados de questões abertas.11

 

RESULTADO

Participaram do estudo 216 enfermeiros com idades que variaram de 27 a 57 anos, sendo que a maioria (53,4%) encontrava-se no intervalo de 27 a 32 anos e pertencia ao gênero feminino (89,3%). Cerca de 50% dos alunos graduaram-se em Enfermagem em universidades estaduais e 72% haviam se formado há menos de sete anos.

Do total de discentes, 61 (28,2%) referiram, de forma breve, estar satisfeito com os conteúdos programáticos pertencentes à grade curricular do curso, não sugerindo a inclusão ou maior exploração de algum conteúdo. Dois alunos (0,9%) não responderam à questão. Os demais 153 (70,8%) especializandos responderam à pergunta, resultando em 211 respostas, sendo que alguns informaram mais de uma, verificando proporção de 1,4 citação por discente.

As 211 respostas originaram dois grupos: um intitulado "Aprofundamento de Conteúdos Programáticos existentes" (Tabela 1), correspondendo a 173 respostas (82,0%); e o outro, "Introdução de Novos Conteúdos" (Tabela 2), com 38 (18%) respostas. Os grupos serão apresentados separadamente para facilitar a compreensão do leitor.

 

 

 

 

O primeiro grupo contemplou os conteúdos programáticos existentes na grade curricular do curso e distribuídos entre 10 das 12 disciplinas oferecidas. Não houve referência às disciplinas Ambiente de Aprendizagem e Tendências em Administração. Neste grupo foi observado o maior número de respostas, tiveram destaque conteúdos relativos às disciplinas Gestão da Informação em Saúde, Gerenciamento de Enfermagem, Avaliação em Serviços de Saúde e Gestão de Recursos Humanos. Esses conteúdos contabilizam mais de 50% das sugestões do primeiro grupo de respostas, com percentuais que destoam dos demais, por essa razão serão mais bem explorados na Tabela 3.

 

 

O segundo grupo de respostas representa sugestões sobre a Introdução de Novos Conteúdos e apresenta menor frequência (18,0%), abarcando conteúdos inéditos e sugestões que não fizeram parte da grade curricular do curso ou que foram trazidos brevemente dentro de alguma disciplina. Predominaram sugestões para uma abordagem direcionada para os enfermeiros que atuam em serviços públicos, com foco na atenção básica, superando o predominante enfoque hospitalar.

Chamam a atenção sugestões que vão além do âmbito gerencial, relacionando-se ao processo de trabalho assistencial em Enfermagem, são eles: sistematização da assistência de enfermagem, raciocínio clínico e avaliação clínica do paciente. Também contemplou o Gerenciamento do Tempo, citado de forma sucinta dentro do conteúdo de Gerenciamento de Enfermagem e Humanização na Saúde, na Gestão de Recursos Humanos.

As citações sobre as Competências Gerenciais ganharam destaque nos conteúdos relacionados ao Gerenciamento de Enfermagem (n=42), entre elas: o relacionamento interpessoal 26,2% (n=11), negociação 14,3% (n=6) e liderança 11,9% (n=5).

Na Gestão da Informação em Saúde os especializandos foram menos específicos quanto à referência de conteúdos, sendo que 92,3% (n=36) citaram a nomenclatura literal da disciplina e 7,7% (n=3) fizeram menção a prontuários eletrônicos. A partir da análise, por similaridade das respostas, foram identificados três aspectos-chave para sua escolha: falta de compreensão da disciplina durante o curso (35%), atualidade do assunto (30%) e necessidade sentida na prática (35%).

As sugestões de conteúdos programáticos que permeiam a disciplina de Gestão de Recursos Humanos foram representadas por: 3,1% (n=1) sobre motivação da equipe; 9,4% (n=3) a respeito do serviço de educação continuada, destacando-se as capacitações; 12,5% (n=4) solicitaram mais informações sobre a escala setorial de divisão de tarefas para a equipe técnica de Enfermagem; 15,6% (n=5) acerca de recrutamento/seleção; 25,0% (n=8) citações a partir da nomenclatura da disciplina; 34,4% (n=11) sobre o dimensionamento de pessoal, com destaque para os relatos sobre o subdimensionamento de suas equipes.

A Avaliação de Serviços de Saúde comportou conteúdos atuais e relativos às vivências recentes dos profissionais no âmbito hospitalar. Auditoria (45,5%) e, mais especificadamente, as Acreditações Hospitalares (21,2%) foram citadas.

Alguns discentes manifestaram sugestões sobre estratégias de ensino para o curso. Embora este não fosse o foco deste estudo, estas foram agrupadas conforme ilustrado na Tabela 4.

 

 

Houve predomínio de solicitações para maior número exercícios com base em exemplos práticos com nove sugestões (47,3%) e mais videoaulas, representados por cinco sugestões (26,2%).

 

DISCUSSÃO

O predomínio de mulheres no curso vai ao encontro do Censo da Associação Brasileira de Educação à Distância, publicado em 2012, que revela o predomínio do gênero nos cursos à distância no país2, além de ir ao encontro do perfil histórico preponderantemente feminino da área de Enfermagem.12

A escolha dos conteúdos no Gerenciamento em Enfermagem relaciona-se às funções diferenciadas que os enfermeiros vêm desenvolvendo no cenário da saúde no país, assumindo progressivamente cargos de gestão em diferentes níveis de atenção. Os conhecimentos inerentes à Administração em Enfermagem, contudo, não são ministrados na íntegra durante a graduação, seja por renovarem-se continuamente, seja por contemplarem uma gama de conhecimentos específicos.

Frente a essa demanda, diretrizes curriculares passaram a destinar maior carga horária à temática. No entanto, ainda são os cursos de especialização que se prestam ao desenvolvimento e qualificação efetiva dos enfermeiros no âmbito da gestão, uma vez que a formação do enfermeiro generalista é voltada para o desenvolvimento de conhecimento, com equidade, dos seus quatro processos de trabalho: assistir, pesquisar, gerenciar e ensinar. Contudo, essa formação não acompanha mais as reais necessidades do mercado.13

É possível inferir que o CEGEMD possibilita aos discentes, com distintas formações, o acesso a conhecimentos gerenciais atualizados, específicos para a área da Enfermagem e respaldados pela chancela da UNIFESP, agregando, assim, subsídios para atuação em diferentes níveis de gestão.

As sugestões que abrangem o Gerenciamento de Enfermagem comportam diversas competências gerenciais e chamam a atenção pela maior frequência de citações. As competências implicam a potencialização do desempenho dos profissionais, aumentando a utilização de capacidades individuais e coletivas, para agregar valor econômico às organizações e valor social aos indivíduos, atendendo às transformações da sociedade e exigências prementes do competitivo mercado de trabalho.14

Essa preocupação é evidente na Enfermagem, em concordância com as sugestões dos discentes, conforme atestada pelas diversas iniciativas de instituições de ensino e até de órgãos fiscalizadores, como o "Projeto Competências" (desenvolvido pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo). E deixam claro que a abordagem mais profunda desses conteúdos auxilia na prática diária dos enfermeiros.15 Portanto, é possível considerar que maior carga horária ou adequação da estratégia de ensino deveriam ser realizadas para explorar esta temática.

Frente às respostas dos alunos, faz-se necessária a revisão da disciplina, considerando-se carga horária, estratégia de ensino e material didático. As sugestões são pertinentes, dado o fato de que vão ao encontro do célere progresso da ciência e tecnologia e da necessidade de adaptação e transformação da formação dos profissionais, para atender às demandas nascentes de cuidado em saúde.16 Hoje, portanto, observa-se crescente demanda por profissionais policompetentes.

Também é notável o número de enfermeiros que atuam na saúde pública, onde se nota o desafio de trabalhar com sistemas informatizados, como o Sistema de Informação em Saúde. Tal fato gera procura por conteúdo específico nessa área. Sistemas informatizados possibilitam a visualização das informações gerenciais, epidemiológicas e clínicas disponibilizadas em bancos de dados e, portanto, auxilia na gestão dos serviços e dos programas de saúde, sobretudo no planejamento.17 Assim, a capacidade de utilizar esses sistemas torna-se um requisito fundamental para esses profissionais.

Sugestões avaliadas revelaram a importância de explorar os conteúdos inerentes à Gestão de Recursos Humanos. Uma vez que esta temática comporta atividades diárias dos enfermeiros de diferentes segmentos de atuação, desperta interesse e preocupação nos profissionais. É possível que maior número de materiais de apoio (livros, textos, artigos) sobre o assunto seja futuramente disponibilizado na disciplina, em resposta a essa demanda, fornecendo mais subsídios para os interessados.

A Avaliação de Serviços de Saúde também foi lembrada pelos discentes, tornando pertinente a incorporação de suas sugestões, sem o intuito de esgotar o tema, pois se trata de uma área ampla e com necessidade de curso para uma formação específica. Porém, discussões mais profundas sobre o assunto poderão ser introduzidas no curso, visto que as instituições têm buscado sistemas de avaliação de seus serviços.

Predominaram sugestões para uma abordagem direcionada para os enfermeiros que atuam em serviços públicos, com foco na atenção básica, superando o enfoque hospitalar predominante. Essas sugestões são pertinentes e passíveis de inclusão no curso, pois refletem a demanda do mercado e o cenário de saúde no país, onde se estimam que 75% da população sejam usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).18

O grande contingente de usuários que dependem do SUS implica o aumento da absorção de profissionais para atuarem nesse segmento e em fortes investimentos na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Tal fato faz da atenção básica uma prioridade para o Ministério da Saúde. A inserção do enfermeiro é notável, principalmente na Estratégia de Saúde da Família, programa com significativa expansão em território nacional na última década e que atribuiu uma gama de funções de cunho gerencial ao enfermeiro.19

Estudo realizado com enfermeiros em cargos de liderança de serviços públicos destaca a importância de privilegiar-se o desenvolvimento das competências gerenciais específicas para uma atuação de excelência na atenção primária por meio de uma formação pautada em evidências científicas.20

As sugestões relacionadas à Metodologia de Pesquisa versam sobre a construção do TCC, inferindo a dificuldade dos discentes. O contato com as metodologias de pesquisa ocorre na graduação concomitantemente com a elaboração do TCC, iniciação científica, projetos de extensão, ligas e outros. Desta forma, portanto, era esperado mais preparo dos especializandos para o desenvolvimento dos trabalhos do que efetivamente foi percebido pelos orientadores. Tal achado dá margens à reflexão acerca da compreensão dos enfermeiros sobre a imprescindibilidade da produção de conhecimento científico como principal veículo para aquisição, produção e aprofundamento de saberes.21 e sugere que a prática de pesquisa não seja um aspecto do cotidiano desses profissionais.

Ressaltam-se sugestões que vão além do âmbito gerencial, como as relacionadas ao processo de trabalho assistencial. Esses conteúdos não compõem a temática central do curso, o que inviabiliza a inserção destes nas próximas edições.

Os alunos contemplaram, também, o Gerenciamento do Tempo, que foi brevemente citado durante a exposição do conteúdo de Gerenciamento de Enfermagem e Humanização na Saúde, na disciplina de Gestão de Recursos Humanos.

Foram solicitados pelos especializandos mais exercícios baseados em sua atuação prática, como estudos de casos ou desafios. Essa solicitação pode ser atendida por meio de melhor utilização de ferramentas da EAD pertencentes ao Moodle, como chat e fórum, já empregados no curso, em que amplas discussões sobre a prática e até enquetes podem ocorrer. Tais artifícios podem levar os alunos a refletirem criticamente sobre a atuação prática e a assimilarem o conteúdo técnico-científico.

Ainda, ao considerar que a aprendizagem não é um processo vivenciado por todos da mesma maneira, foi sugerido aumento de videoaulas, entendidas pelos discentes como um facilitador do aprendizado. Embora existam diferentes estilos de aprendizagem, infere-se que a maior parte dos alunos assimila preferencialmente informações verbais e apresenta mais dificuldade de compreensão na leitura de textos.22

A interação entre professores e alunos é necessária e ocorre na EAD. A percepção da distância física entre esses atores pode ter contribuído para a insatisfação do aluno. A vivência com o ensino tradicional exige cautela na transição de modelo de ensino. A presença efetiva do professor estimula a participação dos alunos, contribuindo para o processo ensino-aprendizagem. O aluno necessita de uma "comunicação efetiva e feedbacks, interatividade e sentido de comunicação, direção adequada e capacitação para executar as tarefas exigidas", consideradas boas práticas dentro da EAD.4

A segunda edição do curso estabeleceu uma perspectiva de contato entre professor e aluno mais ampla e íntima, com aumento do tempo de acesso e disponibilidade dos professores na plataforma virtual, redução do intervalo estipulado para feedbacks aos alunos, com a finalidade de estabelecer vínculo efetivo, mais interatividade e, consequentemente, mais satisfação dos envolvidos.

 

CONCLUSÃO

Os achados permitiram identificar reais necessidades inerentes à prática profissional dos enfermeiros no âmbito da Gestão em Enfermagem. Os diferentes contextos de atuação nas regiões brasileiras onde os discentes estavam inseridos refletem as demandas do cenário nacional e fornecem subsídios para a formação e capacitação desses profissionais.

As sugestões trazidas pelos alunos permearam diversos conteúdos. Houve predomínio daqueles relacionados às disciplinas Gerenciamento de Enfermagem, Gestão da Informação, Avaliação de Serviços de Saúde e Gestão de Recursos Humanos. De forma incipiente sugeriram-se novos conteúdos, todavia, salientaram-se aqueles de cunho assistencial, incoerentes com a proposta central do curso e solicitação por mais enfoque na abordagem dos conteúdos voltada para a atenção básica.

Os resultados foram considerados na revisão do projeto didático-pedagógico do curso, extrapolando dos conteúdos programáticos as estratégias de ensino, por meio da valorização e concretização da participação ativa dos alunos no processo ensino-aprendizagem. Tais conclusões foram consideradas no aperfeiçoamento da segunda edição do curso em 2011.

 

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