REME - Revista Mineira de Enfermagem

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Enfermagem UFMG

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Volume: 10.3

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Pesquisa

Violência na cultura contemporânea: o quotidiano familial

Violence in contemporary culture: daily family life

Sônia Lorena Soeiro Argôllo Fernandes1; Rosane Gonçalves Nitschke2; Raimunda da Costa Araruna3

1Enfermeira. Docente da Escola de Enfermagem da UFBA. Doutoranda em Enfermagem, área de concentração: Filosofia, Saúde e Sociedade. Bolsista do PQI/CAPES. E-mail: lorena@nfr.ufsc.br
2Doutora em Enfermagem. Coordenadora do NUPESQUIS-SC- Núcleo de Pesquisa em Enfermagem, Quotidiano, Imaginário e Saúde de Santa Catarina. Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
3Enfermeira. Docente do Departamento de Ciências da Saúde da UFAC. Doutoranda em Enfermagem, área de concentração: Filosofia, Saúde e Sociedade. Bolsista do PQI/CAPES

Endereço para correspondência

Rua Almirante Lamego, 683, apto 802 A. Edifício Ana Terezia, Centro
Florianópolis - SC. CEP: 88 015-600
TEL: (48)3223-0438

Recebido em: 27/09/2005
Aprovado em: 21/02/2006

Resumo

A violência é um fenômeno complexo, que deve ser historicamente situado e compreendido. Através de uma abordagem socioantropológica, refletimos sobre os diferentes aspectos da(s) violência(s) na cultura contemporânea para a sua compreensão no quotidiano familial. Consideramos que domesticar a violência por meio de regras e códigos de conduta rígidos parece não ser a solução. O desafio é canalizá-la, organizá-la, integrá-la e combiná-la com outras práticas sociais e simbólicas. Faz-se necessário relativizar diversos aspectos, como os culturais, articulando o micro, o macro, o subjetivo e o objetivo para a sua compreensão.

Palavras-chave: Violência, Cultura, Fatores Culturais, Violência Doméstica

 

DELINEANDO A PROPOSTA

Refletindo sobre a violência na cultura contemporânea e esboçando alguns dos elementos que constituem esse fenômeno em nossa sociedade, para a sua compreensão no quotidiano familial, selecionamos entre as diferentes abordagens utilizar a sociológica e a antropológica trazendo alguns autores como : Rifiotis, Zaluar, Melo, Faleiros, Maffesoli entre outros.(1,2 ,3,4, 5,6,7,8)

Consideramos que na socio antropologia contemporânea não se busca mais o entendimento ou a explicação, numa visão linear de causa e efeito, mas uma compreensão mais sintonizada, convincente e mais próxima das realidades dos conjuntos de fatores que se cruzam entre si, sendo que no caso específico da violência ao refletir que "são os entrecruzamentos dos fluxos, as interseções de diferentes processos que se precisa reter."(3:2)

O campo de estudos da violência é um "território estratégico para os discursos da contemporaneidade, ocupando um lugar de destaque na compreensão da experiência contemporânea, com seus mundos e dimensões, marcados pela desigualdade, diferenças e construções sociais sem finalidade."(1:1)

A violência tem várias facetas e nem todas se mostram com clareza, o que nos remete à crença de que é um fenômeno complexo, delicado, que desperta diferentes sentimentos de raiva, ódio, desespero, angústia, insegurança, medo, entre outros. É um fenômeno que não se deixa analisar facilmente em sua profundidade original, pois se apresenta sombreado ou mesmo ofuscado, por causas mais explícitas, óbvias, exageradas, que nos desviam a atenção.

Em todo campo de conhecimento podemos considerar alguns aspectos visíveis, que refletem o fenômeno estudado de forma clara, perceptível e objetiva. Mas também alguns aspectos ofuscados, disfarçados, encobertos, que despertam sensibilidade e curiosidade para serem estudados.(9:18)

Fazendo um contraponto com a violência, em nossos dias podemos perceber que esta vem saindo da sombra, ou porque não dizer que a própria sombra tem se revelado. Entre outras palavras, a violência em nossa cultura emerge do individual e social sem deixar de ser sombra e passa a ser, não podemos negar, um fenômeno visível, real e cotidiano. A violência está em todo lugar, invadindo ou emergindo de espaços públicos e privados, presente em diferentes culturas nos âmbitos familiar, escolar, institucional e social.

Dentre as leituras realizadas podemos constatar que não existe uma visão unânime entre os estudiosos quanto à definição da violência, ou mesmo na identificação de suas causas, atribuindo-as alguns à própria vítima e outros às condições sociais e/ou culturais.

Reconhecendo que a violência é um fenômeno complexo, histórico, multifacetado e com diferentes significados, a depender do referencial cultural, histórico, social e familiar é que a seguir tentaremos esboçar alguns dos seus conceitos que possam dar visibilidade a esse problema tão presente e atual em nossa sociedade.

 

O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA

Existem diversas concepções certamente entrelaçadas, mas diferenciadas entre si, que tentam justificar o aparecimento da violência nas relações do ser humano. A seguir esboçaremos, de forma pontual, algumas dessas discussões que estão presentes nas diversas leituras realizadas. No entanto, não temos o intuito de valorizar ou desprezar essa ou tal concepção, mas de revelar o caráter de negatividade ou positividade da violência que perpassa as relações sociais e que influencia nossa cultura.

A violência não tem um único aspecto e deve ser historicamente situada e compreendida. Conforme Wieviorka "temos que estar atentos aos novos significados da violência, pois a violência não é a mesma de um período ao outro."(10:6)

De acordo com Zaluar "embora haja definições da violência que a diferenciem de outros tantos comportamentos humanos, não há uma só violência"(3:1).

Percebemos que as diversas concepções utilizam o termo de forma indiscriminada para falar de muitas práticas, hábitos, disciplinas, de tal modo que todo comportamento social poderia ser visto como violento.

Para Rifiotis "ainda não se tem um quadro teórico para a sua análise que ultrapasse os discursos do próprio social, ou seja, a indignação, a exterioridade, a homogeneização e a negatividade do complexo conjunto de fenômenos abrangidos."(2:2)

O fenômeno violência parece não ter origem, sendo cíclico e inesgotável, presente em quase todas as culturas e sociedades humanas.

Há quem postule que "a violência é parte da natureza humana e da natureza, além da constituição da sociedade, definindo-se o ser humano como Homo violens"(11:44)

Esta forma de perceber a violência tende à sua naturalização, tornando-a tão genérica e permanente que se torna impossível distinguir e analisar as manifestações concretas da mesma.

Fazendo uma aproximação dos efeitos imediatos das mediações da violência, voltados para o dano à pessoa, Michaud define a violência como: "uma ação direta ou indireta, concentrada ou distribuída, destinada a prejudicar uma pessoa ou a destruí-la, seja em sua integridade física ou psíquica, seja em suas posses, seja em suas participações simbólicas".(12:05)

Nesta forma de percepção, a violência pode ser compreendida como um ato que implica uma relação de danos ou prejuízos de uma pessoa sobre a outra. É na relação agressor/agredido que se visualiza e se mede o impacto prejudicial (por ação ou ameaça) que o primeiro impõe ao segundo tanto física, sexual, moral, psicológica e negligencialmente.

Com o mesmo enfoque, Gilberto Velho considera a violência como "o modo mais agudo de revelar o total desrespeito e desconsideração pelo outro, implicando não somente o uso da força mas a possibilidade ou ameaça de usá-la".(13:10)

Embora considerando a violência fundadora da sociedade," ela tem uma saída sacrifical na religião o assassinato e o sacrifício são aparentados, levando o ser humano a buscar substitutivos para a violência como uma válvula de escape que serve de mediação entre o sacrificador e a divindade".(14:55)

Podemos perceber que a justificativa da violência através do sacrifício, como forma mediadora do indivíduo e da religião, ainda continua presente em nossa cultura, no imaginário da sociedade contemporânea, nos diversos rituais existentes, simbólicos ou não". Dados do Jornal Folha de São Paulo, publicados em 30/11/98, revelam que "no Brasil, a realização de sacrifício de pessoas humanas para redimir culpas ou atender uma exigência divina pode ser exemplificado no massacre de seis pessoas no Acre, além do espancamento de outras sessenta, por grupos que declaram ver monstros ou demônios nos próprios filhos".(15:3-4)

Ao analisar a problemática da violência, do ponto de vista econômico e do poder, Engels16 questiona a idéia de explicá-la de forma decisiva pelas relações políticas e pela imposição da vontade e considera que "o aspecto econômico da relação é mais fundamental na História do que o aspecto político"(16:166). Ao enfatizar os interesses econômicos, Engels busca a compreensão da violência nos meios e condições materiais. Para ele, "o exercício da violência e seus instrumentos estão vinculados ao desenvolvimento da tecnologia, que se articula com a manutenção do poder e da propriedade, implicando o uso de instrumentos como o exército e a marinha de guerra".(16:166)

Para tanto, temos que levar em consideração que esse determinismo econômico não é, todavia, o único ângulo para se considerar a questão, mas no desenvolvimento histórico há que se considerar o processo de enfrentamento de interesses pela propriedade, pelos bens, pelo dinheiro, pelo conhecimento que trazem riqueza a seus possuidores.

É fundamental a relação entre violência e poder?

Para Faleiros "o econômico, o cultural, o político, o social se entrecruzam dialeticamente na disputa pelo território, pelo poder, pelo conhecimento, pela informação, pela imagem, pela posse do outro, pela liberdade, pois a violência coloca todas estas questões em jogo na sua prática cotidiana".(5:5)

Arendt tem uma contribuição muito importante para a compreensão sobre essa relação. Em suas reflexões a autora desconstrói a relação da violência com o exercício do poder e a relaciona com a perda do poder legítimo. Para Arendt o poder "se estrutura no processo de legitimação, e o domínio através da violência pura vem à baila quando o poder está em vias de ser perdido".(17:29)

Embora poder e violência sejam distintos, geralmente apresentam-se juntos. A tese da autora coloca a distinção, e até a oposição entre violência e poder considerando a primeira como instrumental. Para ela "o terror é a forma de governo que nasce quando a violência, após destruir todo o poder, não abdica, mas, ao contrário, permanece mantendo todo o controle".(17:30)

Ao refletir sobre outro paradigma da violência, Wieviorka fala de "uma violência infra-política, resultante das ações privadas de agressão mas, também esta forma implica a perda do poder legítimo, como acontece nos casos de abuso sexual intrafamiliar. O pai ou o responsável invertem sua função de proteção e passam à dominação pois perdem a autoridade paterna e o senso de responsabilidade".(10:22)

Entendendo a organização que envolve seres humanos, como dinâmica e complexa, Edgar Morin enfatiza a capacidade da auto-organização inerente aos sistemas vivos. Lembra o fato da "coexistência permitida e aceita do erro, da desordem, do desvio, do devaneio, da transgressão que diferencia os sistemas vivos das máquinas artificiais, que, com o erro, param, ao contrário do homem (sistema vivo) que, no erro e com o erro, pode catapultar o sucesso, uma nova organização".(18:25)

Enfocando esse aspecto podemos considerar que os fatores culturais não são estáticos, mas sim dinâmicos permitindo a construção, desconstrução e reconstrução das condutas, hábitos e práticas dos seres humanos em seu dia-a-dia.

Para Faleiros:

[...] a violência de algumas gangues está vinculada ao consumismo para afirmação do grupo e do indivíduo. A disputa entre gangues vincula-se a esta afirmação do poder e de aparecer e de vencer. A competitividade está proclamada como valor universal num mundo chamado de globalizado e significa a capacidade de levar vantagem, de se sair bem, de ganhar.(5:06)

Então, tenta-se vencer a qualquer custo na cultura contemporânea?

Percebemos que o conflito torna-se o fundamento da existência da sociedade, e do ser em sociedade, que ocorre pela posição ocupada na sociedade, pela disposição dos recursos existentes e pela posição que se toma nas questões em disputa. Conforme indica Bourdieu "os campos de poder e recursos configuram posições de forças que disputam não só os lugares mas as distinções simbólicas próprias do campo e as vantagens econômicas e políticas. A prática social dos grupos e pessoas implica em estratégias de redução do campo do outro, de alianças, de oposições, de minar e dominar os hábitos dos outros".(19:56)

Para Faleiros:

[...] a relação social e política que incorpora as declarações de direitos humanos, é o que possibilita a convivência na divergência, ou seja, a construção de consensos nos conflitos. A não aceitação do conflito e dos mecanismos para enfrentá-lo provoca a violência, pois o conflito assume uma feição direta sem mediação e passa a ter como solução a força física, ou seja, a tendência em eliminar o outro na expectativa da eliminação do conflito. Portanto, a violência é a substituição da aceitação do conflito pela negação do outro.(5:7)

Considerando o paradoxal na idéia de violência, Maffesoli refere que a violência "é uma forma envolvente que tem suas modulações paroxístas e suas manifestações minúsculas."(6:9) E de forma encantadora o autor lembra o enlace de mistério que envolve o fenômeno dizendo "misteriosa violência que nos obscurece, que ocupa nossa vida e nossas discussões, que perturba nossas paixões e razões".(6:9)

A violência é tratada sob o ponto de vista do seu dinamismo interno, como herança comum a todo e qualquer conjunto civilizacional, estruturando constantemente a vida em sociedade. Constitui-se em força e potência, motor principal do dinamismo social, que remete ao confronto e ao conflito. A luta é o fundamento de toda relação social e se manifesta em instabilidade, espontaneidade, multiplicidade, desacordos, recusas.(8)

O autor lembra que, embora todas as coletividades históricas sempre tenham a preocupação de controlar a violência, nas sociedades contemporâneas esse controle pretende-se absoluto. O uso da força física tem sido monopolizado pela organização política e pelos poderes instituídos, que, sob a aparência de neutralidade, exercem, legalmente, uma violência abstrata: centralizando tudo o que é da ordem do policial, do militar e do fiscal, tentam estabelecer uma normalidade asséptica, domesticando a paixão e a agressividade.

De modo geral, a violência é tratada a partir do ponto de vista do poder, portanto, da lógica da dominação, que consegue - ou não - ser eficaz na sua repressão, desconsiderando-se a coletividade na qual se manifesta a potência. Para Maffesoli a potência é uma pulsão, no sentido simples do termo, que se expressa em todos os níveis da existência individual e social. Enquanto a lógica do poder é a dominação, a redução ao uno, a lógica da potência conduz ao pluralismo, à diversidade do real que estrutura inteiramente a vida social em sua labilidade(8:45-50). Entretanto, é no embate entre poder e potência que emergem as diferentes modalidades da violência, das quais Maffesoli analisa três: a violência dos poderes instituídos, a anômica e a banal.(6)

A violência dos poderes instituídos é aquela que é monopolizada por uma estrutura dominante, como: Estado, partido, organização criminosa ou terrorista. Através dela são eliminadas as zonas de sombras e turbulências, estabelecendo uma normalidade asséptica e que se constitui basicamente na manutenção do sistema de produção que tem como única finalidade o seu próprio desenvolvimento, portanto não é vista por Maffesoli como de caráter "construtivo", porque esta modalidade não parte de uma solidariedade de massa, ela é imposta. São exemplos: a polícia civil, a máfia, etc.(6)

Entretanto, para Maffesoli "há uma permanente tensão entre poder e potência, pois mesmo que aparentemente a massa ou o grupo se submeta ao poder, só o faz enquanto não houver possibilidade de confronto".(8:64) Para Balandier este duplo movimento da violência, relação entre poder e potência, corresponde às duas figuras da desordem: a destruidora, quando ocorre perda da ordem e os elementos se dissociam e tendem a não mais constituir uma estrutura, uma organização, mas uma adição, uma simples soma; e a criadora, quando essa perda é acompanhada de um ganho de ordem, é geradora de uma nova ordem que substitui a antiga, em um nível mais elevado.(20:48) Nos momentos de efervescência (revoluções, greves), a potência eclode e esse confronto torna-se possível. Quando um dos pólos da relação poder-potência é bloqueado, rompe-se o equilíbrio; nesses momentos, dá-se a manifestação da potência, que explode em violência generalizada. A tentativa de controle absoluto é exemplo desse rompimento.

Este tipo de violência é chamada por Maffesoli de anômica. Ela é uma resposta à violência e à dominação dos poderes instituídos, no intuito de proteger o corpo social. Manifesta-se em atos de resistência e nas diversas formas de ilegalidade e consubstancia-se em revoltas latentes que explodem ocasionalmente. É um fenômeno ambivalente que se inscreve num duplo movimento - de destruição e reconstrução -, que mantêm uma estreita conexão entre si, constituindo um vaivém incessante entre ordem e desordem, fundamento da estruturação social.(6)

A relação poder/potência será sempre dialética, porque nesses momentos um novo poder se instala e o ciclo recomeça. E poder sempre será imposição, pois, como refere Maffesoli "ele não muda de natureza quando muda de mãos".(8:55)

Mas, há uma outra forma de violência que a coletividade utiliza para fazer frente às formas de dominação: a violência banal. Esta expressa uma passividade (ativa) da massa que não se integra ao instituído, mas se opõe a ele, subvertendo o poder, embora sem integrar qualquer contestação ou ação política. Submissões aparentes, conformismo, por exemplo, são formas de resistência, de expressão da duplicidade: não há recusa absoluta, nem adesão arrebatada. Não se luta contra os valores estabelecidos, antes, procura-se manter distância ou utilizar formas de resistência, como a arte de fachada, ironia, máscara, silêncio, tagarelice, grafites e pichações.

A violência banal é analisada a partir de uma perspectiva dionisíaca, a qual garante uma "resistência de massa" ante os poderes constituídos através da paixão social. Essa violência é expressa através de uma "passividade ativa da massa": a "banalidade", que segundo o autor "é o que alicerça e cimenta o prazer de estar juntos; é a "participação afetiva" que possui um caráter aglomerativo, constituindo este entrecruzamento das múltiplas e minúsculas paixões que constituem a socialidade. Ela também é construtiva". Como exemplo temos: carnaval, torcidas de futebol.(6)

Diante dessas concepções, como perceber o fenômeno da violência na cultura contemporânea que reflete no cotidiano familial?

Inicialmente é preciso considerar que a violência "é um complexo fenômeno bio-antropo-sociológico-cultural e cujos contornos e limites ultrapassam a barreira da sua visibilidade física".(18:28) Portanto assume diversas influências de cunho econômico, social, político, biológico, cultural, entre outros.

Entre os fatores externos que, sem dúvida, contribuem para aumentar os níveis de violência no âmbito familiar na cultura contemporânea, lembramos as condições socioeconômicas, os níveis cada vez mais absurdos de miséria e pobreza de uma camada da população que se elevam aceleradamente, a disseminação do uso de drogas, o abuso de álcool.

Para Rifiotis:

[...] as matrizes ligadas às desigualdades sociais certamente respondem a um campo importante das variáveis macrossociais, mas a elas não pode ser imputada uma causalidade. Afinal, apesar dos segmentos pobres estarem superestimados nas estatísticas de criminalidade, os crimes de "colarinho branco" seriam mais freqüentes e rotineiros.(2:5)

Ainda para esse autor "não se trata de excluir a pertinência da leitura do macro, mas de se procurar algo mais do que o julgamento exterior, um objeto de correção."(2:5) Isso pode ser exemplificado em relação às estatísticas que demonstram que em relação à violência a maioria das ocorrências é nos finais de semana e na maioria das vezes o agressor havia feito uso de álcool ou drogas.

Diante do exposto, não se trata apenas de analisar os dados quantitativos que se mostram, mas de perceber o detalhamento da situação. Diante do exemplo anteriormente citado é possível que nos finais de semana possa haver uma maior proximidade entre as pessoas e no caso de situações de conflitos e desavenças, a violência seja manifestada. Essa não é uma visão cultural da sociedade contemporânea?

É esse estranhamento que precisamos fazer para nos aproximarmos das experiências vividas pelas famílias em situação de violência. Não devemos fazer um julgamento antecipado da situação de violência em que a família se encontra, mas devemos tentar conhecer, ou até mesmo compreender o que as pessoas envolvidas em situação de violência estão fazendo ou tentando fazer quando estão nessa situação.

Para Rifiotis "o caráter vivencial das experiências sociais ligadas ao campo da violência nos leva de imediato a um campo pouco explorado e que pode nos trazer uma melhor compreensão do fenômeno estudado, não se trata de procurar uma espécie de declaração ou justificativa dos envolvidos, mas uma coerência situacional, ou seja, o fazer situacional que pode nos aproximar da vivência das situações de conflito e de violência".(2:04)

Pensar o conceito de violência como um sistema inter-relacional, que se interliga e se mescla no cotidiano da vida privada e pública dos sujeitos que constituem o núcleo do sistema familiar é considerar os aspectos psicológicos, sociais, culturais, entre outros, como fatores que contribuem para o aumento da violência diária.

Assim, o homem está amarrado a teias de significado por ele próprio tecidas, dentro das quais vive e cujos elementos estão tão envolvidos no viver humano que são naturalizados a ponto de não serem criticamente percebidos. Esta teia de significados não é estática e nem tampouco tem localização externa ao indivíduo. Ao contrário, ela é dinâmica, modificando-se e atualizando-se em função das interações humanas que continuamente se dão.

É no cotidiano que se ritualizam, problematizam, produzem e legitimam as formas de viver. O cotidiano é, portanto, um ponto de referência por excelência para o direcionamento das práticas de investigação, que são consideradas como prática social que busca contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos. É no cotidiano que podemos resgatar os aspectos culturais dos indivíduos para compreender a dinâmica da violência e construir potencialidades de ação para o seu enfrentamento.

Cada vez mais percebemos a violência que se mostra no espaço doméstico, nas relações familiares, nas atividades cotidianas dos indivíduos parecendo querer continuar, dominar, integra e faz parte do dia-a-dia das ações e relações familiares. Pode-se percebê-la quando se direciona o olhar para as pequenas ações e relações que compõem a família nas sombras de algumas características como ausência da "alteridade" e o "etnocentrismo".

Para Carvalho a "alteridade" é entendida como o respeito à diferença e o "etnocentrismo" pode ser considerado como a atitude de privilegiar um universo de representação, propondo-o como modelo e reduzindo à insignificância os demais universos e culturas diferentes.(21:76-77) Tanto a ausência de alteridade, como a prática do etnocentrismo podem ser consideradas elementos existentes num ambiente familiar violento que, além de não respeitar as diferenças e divergências do seus membros familiares, ainda se utiliza da força e do poder para a imposição de normas, rotinas e comportamentos unidirecionais.

É no espaço familial que se estruturam os conceitos de disciplinas, organiza-se a intimidade e se estabelece relação de afeto entre os seus membros.

A convivência diária com a representação da violência no mais amplo contexto seja ela do social ou do individual pode gerar a desordem ou desequilíbrio no núcleo familiar.

Para Melo "a família necessita de um lugar onde os vários membros se organizem e se interliguem no contexto afetivo e sócio-cultural, o grupo precisa demarcar o espaço, a função e os papéis na vida privada e pública do sujeito, respeitando a hierarquização da autoridade para poder solidificar o afeto".(4:01) Assim sendo, os lugares e os papéis na relação interna da família serão bem definidos, pois, do contrário, existe a perda das referências, as vivências se mesclam e as regras podem tornar-se confusas e os papéis hierárquicos poderão assumir propostas invertidas; o papel da figura geradora da autoridade perde autonomia, já que não consegue estabelecer limites entre os vários elementos que compõem o grupo familiar.

Diante da impossibilidade de demarcar o espaço interno e externo do membro na família, ou seja, o seu papel na dinâmica familiar pode ocorrer a ausência da ordem, das normas e da autoridade.

Conseqüentemente os espaços são invadidos e os limites se entrelaçam e se confundem, e as barreiras se tornam inexistentes entre os membros da família. Dessa forma, é possível criar um clima de tamanha desordem que, possivelmente, tais fenômenos poderão gerar uma espécie de anomia dentro do sistema familiar, instaurando a violência entre os vários elementos inter e intrafamiliares.

Num estudo realizado por Melo a violência esteve relacionada com a falta do elemento representativo da lei, representativa da simbologia do elemento organizador da ordem e do limite estruturante, organizador do afeto e da autoridade. Foi constatado que os agressores também já haviam vivido em ambientes violentos na família de origem. Portanto as histórias de vida se repetem e se mesclam com as histórias de violência dos filhos; uma geração marcada por vivências cruéis, que são passadas para a organização da nova família. A violência física marca ciclos de violência e demarcam as dificuldades de romper com o processo, pois a violência passa a ser algo considerado como natural na convivência diária.(4)

Na cultura contemporânea a representação da ausência da figura materna e/ou paterna pode contribuir também para a desorganização da família no que diz respeito às regras disciplinares nas relações familiares. A ausência pode ser caracterizada por um familiar omisso, violento e alcoólico, pois tais elementos na dinâmica familiar podem contribuir com a desorganização, desarticular relações e contribuir de forma maléfica na ordem familiar.

Segundo dados do SOS Criança de São Paulo dentre as causas de 15.523 casos de violência registrados contra a criança e o adolescente, 63% foram relativos à dependência de drogas, 28% de negligência; 5% de agressão física; 2,5% de agressão sexual e 0,6% de agressão psicológica.(22:5)

O alcoolismo é um fator de agravamento das manifestações da violência privada. Pesquisa realizada no Instituto Médico Legal de São Paulo no período de 1986 a 1993 revelou que 95% dos corpos que dão entrada no IML têm álcool no sangue, e 11% têm mais de 4g de álcool por litro de sangue, o que é suficiente para matar. O álcool foi responsável por 70,6 mil (30%) dos acidentes de trânsito com vítimas em 1995. Pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da USP na Zona Sul mostra que o álcool aparece como agente detonador em pelo menos 41% dos homicídios, e o tráfico de drogas em 11,7%, tal como o crack. Nos Estados Unidos o álcool é muito relevante em casos de violência doméstica, pois em 72% dos casos o estuprador estava bêbado.

O uso de álcool e de substâncias ilícitas além das precárias condições socioeconômicas são algumas das causas relacionadas à violência em nossa cultura, portanto devem ser relativizadas em seu contexto e não consideradas como fatores determinantes.

A ausência de laços de afeto na relação familiar inscreve a desordem, a ausência da autonomia e da preferência do ser individual no contexto do grupo social.(23)

Outro fator interessante que podemos pontuar como desencadeador da violência nas relações familiares é a ausência de tradições na família.

A família convive e sobrevive dentro do contexto das tradições. Essas atendem ao sistema de poder, exercem o controle dos "ritos" na cotidianidade da vida do sujeito, os registros das fábulas, das lendas e dos costumes que são elementos culturais organizadores das experiências e vivências do ser humano.(4)

No entanto a ruptura das tradições pode propiciar uma quebra nas relações vinculares, representar uma desordem nas relações familiares - os laços poderão ser transformados em desenlaço, a ordem em desordem, o que pode transformar-se em transgressão e essa ser um espaço aberto para a inscrição da violência.

Para Teixeira "a função simbólica dos ritos humanos é religar os indivíduos, através dos atos rituais, à ordem social". Ainda para essa autora "ao transmitir uma visão de mundo e códigos culturais, os ritos servem como dispositivos de moldura que permitem aos participantes localizar-se na sociedade e na cultura de seu tempo, garantindo, com isso, a construção da identidade grupal".(24:62)

O que se percebe hoje é que a família vem sofrendo um processo de empobrecimento dos rituais que garantiriam a construção de sua identidade e das identificações de seus diferentes membros. A progressiva desritualização da família decorre do enfraquecimento dos sistemas culturais de valores da sociedade e da família.

Nesse sentido, assiste-se a uma passagem da predominância dos ritos criados pela família para a dos ritos criados e dirigidos pelos seus membros, que, muitas vezes, expressam-se em atos considerados violentos. Comentando as relações entre violência e adolescência, Figueiredo mostra que estas podem ser tratadas em diversos níveis, que devem repousar na aceitação de que há uma violência salutar - desafiadora, intempestiva, irresponsável, lúdica, provocadora, criativa e freqüentemente transgressora - decorrente da imaturidade do adolescente.(25:10)

Daí ser imprescindível a família retomar o processo de ritualização. É preciso que ela recrie e preserve seus rituais familiares e sociais, em especial aqueles que desenvolvem e fortalecem o "cimento" grupal, incluindo-se cerimônias diversas, aniversários, cerimônias, datas comemorativas, festas na comunidade, encontros de finais de semana, os quais podem contribuir para explorar potencialidades em favor de uma nova ordem/desordem.

Isso nos remete à idéia de "proxemia" proposta por Maffesoli. Para ele "há momentos em que o indivíduo significa menos do que a comunidade na qual ele se inscreve".(7:169) Ainda para esse autor o termo "proxemia" refere-se à idéia de:

[...] o homem em relação [...] não apenas a relação interindividual, mas também a que me liga a um território, a uma cidade, a uma ambiente natural que partilho com outros [...] a história de um lugar se torna história pessoal [...] maneira que permite a cada um olhar para além da efêmera e extravagante vida individual e sentir-se como o espírito da casa, da linhagem, da cidade.(7:170-1)

Para Melo(4) a representação da violência nas relações inter e intrapessoal é devastadora, pois impede o ser humano de criar e ordenar a sua potencialidade, a auto-estima é comprometida, como também as trocas do dar e receber afeto. A violência doméstica e a social estão interligadas, possivelmente crianças que são submetidas a maus tratos têm maior possibilidade de estender a violência da casa para a rua.

 

TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES COMPLEMENTARES

É o caráter multidimensional da violência que obriga a constituição de uma abordagem interdisciplinar (biológica, sociológica, psicológica, jurídica, estatística, psicológica, da saúde, entre outras), numa perspectiva de combinação e relativização permanentes dos diversos aspectos (econômicos, culturais, sociais, entre outros, dos indivíduos e de toda a sociedade) qualitativos e quantitativos, além da articulação constante entre os planos micro e macro, entre o subjetivo e o objetivo.

Para compreendermos a violência precisamos levar em conta toda a sociedade, suas interações, bem como em que contexto ocorrem as relações familiares, o processo histórico das relações de poder e os aspectos culturais, para podermos visualizar a complexidade e a magnitude desse fenômeno.

As diferentes visões da violência mostram que a apreensão do problema é extremamente complexa, sem que possamos identificar uma origem da violência ou um só ângulo para abordá-la. Como refere Faleiros "a violência se torna um filtro pelo qual podemos discernir a realidade numa múltipla constelação, e é um modo pelo qual a sociedade se manifesta historicamente e culturalmente. Não se pode cristalizar uma visão do problema como se fosse a única, como não são únicas as concepções de prazer, de sexualidade, de cotidiano. É uma categoria que só pode ser vista numa constelação teórica de perspectivas".(5:08)

Não podemos descartar que as condições econômicas estejam presentes nas disputas violentas, mas não se pode reduzi-la ao econômico, visto que a transgressão às normas sociais configura uma violação do direito e dos códigos de conduta.

É fundamental considerar que a não aceitação do conflito e de mediações políticas e normativas para resolver os conflitos socialmente postos podem implicar a eliminação ou negação do outro. Desse modo, a ausência da legitimidade do poder pode desencadear um processo de violência para manutenção da dominação.

Domesticar a violência por meio de regras e códigos de conduta rígidos parece não ser a solução. O desafio é canalizá-la, organizá-la, integrá-la a e combiná-la com outras práticas sociais e simbólicas. Trata-se, em outras palavras, de procurar formas de geri-la como figura da desordem, já que nenhuma sociedade pode ser purgada de toda desordem. É preciso, então, saber lidar com ela, em vez de tentar eliminá-la.

As soluções devem ser encontradas em cada família ou em cada membro familiar, para cada caso. Algumas ações como: encontrar espaços para que a família desenvolva atividade de lazer e confraternização; promover um espaço para que a família reflita acerca da situação de violência vivenciada; terapias grupais com vista ao resgate da potência familial e da auto-estima; participação da família em associações (de bairro, de jovens, de igreja, entre outras) podem colaborar para a prevenção da violência e (re)significação de um quotidiano familial saudável.

Acreditamos que essas são apenas algumas reflexões da violência presente em nossa sociedade e que tanto nos desperta para o seu possível entendimento no dia-a-dia da família. Acreditamos que, com o desenvolvimento de estudos que possibilitem a compreensão do significado da violência e da potência familiar, outros caminhos poderão ser apontados para a (re) significação desse fenômeno no quotidiano familial.

 

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