REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume: 15.2 DOI: http://www.dx.doi.org/S1415-27622011000200016

Voltar ao Sumário

Pesquisa

Desafios e dificuldades enfrentadas pelos profissionais de enfermagem em início de carreira

Challenges and difficulties faced by nurses atthe beginning of their career

Flávia Aparecida de SouzaI; Marcelle PaianoII

IEnfermeira formada pela Faculdade Ingá-Uningá
IIEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Endereço para correspondência

Rua Mario Clapier Urbinati, n. 1005, apto. 209, Jardim Universitário
Maringá-PR
E-mail: marcellepaiano@hotmail.com

Data de submissão: 16/9/2008
Data de aprovação: 28/4/2011

Resumo

Durante a graduação, grande parte dos acadêmicos de enfermagem idealiza formas de como se destacar perante a equipe de enfermagem e realizar-se profissionalmente, porém, ao iniciar a carreira profissional é que surgem as dificuldades. O desenvolvimento desta pesquisa teve por finalidade conhecer quais as dificuldades encontradas pelos docentes-enfermeiros em seu primeiro vínculo profissional e de que maneira superaram tais problemas. O estudo foi realizado em uma instituição particular de ensino no noroeste do Paraná, englobando os docentes-enfermeiros da instituição. Trata-se de um estudo descritivo, com abordagem qualitativa, do tipo pesquisa de opinião Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário semiestruturado com questões abertas e fechadas. Neste estudo, verificou-se que a maioria dos profissionais encontrou dificuldades, sendo as principais: insegurança, falta de prática, dificuldades na administração hospitalar e liderança. Os entrevistados mencionaram como forma de enfrentar essas dificuldades o desenvolvimento de atividades diárias, a busca do conhecimento, dedicação para superar os obstáculos e ajuda de profissionais experientes para o esclarecimento de dúvidas. Portanto conclui-se que somente a graduação e os estágios realizados durante o curso não formam os profissionais para iniciarem no mercado de trabalho. O enfermeiro recém-graduado não pode ser considerado um produto pronto e acabado, precisa de treinamento, incentivo e participação para desempenhar adequadamente sua função na instituição empregadora.

Palavras-chave: Emprego; Enfermagem; Limitações

 

INTRODUÇÃO

Durante a graduação, grande parte dos acadêmicos de enfermagem idealiza formas de como se destacar perante a equipe de enfermagem e realizar-se profissionalmente. Eles desejam cuidar das pessoas, solucionar seus problemas, promover e manter a saúde e o bem-estar de seus clientes, mas, na maioria das vezes, a realidade se mostra um pouco diferente. Ao se depararem com a rotina das instituições de saúde, muitos dos sonhos e projetos que elaboraram durante o curso de graduação são capturados pelos serviços institucionalizados e, dessa maneira, ficam adormecidos.1

Frequentemente, o profissional recém-graduado sente-se incapaz e, com isso, insatisfeito com seu trabalho, pois nem sempre consegue realizar com êxito a função que é de sua competência, nem mesmo se acha capacitado para assumir determinados cuidados para com seu paciente, pela falta de habilidade, medo de errar2 e insegurança para iniciar determinados procedimentos, gerando situações que causam angústia e ansiedade.1

Portanto, o desafio que se impõe é encontrar um equilíbrio entre formar e formar-se. Ao ingressarem no ensino superior, os alunos necessitam de um universo de conhecimentos que implicam a atitude deformar-se, pois, além de qualificá-los tecnicamente, a universidade tem a missão deformar cidadãos conscientes, éticos e críticos.3

Dada a relevância do tema, objetivamos conhecer as principais dificuldades enfrentadas pelos docentes-enfermeiros em início de carreira. Para tanto, entrevista mos os docentes de uma instituição de ensino, acreditando que eles tenham passado pelos mesmos sentimentos de angústia e incerteza durante seu primeiro vínculo profissional que os acadêmicos recém-formados.

 

METODOLOGIA

Estudo descritivo, com abordagem qualitativa, do tipo pesquisa de opinião, que busca conhecer as ideias de um grupo de pessoas sobre determinado assunto. Em sua maioria, os estudos que se realizam no campo da educação são de natureza descritiva e têm por finalidade obter o conhecimento aprofundado de uma realidade delimitada, de modo que os resultados atingidos permitam a formulação de hipóteses para o encaminhamento de outras pesquisas.4

Soma-se a essa proposição a pesquisa descritiva, na qual se observam, registram-se, analisam-se e correlacionam-se fatos ou fenômenos (variáveis) sem manipulá-los. Esse tipo de pesquisa pode assumir diversas formas, uma das quais é a pesquisa de opinião, que procura saber atitudes, pontos de vista e preferências das pessoas a respeito de algum assunto, com o objetivo de tomar decisões.5

O estudo foi realizado em uma faculdade particular do noroeste do Paraná, no período de maio a junho de 2008. A população-alvo foi composta pelos docentes enfermeiros que lecionam no curso de enfermagem, porém, dos 22 docentes enfermeiros que fazem parte da instituição, apenas 10 aceitaram participar do estudo.

O instrumento utilizado foi um questionário semiestruturado com questões abertas e fechadas, referentes às maiores dificuldades encontradas pelos docentes enfermeiros no início de sua carreira profissional. Para o procedimento de coleta de dados, o questionário foi entregue a todos os docentes que aceitaram participar do estudo, na própria instituição de ensino, após contato prévio.

Para a análise dos dados, foram apresentadas categorias predominantes que emergiram dos apontamentos durante a entrevista, ilustrados com falas significativas dos candidatos participantes do estudo.

Para cumprir a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, este estudo foi submetido à aprovação do Comitê Permanente de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (COPEP), da Unidade de Ensino Superior Ingá (Uningá - Parecer nº 59/2008.

Para a realização da entrevista, os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), contendo todas as informações sobre o estudo: seus objetivos, a final idade da pesquisa, o tipo de colaboração necessária para o seu desenvolvimento e as estratégias utilizadas para realização da coleta de dados.

 

RESULTADOS

Dos 10 docentes entrevistados, um tinha entre 30 e 35 anos; dois, entre 35 e 40 anos; cinco, entre 40 e 45 anos; e dois, entre 45 e 50 anos. Com relação ao tempo de conclusão do curso, verificou-se que um docente tinha 5 aio anos de formado; quatro, de 10 a 15 anos; dois, de 15 a 20 anos; e três, de 20 a 25 anos. Constatou-se que, do grupo, três afirmaram que já trabalhavam como auxiliar ou técnico de enfermagem antes do ingresso no curso superior. Quanto ao tempo decorrido entre o término do curso e início do exercício profissional, três informaram que haviam iniciado a carreira de imediato e sete tê-lo feito entre 2 e 5 meses. Quanto à capacitação dos profissionais, todos iniciaram suas atividades sem ter cursado nenhuma pós-graduação.

Quando questionados sobre seu preparo para exercera profissão, todos os entrevistados afirmaram que estavam preparados, porém com um pouco de insegurança. Em relação à causa dessa insegurança, oito sentiram-na ao exercer a função de enfermeiros gerenciais, enquanto dois afirmaram que não se sentiam preparados para a função de gerência e para a realização de procedimentos e técnicas.

Sobre a realização de cuidados aos pacientes, quatro afirmaram que se sentiam preparados para realizar procedimentos e/ou assumir cuidados com o paciente, porém com insegurança; quatro afirmaram que se sentiam preparados sem dificuldades e dois afirmaram que não sentiam preparados, salientando a falta de preparo e técnica.

De acordo com os entrevistados, todos eles receberam ajuda de profissionais mais experientes no início da carreira e que para superar essas dificuldades é necessário o aprendizado diário e a ajuda dos colegas de trabalho.

Sobre o conhecimento adquirido na graduação e sua utilização durante a prática profissional, um não respondeu e nove afirmaram que somente os estágios realizados durante a graduação não são satisfatórios para preparar os graduandos para exercer a profissão sem nenhuma dificuldade.

 

DISCUSSÃO

Em relação ao tempo de conclusão do curso e início das atividades profissionais, em pesquisa realizada,6 verificou-se que 13 dos 15 enfermeiros recém-formados estavam empregados pouco tempo após a conclusão do curso de graduação, variando o tempo em até três meses. Esse dado corrobora nosso estudo, em que todos os docentes-enfermeiros entrevistados obtiveram o primeiro emprego num período inferior a cinco meses.

Dados revelam uma ampliação indiscriminada dos cursos e das vagas da graduação em medicina, enfermagem e odontologia entre 1995 e 2001, no Brasil. Para a enfermagem, os cursos aumentaram de 108 para 215, o que significa um crescimento de 99,1% no período de 1995 a 2001.0 número de vagas ofertadas cresceu ainda mais (174, 3%), aumentando de 8.068 para 22.133. Quanto ao número de egressos, já se observa uma expansão de 45, 3%, percentual que ainda não reflete o aumento global do número de cursos e vagas.7

Apesar do aumento do número de egressos dos cursos citados e consequente aumento do número de profissionais no mercado, pesquisa realizada com 52 acadêmicos de enfermagem demonstra que a principal motivação pela escolha da profissão é a vocação (85%), seguida pelo reconhecimento social e profissional (13%) e pelo salário (2%).8

Em relação à insegurança dos profissionais, foi possível observar que inicialmente ela fez parte da trajetória de todos os entrevistados. Pesquisa aponta que dados referentes às dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros no início de carreira sinalizam que estas permeiam toda a iniciação profissional, independentemente da área por eles escolhida após o término do curso.1

A iniciação profissional torna-se um desafio na vida do egresso, podendo ser encarado de duas formas quase que simultaneamente, ora por coragem em aceitar a oferta de emprego disponível, ora com sentimentos de temores, acomodações e insegurança necessitando de maturidade para tomada de decisões.9

Em relação às ações de cuidado em estudo realizado1 com 68 enfermeiros recém-formados ressaltou-se que 42% das dificuldades identificadas envolviam a insegurança, demonstrando que o enfermeiro recém-formado não se sente seguro para assistir/cuida rebusca ajuda, principalmente, por meio de consultas a livros e a colegas de serviço ou de graduação.

Estudo realizado em Londrina-PR6 com enfermeiros recém-formados refere que, dos 15 entrevistados, três enfermeiros relataram que não se sentiram preparados para a função, alegando que o fator principal do despreparo foi a insegurança gerada no início da carreira. Dos três enfermeiros que responderam que se sentiram parcialmente preparados na época do primeiro emprego, dois alegaram que alguns conteúdos não foram abordados na graduação ou que faltou aprofundamento em alguns temas. Apenas um relatou que se sentiu preparado, porém com alguns receios.

Segundo o autor, 80% dos entrevistados disseram que haviam sentido dificuldades no primeiro emprego, justificadas da seguinte maneira:quatro alegaram pouca experiência em liderança; dois deram como causa a rotina da instituição; dois, o medo do desconhecido e a insegurança; um alegou falta de apoio e estrutura da instituição; um referiu falta de conhecimento técnico-científico e assistencial; e dois não responderam. Dos 15 enfermeiros entrevistados, sete (46,66%) afirmaram que a escola forma o aluno para prática e sete atestaram o contrario.Três enfermeiros justificaram que a instituição possui campos de estágio amplos e dois participaram do internato de enfermagem, prática que facilitou a aquisição de habilidades; dois afirmaram que a escola forma para a prática, mas o profissional necessita de tempo para aperfeiçoar-se.

Os sete enfermeiros que responderam que a instituição não forma o aluno para a prática justificaram sua afirmação da seguinte forma: quatro alegaram que a escola, por si, não forma um profissional apto para estar no mercado de trabalho e que alguns conteúdos ficam pendentes; três disseram que durante o exercício profissional mui tas vezes presenciam situações inéditas, não estudadas em sala de aula; um enfermeiro, que respondeu "nem sempre", alegou que alguns professores não relacionam a teoria com a prática.

Ainda de acordo com a pesquisa, oito dos enfermeiros (53, 33%) acreditam que os conteúdos fornecidos foram suficientes, 40% que foram insuficientes e 6, 67% não responderam a essa questão. Ainda nesse quesito, 80% dos entrevistados afirmaram que os docentes relacionam os conteúdos com a realidade e 60% consideraram que os alunos mostraram interesse durante o curso de graduação.

Vale ressaltar que, neste estudo, os entrevistados que afirmaram não sentir dificuldades já trabalhavam como auxiliares de enfermagem antes de ingressar no curso superior. Isso demonstra que a destreza no desempenho técnico somente será adquirida com o tempo e a repetição do procedimento. Não obstante, afirmaram que a maior preocupação não se relacionava à segurança em procedimentos e técnicas, mas, sim, à parte administrativa e ética da enfermagem.1

Quando interrogados sobre as maiores dificuldades enfrentadas ao iniciara carreira profissional, d estaca-se a falta de aceitação pela equipe médica e de enfermagem, dificuldade em tomar iniciativa e insegurança, falta de liderança e conhecimento na área de administração hospitalar, conforme se confirma nestas revelações:

Realização de projetos, pois quando fiz o curso as pesquisas praticamente não existiam. Tive que estudar muito para superar falhas no aprendizado durante o curso.

Liderança, óbito do paciente, relacionamento com família do doente.

Aceitação por alguns funcionários, dificuldades de liderar por tratar todos com igualdade e vencer inseguranças por situações nunca vivenciadas.

Falta de aceitação pela equipe médica e de enfermagem em aceitar o profissional enfermeiro.

Falta de liderança e tomada de decisão.

Falta de gerenciamento, supervisão, equipe.

Insegurança se me sairia bem na profissão. Ficava pensando que tinha funcionários que tinha minha idade de experiência.

Fundamentação teórico-prática em administração hospitalar, principalmente no que diz respeito a recursos humanos.

Nesse contexto, egressos do curso de enfermagem10 sugeriram o fortalecimento da prática interdisciplinar e apontaram a necessidade de otimizar a distribuição de conteúdos e de carga horária das disciplinas destinadas à formação de competências administrativas. Sugerem, ainda, a aproximação do estudante da realidade profissional, com estágios em instituições diversas o mais precocemente possível, propiciando as condições geradoras de um aprendizado significativo e consistente, capaz de mobilizá-los a buscar novos conhecimentos numa perspectiva contextualizada, deforma a garantir um desempenho profissional competente, determinante e determinado pelas transformações sociais. Consideram, assim, que os conteúdos da administração devem permear, ao longo do curso, a concretização do currículo proposto e fazer a interlocução com outras disciplinas, de tal forma que promova um ensino integrado e contextualizado.

Ainda em relação ao conteúdo de administração ministrado na faculdade, verificou-se que existem entre os acadêmicos diferentes pontos de vista sobre o conteúdo: alguns o julgam adequado, outros, insuficiente. Referem, ainda, não ser um conteúdo acabado, devendo ser aprofundado na prática.11 Esses dados são reforçados por uma pesquisa6em que 80% dos enfermeiros disseram que sentiram dificuldades no primeiro emprego, justificadas pela pouca experiência em liderança, dentre outros.

Quando questionados sobre como conseguiram superar essas dificuldades, os entrevistados se mostraram divididos, citando maneiras diferentes, como se segue:

Depois de algum tempo e maturidade.

Com desempenho de atividades no dia a dia.

Com humildade, dedicação e curiosidade.

Aprendendo diariamente e superando obstáculos.

Correndo atrás de quem sabia e estudando muito.

Procurando ajuda com outros profissionais.

Ainda com todo este tempo de formação, não consegui superar totalmente estas dificuldades.

Com o passar do tempo, as pessoas aprendiam que nem sempre o autoritarismo é a melhor forma de trabalhar e com iniciativa.

Trabalhando com seriedade, mostrando a importância do enfermeiro em gerenciar o trabalho.

A insegurança pode ser encarada pelos recém-graduados de duas formas possíveis: acomodando-se ao meio encontrado e, nesse caso, são capturados pelos serviços institucionalizados, tornando-se adormecidos; percebendo que seus saberes e competências, antes sentidos como fortes, apresentam-se instáveis, faltando habilidade para a imersão no cuidado. Na verdade, o desvelar da competência adquirida pelo recém-graduado se faz na interface com o contato com os novos saberes que a desdobram, pelas especificidades locais, e refinamento do objeto de trabalho do qual vai se apropriando nos serviços.9

Em enfermagem, exercitar no âmbito de uma competência é permitir consolidar conhecimentos trazidos para a prática, isto é, relacionar os saberes as situações no contexto da prática. Deluiz12 discute o modelo das competências profissionais, no mundo do trabalho e na educação, buscando as implicações para o currículo e o faz referenciando sua critica à lógica da hegemonia capitalista nos modos de gerenciamento das organizações do trabalho e do saber dos trabalhadores. Discute as diferentes concepções de competência nos modelos de educação profissional, analisando padrões teórico-conceituais que guiam a identificação e a construção de competências. Aponta, ainda, o sofrimento no trabalho advindo do estresse e da ansiedade decorrentes do medo de perda do emprego, das relações inseguras do trabalho, da intensificação de jornadas, dentre outros.

Portanto, pode-se observar que diversos são os desafios encontrados ao iniciar a carreira, porém cada profissional estabelece uma maneira diferente de superação desses desafios, e que adquirir experiências com o tempo e procurar ajuda de profissionais mais experientes são iniciativas importantes para superar alguns obstáculos.

Segundo Dias, Guariente e Belei,6 a maioria dos enfermeiros procurou auxílio diante das dificuldades enfrentadas no primeiro emprego, principalmente por meio de consultas a livros (35,72%), à própria chefia (28,57%), a colegas de serviço ou da graduação (28,57%) e aos ex-professores (7,14%).

O conhecimento adquirido na escola não pode ser compreendido como acabado, e o processo de aprendizagem deve ser contínuo no decorrer da vida profissional. O estudante necessita ser pedagogicamente esclarecido de que ele não vai à escola somente para obter e conquistar diplomas, mas o importante para ele é que adquira o instrumental necessário para enfrentar e desenvolver sua vida da melhor forma possível. Cumpre lembrar, também, que as instituições de ensino e seu corpo docente são responsáveis por formar profissionais que sejam críticos e reflexivos e sempre busquem novos conhecimentos.11

Neste estudo, quando questionados sobre as possíveis causas para essas dificuldades encontradas ao iniciar a carreira, os participantes destacaram a pouca oportunidade no estágio durante a graduação e medo, conforme as revelações a seguir:

Os estágios colocam o futuro profissional em contato com técnicas e procedimentos que surgem, porém nem todos são realizados, pois dependem muito da demanda.

Os estágios realizados servem como base, pois muitas vezes alguns procedimentos ficam restritos durante a vida acadêmica.

É necessário que o aluno faça estágio em unidades de saúde, hospitais, fora do horário de estágio.

Depende muito do interesse e da iniciativa do aluno.

No estágio, durante a graduação, não dá para ver tudo; às vezes o campo de estágio é pouco e oferece poucas oportunidades.

Pouca experiência, medo do desconhecido.

Insegurança, também acho que falta iniciativa por parte dos alunos durante a graduação.

Como se pode observar, os entrevistados acreditam que o campo de estágio é a chave para o desenvolvimento técnico do acadêmico, porém muitas vezes ele é insuficiente, seja pela demanda prejudicada, seja pela ausência de procedimentos durante o estágio. Assim, destacam a importância de estágio extracurricular, uma vez que alguns procedimentos não foram suficientemente desenvolvidos durante a graduação.

O estágio curricular, portanto, deve ser concebido de forma a proporcionar atividades dinâmicas que redundem em ganho real tanto para o graduando e para a instituição assistencial como para a melhoria da qualidade do cuidar em enfermagem, principalmente numa perspectiva que contemple o indivíduo na sua totalidade e inserido em uma sociedade histórica e culturalmente situada.13

Quando solicitados a citar pontos positivos e negativos durante a formação recebida na universidade durante a graduação, alguns pontos chamaram a atenção:

Positivo: Campo de estágio. Negativo: Alguns professores não têm a prática.

Positivo: Questões planejamento, relacionamento com a equipe. Negativo: Falta de conhecimento jurídico no exercício da profissão.

Positivo: Fomos formados para prestar assistência ao paciente. Negativo: Não fomos formados para pesquisa, ou seja, ciência.

Um fator que chamou a atenção foi que um dos entrevistados mencionou como ponto negativo a ausência de atividades voltadas para a pesquisa. Segundo o entrevistado, eles foram formados para prestar assistência. Atual mente, vemos uma mudança no modelo de ensino, de sorte que, além do conhecimento adquirido para prestação da assistência as universidades enfatizam o trabalho de pesquisa, por meio de projetos de pesquisa, extensão e outros.

Após a análise dos relatos dos docentes, foi-lhes solicitado que tentassem sugerir soluções visando à melhoria do ensino de graduação. Foram obtidas as seguintes contribuições:

Proporcionar, através de projetos, a oportunidade de realizarem estágios extracurriculares.

Ensinar muito a prática com relação à teoria e, principalmente, colocar o aluno a iniciar a visão de enfermeiro desde o início do estágio, ou seja, você como enfermeiro qual medida você tomaria?

Melhorar campos de estágios, rever carga horária dos estágios e diminuir número de acadêmicos por grupo para prática.

Apesar de saber que é difícil, estimularia mais a prática. Acho que os alunos saem com muita insegurança em técnicas básicas, lembrando que a faculdade pouco pode fazer, já que uma grande maioria falta interesse por parte do acadêmico.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN),14 que estabelece as diretrizes e bases da educação, em seu Capítulo IV, que dispõe sobre a educação superior, ressalta-se que esta tem por finalidade, dentre outras, estimulara criação cultural eo desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo; formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira; e colaborar na sua formação contínua. Ainda de acordo com a mesma lei, são asseguradas às universidades o estabelecimento de planos, programas e projetos de pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão.

A implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) nos currículos de graduação constitui um avanço e um desafio para as Instituições de Ensino Superior (IESs). No ensino de enfermagem, a contribuição das DCNs tem sido, principalmente, no sentido de orientar e direcionar a formação de recursos humanos capacitados para atender às demandas dos serviços de saúde, cada vez mais com plexos. Sua consolidação vem acontecendo articulada aos movimentos de mudanças políticas e pedagógicas que embasaram a Reforma Sanitária Brasileira e o Sistema Único de Saúde.15

Apesar das atividades propostas pela lei, porém, percebe-se que os docentes-enfermeiros entrevistados, quando no papel de educadores, tentam sanar as lacunas existentes na grade curricular, sugerindo mais projetos, aumento de carga horária e estágios extracurriculares, além de enfatizarem a importância do esforço e interesse individual década aluno.

Portanto, a movimentação dos saberes teóricos e práticos dos graduandos significa o refinamento de noções e teorias adquiridas por meio do encontro com várias situações da prática, e o docente envolvido nessas atividades precisa conhecer todas as nuances que permeiam esse processo e, com esse conhecimento, contribuir no processo de ensino-aprendizagem. Com isso, os docentes envolvidos no processo de formação do enfermeiro devem conhecer os desafios, as possíveis problemáticas e os caminhos existentes que podem auxiliar para o sucesso dessa atividade pedagógica.16

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluir um curso de graduação significa muito para quem o faz, mas muitas vezes é motivo de grande angústia e ansiedade. Normalmente, o primeiro emprego é um desafio que acompanha o profissional em seus primeiros meses de exercício profissional. O enfermeiro recém-graduado enfrenta esse desafio com muita insegurança e receios, pois encontra inúmeras dificuldades, que vão desde o processo admissional até a adaptação às normas e ao processo de trabalho da instituição.7

Dentre as possíveis causas da predominância dessas dificuldades, destaca-se a falta de oportunidades nos estágios realizados durante a graduação e que muitas vezes não oferecem ao aluno a oportunidade de ver e realizar todas as técnicas. Dessa forma, os alunos concluem a graduação levando consigo muitas dúvidas e inseguranças, causadas pela pouca experiência.

A falta de iniciativa por parte dos acadêmicos durante os estágios também colabora para a predominância desses problemas.Os entrevistados mencionaram as estratégias de superação utilizadas diante dessas dificuldades no seu início de carreira, dentre elas o desenvolvimento de atividades diárias, curiosidade e dedicação para superar esses obstáculos, maturidade e humildade, busca de capacitação para gerenciar os trabalhos e de ajuda de outros profissionais para o esclarecimento de dúvidas.

Neste estudo, verificou-se que, em sua maioria, os docentes-enfermeiros, quando recém-graduados, independentemente da sua área de atuação, encontram dificuldades em seu primeiro emprego, cujas principais causas são: insegurança, falta de prática e destreza ao assumir cuidados e realizar procedimentos com os pacientes, a administração hospitalar e dificuldades de liderança ao assumir sua função e iniciar suas atividades como profissional enfermeiro.

Observou-se, também, que o enfermeiro precisa de apoio ao ingressar na profissão e que os profissionais mais experientes devem ajudá-lo a enfrentar e superar esses medos e angústias. Percebeu-se, ainda, que a rotina, o aprendizado diário e as experiências adquiridas nesse percurso proporcionam segurança a esses profissionais. Os estágios realizados durante a graduação, por si sós, não são suficientes para uma iniciação sem dúvidas, servindo apenas como base para preparar futuros profissionais. Finalmente, neste estudo mostra-se que a busca por mais conhecimentos e a dedicação do acadêmico são fatores essenciais para a superação dessas dificuldades.

Com este estudo foi possível entender que a reflexão sobre o ensino de enfermagem engrandece a profissão. Pelas sugestões obtidas dos docentes entrevistados, percebeu-se que é possível superar algumas lacunas existentes no curso de graduação. Embora saibamos que o processo de mudança muitas vezes é lento, neste trabalho refletimos sobre alguns aspectos que circundam principalmente o início do exercício da profissão e como tentar melhorá-los.

 

REFERÊNCIAS

1. Erzinger AR, Trentini M. Enfermeiras e enfermeiros frente aos desafios no início da carreira profissional. Revista Recenf. 2003;1(5):9-13.

2. Alcântara G. A enfermagem moderna como categoria profissional: obstáculos à sua expansão na sociedade brasileira [tese]. São Paulo: Universidade de São Paulo - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto; 1963.

3. Behrens MA. A Formação Continuada dos professores e a prática pedagógica. Curitiba: Champagnat; 1996.

4. Trivinos ANS. Introdução a pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. 4 ed. São Paulo: Atlas; 1994.

5. Cervo AL, Bervian PA. Metodologia cientifica. 5ª ed. São Paulo: Prentice Hall; 2002.

6. Dias AO, Guariente MHDM, Belei RA. O enfermeiro recém-graduado eo primeiro emprego. Percepções da formação na graduação e da atuação profissional. Arq Ciênc Saúde Unipar. 2004;8(1):19-24.

7. Vieira ALS, Garcia ACP, Filho AA, Pierantoni CR, Ferraz CA, Oliveira ES, et al. Tendências do sistema educativo no Brasil: medicina, enfermagem e odontologia. Observatório de Recursos Humanos em Saúde no Brasil. Estudos e Análises; 2001.

8. Boueri AT, Rosário MLA, Nasti R, Silva RB, Baptista IMC, Gervásio SMD. Perspectiva dos acadêmicos de enfermagem em relação ao mercado de trabalho. Rev Eletrônica Sobragen. 2006; 1:1-9.

9. Fracileni P, Manoel RSJ. A travessia do mundo do ensino de graduação em enfermagem ao mundo da empregabilidade em saúde: a voz dos egressos da turma de enfermeiros pioneiros da Univali-CE, Biguaçu [monografia]. Biguaçu: Universidade do Vale do ltajaí; 2006.

10. Meira MDD, Kurcgant P. O ensino de administração na graduação: percepção de enfermeiros egressos. Texto & Contexto Enferm. 2009;18(4):670-9.

11. Martins VA, Nakao JRS, Favero N. Atuação Gerencial do Enfermeiro na Perspectiva dos Recém-Egressos do Curso de Enfermagem. Rev Esc Enferm Anna Nery.2006;10(1):101-8.

12. Deluiz N. O modelo de competências profissionais no mundo do trabalho e na educação: implicações para o currículo. Bol Tec SENAC. 2001;27(3):12-25.

13. Bousso RS, Merighi MAB, Rolim MA, Riesco MLG, Angelo M. Estágio curricular em enfermagem: transição de identidades. Rev Esc Enferm USP. 2000;34(2):218-25.

14. Brasil. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília (DF) 1996; 20 dez.

15. Brasil. Resolução CNE/CES n. 3, de 7 de novembro de 2001. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem. Diário Oficial da União, Brasília (DF) 2001; 7 nov. Seção 1:37.

16. Guedes GF, Ohara CVS, Silva GTR, Franco GRRM. Ensino clínico na enfermagem: a trajetória da produção científica. Rev Bras Enferm. 2009;62(2):283-6.

Logo REME