REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 11.1

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Pesquisa

Habilidade do acadêmico de enfermagem para lidar com a sexualidade do cliente*

Nursing student's hability to handle to patient's sexuality

Lincoln Vitor SantosI; Aline de Oliveira RibeiroII; Maria Pontes de Aguiar CamposIII

IEnfermeiro Bacharel, graduado pela Universidade Federal de Sergipe. E-mail: lincoln.vitor@ig.com.br
IIEnfermeira Bacharel, graduado pela Universidade Federal de Sergipe
III Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Docente do Departamento de Enfermagem e Nutrição, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Sergipe, responsável pelo Programa de Estudos da Sexualidade. E-mail: mapacampos@ufs.br

Resumo

Trata-se de uma pesquisa qualiquantitativa descritiva, cujos objetivos foram detectar se o acadêmico de Enfermagem considera-se preparado para lidar com questões relacionadas à sexualidade do cliente e conhecer de que forma ele lida com essa sexualidade. Detectou-se que a maioria considera-se técnica e emocionalmente despreparada para trabalhar com questões da sexualidade, sendo as mais comumente vivenciadas a realização de procedimentos nos genitais e os questionamentos feitos por familiares e clientes. O estudante sente-se constrangido, envergonhado, surpreso e espantado nesses momentos.

Palavras-chave: Estudantes de Enfermagem, Sexualidade, Educação em Enfermagem

 

INTRODUÇÃO

A universidade vem enfatizando, cada vez mais, a importância de o cliente ser atendido de forma holística, devendo ser percebido como indivíduo. Faz-se, portanto, necessário que o planejamento da assistência de enfermagem seja singular e inclua o aconselhamento na esfera da sexualidade.

No passado, a enfermagem era exercida por pessoas que acreditavam prestar um serviço a Deus. Com o advento da enfermagem moderna, Florence Nightingale propôs um padrão de comportamento às enfermeiras no qual a sexualidade era suprimida.

A enfermagem tem a permissão social de tocar qualquer parte do corpo do outro para atender às necessidades humanas básicas e prestar cuidados, mas os enfermeiros agem como assexuados, ignorando as necessidades sexuais do seu cliente e limitando-as à limpeza e higienização dos órgãos genitais.1,2

Tudo o que remete à sexualidade é algo desconhecido e produz ansiedade na maioria das pessoas. Para o acadêmico de Enfermagem, a sexualidade está intimamente relacionada à enfermagem, pois trata-se de uma profissão que tem de lidar com o corpo do outro. No entanto, durante a graduação, a sexualidade é pouco discutida, levando o aluno ao embaraço quando tem de vivenciar questões relacionadas ao tema.3

A sexualidade humana e a sua relação com a enfermagem conta com escassa literatura nacional, logo debater o tema em trabalhos científicos permitirá que as deficiências apresentadas na graduação de Enfermagem sejam mais bem compreendidas, no que tange ao tema e à qualidade da assistência prestada.1

Os objetivos neste trabalho foram detectar se o acadêmico de Enfermagem considera-se preparado, técnica e emocionalmente, para lidar com questões relacionadas à sexualidade do cliente e conhecer de que forma o acadêmico de Enfermagem lida com a sexualidade dos clientes sob seus cuidados durante os estágios supervisionados.

 

CAMINHO METODOLÓGICO

Optou-se por uma pesquisa com abordagem qualiquantitativa, de natureza descritiva, desenvolvida na cidade de Aracaju, Estado de Sergipe, Brasil, no Campus da Saúde Professor João Cardoso Nascimento Júnior, da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

A população alvo da pesquisa constituiu-se de acadêmicos do Curso Enfermagem Bacharelado, da UFS, que estavam cursando do quinto ao nono período curricular. A limitação a esses períodos fez-se necessária, uma vez que representam o ciclo profissional da graduação, no qual os alunos entram em contato com os clientes, prestando cuidados de enfermagem.

O critério de seleção da amostra foi o probabilístico aleatório, o que permitiu selecionar de forma casual, sem tendenciosidade, os sujeitos da pesquisa, assegurando uma representatividade mais verdadeira.

Os sujeitos do estudo que foram sorteados e que concordaram em participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram utilizadas as técnicas de análise estatística e de conteúdo para esta pesquisa para a avaliação dos dados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A amostra foi composta por 32 acadêmicos de Enfermagem Bacharelado, sendo 21,88% (7) do sexo masculino e 78,13% (25) do sexo feminino. Quanto à idade, 87,50% (28) da amostra está na faixa dos 20 aos 25 anos de idade, 9,38% (3) dos 26 aos 30 anos e 3,13% (1) dos 36 aos 40 anos.

Com relação ao período curricular que estavam cursando à época da entrevista, a distribuição apresentou-se da seguinte maneira: 15,63% (5) no 5º período, 21,88% (7) no 6º período, 21,88% (7) no 7º período, 25,00% (8) no 8º período e 15,63% (5) no 9º período.

Ao questionar se o acadêmico de Enfermagem considera-se preparado para lidar com questões envolvendo sexualidade, observa-se que 84,38% (27) dos sujeitos consideram-se tecnicamente inaptos para trabalhar com tais questões, enquanto uma pequena parcela, 15,63% (5), afirma sentir-se preparada tecnicamente.

A quantidade de alunos que se consideram emocionalmente despreparados, 56,25% (18), é bem menor que a de alunos que se consideram tecnicamente despreparados, 84,38% (27).

Para as respostas afirmativas, depreendem-se duas situações: ou os alunos são autodidatas e estudam sobre sexualidade por conta própria, porque sabem da importância que ela tem para o exercício da profissão, ou eles não compreendem a sexualidade humana de forma correta e acreditam que o escasso conteúdo teórico-prático é suficiente para qualificá-los a trabalhar com a sexualidade dos clientes.

De fato, não é possível as docentes do Curso de Enfermagem considerarem-se aptos a lidar com tais questões se lidam com o assunto de forma superficial ou o negligenciam. Faz-se necessário que a graduação ofereça um suporte teórico-prático suficiente, no espaço da sexualidade humana, que esteja em concordância com os objetivos do curso, para que o enfermeiro possa ter segurança quando deparar com a sexualidade do cliente.

Todo profissional que lida com jovens deve estar técnica e psicologicamente apto para realizar um levantamento da história sexual do indivíduo, o que não deve se limitar a uma abordagem superficial do tema, mas a um histórico completo que permita um aconselhamento no sentido de práticas mais seguras e saudáveis.4

Enfim, os enfermeiros deveriam sair da universidade prontos para atuar nos níveis 1 (Permission) e 2 (Limited Information), oferecendo ao cliente a possibilidade de se expressar, discutir preocupações sexuais e promover educação sexual em termos gerais. No entanto, para atuar nos níveis 3 (Specific Sugestion) e 4 (Intensive Therapy), onde há necessidade de conhecimentos específicos sobre sexualidade, patologias sexuais, psicodinâmica e terapia sexual, o enfermeiro deve receber uma preparação especial em nível de pós-graduação.5

Para estar habilitado a lidar com a sexualidade, o profissional precisa de conhecimentos prévios, adquiridos durante sua formação profissional, que incluam o debate de conceitos, posturas e valores relacionados à sexualidade, consciência de como esses conceitos afetam a prática da enfermagem e capacitação para avaliar e intervir neste campo.6

Perguntou-se aos sujeitos se haviam vivenciado alguma situação relacionada à sexualidade, em aulas práticas, estágios ou por questionamentos de familiares e amigos. As respostas obtidas, apresentadas no GRÁF. 3, foram que 68,75% (22) dos alunos referiram ter vivenciado situações de expressão da sexualidade do cliente, enquanto 31,25% não tiveram esse tipo de experiência.

Chama-se atenção para quanto essas expressões estão presentes, pois mesmo os estudantes, em sua rápida permanência nos campos de estágio, na maior parte da vezes, já vivenciam tais situações. Desse modo, entende-se a indispensabilidade da inclusão de conteúdos sobre sexualidade na graduação, transmitidos de forma sistemática.

Solicitou-se, então, que o acadêmico descrevesse a situação, contando como se sentiu, quais foram suas reações e como agiu naquele momento.

Ao analisar as respostas do QUADRO 1, constata-se que o aluno de Enfermagem, desde o momento em que inicia o ciclo profissionalizante do curso, entra em contato com questões de sexualidade, dentre as quais as mais citadas estão ligadas à manipulação dos genitais do cliente durante a realização de procedimentos, como o banho no leito e o exame físico. Houve relatos de clientes que ficaram excitados durante o procedimento e se insinuaram sexualmente para o aluno. Outras situações que também apareceram, com menor freqüência, envolvem os questionamentos de amigos, familiares e clientes sobre questões sexuais e o atendimento a prostitutas, homossexuais e pessoas consideradas com distúrbios sexuais.

 

 

As situações mais comuns relacionadas à sexualidade, vivenciadas durante a Assistência de Enfermagem, são o esclarecimento de dúvidas de clientes, clientes com distúrbios sexuais, clientes com disfunção sexual, clientes se masturbando e atendimento a homossexuais.1

Observa-se que, ao vivenciar questões de sexualidade, o aluno exibe uma gama de sentimentos. Constrangimento e vergonha, surpresa e espanto foram os sentimentos mais vivenciados, citados oito e seis vezes, respectivamente, seguidos por naturalidade e tranqüilidade, seis vezes. Outros sentimentos foram ansiedade, incômodo e nervosismo, sentimentos esses naturalmente esperados. Por outro lado, os estudantes também manifestaram reações preocupantes, como falta de ação, não saber como abordar o cliente, consideração da situação como algo anormal e despreparo, relacionadas, certamente, à falta de discussões do tema em sala de aula (QUADRO 2).

 

Procurou-se, então, saber como o acadêmico age no momento em que depara com a manifestação da sexualidade do cliente. Observa-se (QUADRO 3) que o aluno, por considerar-se despreparado para lidar com a situação, solicita ajuda de algum colega, do professor ou do enfermeiro responsável pela unidade de estágio, ação citada três vezes. Ação também citada três vezes refere-se à agilização da tarefa para livrar-se logo da situação, principalmente quando está sendo realizada em clientes do sexo oposto ao do aluno.

 

Poucos foram os sujeitos que se consideraram preparados para lidar com a situação e agiram com naturalidade e tranqüilidade, fornecendo ao cliente informações com linguagem acessível e respeitando a condição dele.

Chama atenção o fato de que, mesmo em situações consideradas geradoras de ansiedade, nervosismo, falta de ação, dentre outras, os alunos manifestam reações saudáveis e adequadas, como manter a postura profissional, solicitar ajuda e agir de forma técnica (QUADRO 3).

Apesar de possuir pouco conhecimento na área da sexualidade, o enfermeiro consegue identificar situações em que a dimensão sexual do cliente está explícita. Isso leva a crer que, quando a sexualidade do cliente não é negada pelo profissional, é possível encará-la como todas as outras necessidades do ser humano, embora a falta de discussões sobre o assunto durante a graduação transmita a idéia de que o cliente é um ser assexuado.1

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com relação ao preparo dos alunos em lidar com os aspectos sexuais do cliente, 84,38% consideram-se despreparados tecnicamente e 56,25%, emocionalmente, o que reflete o fato de o curso atribuir ao assunto importância irrelevante, tratando-o de forma limitada e inadequada ou negligenciando-o no seu elenco curricular.

Contudo, 68,75% afirmaram ter vivenciado situações ligadas à sexualidade durante o curso, sendo as principais a realização de banho no leito e exame físico em clientes do sexo oposto, questionamentos de clientes, familiares e amigos, a excitação de clientes durante a realização de procedimentos e o contato com prostitutas, homossexuais e pessoas consideradas pelos estudantes como portadoras de distúrbios da sexualidade.

Em tais situações, os sentimentos que mais prevaleceram para grande parte dos acadêmicos foram constrangimento e vergonha, surpresa e espanto, despreparo e falta de ação, mas também naturalidade e tranqüilidade, para uma minoria.

Os sentimentos despertados demandaram algumas ações dos acadêmicos, como a solicitação da ajuda de alguém mais experiente, a agilização do procedimento, o esclarecimento da dúvida do cliente por meio de linguagem acessível, o conforto ao cliente com palavras e o respeito à sua diversidade, bem como a manutenção da postura profissional.

Pretende-se com este estudo contribuir para que acadêmicos e professores possam, juntos, identificar maneiras de inserir na graduação em Enfermagem debates e explanações relacionados à sexualidade humana, repensando na formação profissional do enfermeiro em que tais questões permanecem obscuras.

 

REFERÊNCIAS

1. Pelá NTR, Melo AS, Santana WMS, Nhamba AL. A sexualidade humana no contexto da assistência de enfermagem. Rev Bras Sex Hum 1995 jan.;6(1):99-113.

2. Pupulim JSL, Sawada NO. O cuidado de enfermagem e a invasão da privacidade do doente: uma questão ético-moral. Rev Latino-Am Enf 2002 maio/jun.;10(3):433-8.

3. Pereira AL. Enfermeira/o não tem sexo (?) Representação social de graduandas/os de enfermagem sobre sexualidade [Dissertação]. Rio de Janeiro (RJ): Escola de Enfermagem/UERJ; 2000.

4. Santos MGP. Atendimento ao jovem homossexual. Rev Bras Sex Hum 1990 jan./jun.;1(1):52-72.

5. Rieve JE. Sexuality and the adult with acquired physical disability. Nurs Clin North Am 1989;24(1):265-76.

6. Potter PA, Perry AG. Grande tratado de enfermagem prática: clínica e prática hospitalar. 3ª ed. São Paulo: Santos Livraria Editora; 2002. p. 280-7;621-75.

7. Lopes GP, Nascimento LG, Rezende WC. Os profissionais da saúde e a educação sexual. Rev Bras Sex Hum 1992 jan./jun.;3(1):23-6.

 

 

* Parte integrante do Projeto Sexualidade Humana e Graduação em Enfermagem aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe, em 19/08/2005.

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