REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 11.1

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Pesquisa

Incidentes críticos relativos à conduta do professor de enfermagem no processo de ensino e aprendizagem segundo a percepção do aluno*

Critical incidents relative to the professor the nursing behavior of the teaching-learning process through the perception of students

Adriana Valongo ZaniI; Maria Suely NogueiraII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem Fundamental Pela EERP-USP. Docente da Universidade Norte do Paraná - UNOPAR. E-mail: adrianazani@hotmail.com
IIOrientadora. Enfermeira Doutora em Enfermagem. Docente da Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

Endereço para correspondência

Rua Porto Alegre, 286 apto 601
CEP 86020-160 - Londrina-PR

Recebido em: 12/09/2006
Aprovado em: 03/04/2007

Resumo

A conduta do professor pode influenciar de modo positivo ou negativo no processo ensino-aprendizagem do aluno. O objetivo com este estudo foi identificar aspectos positivos e negativos da conduta do professor quanto ao processo ensino-aprendizagem do Curso de Graduação em Enfermagem, segundo a percepção do aluno. Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa por meio da técnica de incidentes críticos. Fizeram parte do estudo 140 alunos. Após análise dos dados, observou-se que os alunos relataram 435 incidentes críticos, sendo 317 referências negativas e 118 positivas. Portanto, o professor precisa analisar suas atitudes, compreendendo o momento de aprendizagem do aluno.

Palavras-chave: Ensino, Aprendizagem, Ensino Superior, Educação em Enfermagem, Comportamento

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A conduta do professor pode influenciar de modo positivo ou negativo no processo ensino-aprendizagem do aluno. O professor pode despertar o interesse dos alunos quando se preocupa não apenas em transmitir alguma mensagem, mas em entender os códigos conhecidos pelos alunos e tentar codificar essas mensagens de acordo com esses códigos já anteriormente conhecidos.1

Como professoras de Enfermagem, percebemos que os alunos têm demonstrado dificuldades de aprendizado por não compreenderem conteúdos, por não possuírem conhecimentos básicos, por não concordarem com a didática utilizada pelo professor, bem como por apresentarem dificuldades de relacionamento com o professor. Acreditamos que isso ocorre, em princípio, dada a falta de conhecimento, tanto do professor como do aluno, sobre o significado real do processo ensino-aprendizagem.

De modo geral, ensinar designa a atividade do professor e o conceito de ensino refere-se à interação professor-aluno, tendo como produto final a aprendizagem. Qualquer modelo, plano ou sistema de ensino-aprendizagem deve considerar as diferenças individuais, habilidades, experiência previa e estilos de vida.2 Cada professor é único em sua forma de montar estratégias de ensino que terão influência positiva ou negativa na apreensão de conhecimento pelo aluno em sala de aula.3

O professor deve ser um comunicador que desperte o interesse dos alunos e considere os aspectos psicológicos envolvidos no processo ensino-aprendizagem.4 Ele não deve deter-se apenas em codificar sua mensagem, como comumente se faz, mas torná-la decodificável para o aluno. A preocupação do professor com a reação dos alunos é importante. O professor precisa ter a capacidade de perceber a reação do outro e ser sensível nas relações humanas.5

Portanto, o papel do professor é de facilitador da aprendizagem dos alunos; não é ensinar, mas ajudar o aluno a aprender; não é transmitir informações, mas criar condições para que o aluno adquira conhecimentos; não é fazer brilhantes preleções para divulgar a cultura, mas organizar estratégias para que o aluno conheça a cultura existente e crie cultura.6 O processo ensino-aprendizagem deve levar em consideração o conhecimento apreendido pelo aluno em seu dia-a-dia e no relacionamento com outras pessoas.7

No Curso de Enfermagem o processo ensino-aprendizagem deve ocorrer na mesma direção: professor e aluno devem compreender a atenção à saúde, podendo utilizar como metodologia as experiências anteriores do aluno, vivenciadas na prática ou conhecimentos adquiridos por meio de estudo/leitura ou, o que seria mais adequado, a utilização de ambos.

Observa-se, porém, uma grande lacuna na formação do enfermeiro, ou seja, o ensino oferecido aos profissionais não vem de encontro com a realidade de atuação, e na resposta que vem sendo dada pelos profissionais em sua prática assistencial.8

Em decorrência de um ensino dicotomizado, o aluno de Enfermagem, por vezes, se torna um profissional fracionado, ou seja, um profissional que possui dificuldade de visualizar o todo, não consegue observar o cliente/paciente como um ser humano complexo, bem como a unidade em que atua e os diversos profissionais envolvidos na assistência, por isso presta uma assistência que não vai ao encontro das necessidades do paciente.

Ensinar e aprender exige, tanto do professor como do aluno, competência, habilidade, disponibilidade e iniciativa. Portanto, é relevante indagar/reconhecer o significado do papel do professor e conhecer os requisitos essenciais para o profissional da educação e do ensino.

Sendo assim, nosso objetivo com este estudo foi identificar os aspectos positivos e negativos da conduta do professor referente ao processo ensino-aprendizagem do Curso de Graduação em Enfermagem, segundo a percepção do aluno.

 

TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa a respeito dos fatores que interferem positiva e negativamente na conduta do professor quanto ao processo ensino-aprendizagem, segundo a percepção dos alunos de Enfermagem da Universidade do Norte do Paraná (UNOPAR), matriculados entre 1998 e 2002. A amostra foi composta por 140 alunos que estavam cursando o 2º, o 3º e o 4º ano do Curso de Graduação em Enfermagem da UNOPAR e que manifestaram disponibilidade e interesse em participar do estudo, após o conhecimento de seus objetivos. A escolha dos alunos se deu por meio de amostragem por conveniência, denominada nos estudos qualitativos como amostragem voluntária, seguida pelo método “bola de neve” (denomina-se “bola de neve” porque o pesquisador solicita aos primeiros informantes que indiquem outros participantes para o estudo). Dessa forma, os alunos foram convidados a participar da pesquisa e o faziam de acordo com a disponibilidade deles. Após as pesquisadoras terem escolhido os primeiros entrevistados, estes indicavam outros alunos que possuíam experiências positivas e negativas durante o processo ensino-aprendizagem. O número de alunos foi determinado com base no princípio da metodologia qualitativa, em que se define o fim da coleta de dados a partir do momento em que ocorre a repetição deles, ou seja, quando ocorrer saturação.9 Neste estudo, os alunos do 1º ano foram excluídos pelo fato de freqüentarem há pouco tempo o Curso de Enfermagem.

Utilizamos a técnica dos incidentes críticos, definida como

um conjunto de procedimentos para a coleta de observações diretas do comportamento humano, de modo a facilitar sua utilização potencial na solução de problemas práticos e no desenvolvimento de amplos princípios psicológicos, delineando também procedimentos para a coleta de incidentes observados que apresentem significação especial e para o encontro de critérios sistematicamente definidos.10

Incidente é

qualquer atividade humana observável que seja suficientemente completa em si mesma para permitir interferências e provisões a respeito da pessoa que executa o ato. Para ser crítico um incidente deve ocorrer em uma situação onde o propósito ou intenção do ato pareça razoavelmente claro ao observado, e suas conseqüências sejam suficientemente definidas, para deixar poucas dúvidas no que se refere aos seus efeitos.10

O termo crítico remete para o seu sentido etimológico (aquilo que aparece claramente e não aquilo que é dramático ou merecedor de crítica).10

Os dados foram obtidos por meio da técnica de incidentes críticos. Para isso, utilizamos um instrumento destinado à obtenção de dados entre os alunos, o qual era constituído de duas partes: a primeira; com perguntas relacionadas à caracterização dos sujeitos; a segunda, contendo basicamente duas questões referentes ao processo ensino-aprendizagem, na percepção do aluno: a) Pense em alguma situação que você vivenciou ou observou em relação aos fatores que interferiram negativamente no processo ensino-aprendizagem durante o Curso de Graduação em Enfermagem. Diga-me qual foi à situação, o comportamento das pessoas envolvidas e o que resultou disso? b) Pense em alguma situação que você vivenciou ou observou em relação aos fatores que interferiram positivamente no processo ensino-aprendizagem durante o Curso de Graduação em Enfermagem. Diga qual foi a situação, o comportamento das pessoas envolvidas e o que resultou disso.

As perguntas foram elaboradas seguindo o preconizado pela técnica de incidentes críticos, em que se deve solicitar ao entrevistado que relate aspectos positivos e negativos que possuam situação, comportamentos e conseqüências.10

Para a validação do instrumento, realizamos um pré-teste, o qual foi aplicado a um grupo de dez alunos matriculados no 3° e no 4° ano do Curso de Graduação em Enfermagem. O pré-teste permitiu-nos identificar que as questões formuladas eram adequadas, uma vez que delas pudemos extrair incidentes críticos relacionados ao processo ensino-aprendizagem do Curso de Graduação em Enfermagem, de acordo com a referência de alunos do curso.

As entrevistas foram realizadas na sala de estudos da Coordenação de Enfermagem, respeitando a disponibilidade, o interesse e a privacidade do aluno.

Por se tratar de uma pesquisa envolvendo seres humanos, ela somente teve início após a aprovação do Comitê de Ética, mediante autorização assinada pelos sujeitos no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme Resolução MS n° 196/96.11

A princípio eram feitas perguntas sobre sua caracterização e, em seguida, duas perguntas solicitando que relatassem situações ocorridas durante atividades em sala de aula, campo de estágio ou laboratório. Foi explicado o significado de incidente e a definição do termo crítico.

Houve necessidade de que citássemos alguns exemplos de incidentes que possibilitassem melhor compreensão dos sujeitos. Tomamos cuidado, no entanto, para não fazer referência a exemplos que estivessem relacionados com a atividade em estudo, tais como explicar com clareza o que é incidente crítico, esclarecer a conotação do termo crítico, dar um ou dois exemplos de incidentes que não estivessem diretamente relacionados com a atividade que ia ser objeto de inquérito, para não influenciar o entrevistado, explicar os critérios que nos levam a considerar os episódios relatados como incidente crítico (definição da situação, descrição precisa do comportamento observado na situação descrita, explicação das suas conseqüências observáveis).10, 12-13

A análise dos dados obtidos obedeceu a quatro critérios: leitura e arrolamento dos relatos, identificação dos elementos que compreendem o incidente crítico (situação, comportamento e conseqüência), agrupamentos dos relatos e categorização.14

No primeiro momento, foi realizada a leitura das entrevistas e delas foram retiradas os incidentes críticos referentes ao processo ensino-aprendizagem, com referências positivas e negativas, segundo a visão de alunos do Curso de Enfermagem. Em seguida, foi realizada uma segunda leitura em busca de relatos que estivessem confusos ou que não demonstrassem clareza, uma vez que o incidente crítico é um fato ocorrido em determinada situação em que a intenção é clara e suas conseqüências objetivas.10 Não houve necessidade de descartar nenhum dos incidentes críticos relatados, visto que todos contemplaram o preconizado pela técnica de incidentes críticos, ou seja, possuíam a situação, comportamentos conseqüências. Os agrupamentos dos incidentes críticos foram feitos mediante análise dos conteúdos dos relatos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Foram identificados 435 relatos, sendo 118 com referências positivas e 317 negativas, como podemos observar na TAB. 1.

Verificamos que nos relatos dos alunos referentes à conduta do professor no processo ensino-aprendizagem foram identificados alguns aspectos tais como: 1. Professor dificulta a criatividade do aluno durante atividade em campo de estágio - 135 referências negativas; 2. Professor não considera o momento de aprendizagem do aluno, interrompendo seu processo durante apresentação de seminário em sala de aula - 73 referências negativas; 3. Postura do professor em sala de aula - 43 referências positivas e 89 negativas; 4. Professor incentiva o aluno durante o processo ensino-aprendizagem em atividades no laboratório e em campo de estágio - 36 referências positivas; 5. Professor é considerado exemplo ideal de profissional decorrente de sua atuação em atividades em campo de estágio - 39 referências positivas e 6. Didática imposta pelo professor em sala de aula dificulta o aprendizado do aluno - 20 referências negativas.

O professor é um estimulador da capacidade crítico-criativa e, nesse papel, deve promover a liberdade e desafiar a razão. A liberdade e a responsabilidade andam sempre juntas. A capacidade de reconhecer limites em si, nos outros e para si e para os outros possibilita ao indivíduo agir livremente. A liberdade está associada à possibilidade de escolha, a qual está presente nas atividades humanas, além do pensamento e criação, ela se expressa quando exercemos a autogovernabilidade.15 No entanto, quando esse professor dificulta a criatividade do aluno durante atividade em campo de estágio, isso gera no aluno críticas negativas ao professor, como podemos confirmar com o relato a seguir:

Estava fazendo estágio em unidade de internação e a professora havia me dado um paciente que necessitava de banho no leito; então ela pediu que eu fosse arrumar o material enquanto ela iria ver os outros alunos; quando preparava o material a enfermeira pediu-me que realizasse o procedimento logo, pois o paciente iria fazer uma tomografia e o transporte viria buscá-lo logo; tentei avisar a professora, mas ela disse para eu esperar, então, como não havia bandeja disponível para levar o material, utilizei a tampa de um recipiente como bandeja e levei o material para o quarto. Quando estava quase terminando o banho, a professora chegou e ficou muito brava e disse que eu não poderia ter começado o banho sem ela e onde já se viu pegar uma tampa para fazer de bandeja. Mandou que eu parasse o banho e que fosse arrumar uma bandeja para continuar. Não me deixou explicar nada.

Podemos perceber nesse relato que, apesar da indignação do aluno em relação à conduta do professor, ele mesmo não conhece os princípios científicos de determinadas técnicas, uma vez que considera a utilização de uma tampa como bandeja um procedimento correto, não se preocupando com a finalidade de cada material a ser utilizado e suas implicações ao paciente.

A ansiedade é um sentimento evidente no aluno em situação de ensino-aprendizagem em sala de aula, e esse sentimento se torna mais intenso quando o aluno está em campo de estágio, visto que as situações de risco com a saúde, doença e morte se tornam problemas evidentes. Portanto, o professor deve estar capacitado a compreender o momento de ansiedade do aluno e conduzi-lo ao aprendizado e à conseqüente diminuição desse sentimento.16 Não devemos nos esquecer, porém, de que o professor também apresenta ansiedade em situações de ensino-aprendizagem, o que muitas vezes dificulta esse processo.

Em relação à interrupção de atividades dos alunos por determinação do professor, observamos um expressivo número de relatos que vão desde substituir um material pelo outro para a execução de atividades; derrubar um pacote de gases no chão; esquecer-se da seqüência lógica do procedimento, como utilização dos princípios de assepsia incorretos durante sondagem vesical, como esquecer-se de cortar os esparadrapos para fixação do cateter para punção venosa; ser solicitado durante a apresentação de seminários pelo professor para que finalize a apresentação e retorne a carteira. Praticamente em todas as situações o professor interrompeu a atividade e a executou no lugar do aluno, ou então chamou a atenção do aluno diante de outras pessoas e não permitiu que este continuasse a executar suas atividades.

Quando o professor não considera o momento de aprendizagem do aluno, interrompendo seu processo durante apresentação de seminário em sala de aula, este recebe referências negativas, como podemos identificar no relato que se segue:

Meu grupo tinha que apresentar seminário, cada um ficou encarregado por uma parte. Como eu era a responsável pela digitação, por esta razão eu acabei sabendo a parte de todos; eu havia estudado muito, muito mesmo, mas, quando tenho que falar em público fico desesperada. No dia do seminário, quando comecei a apresentar, coloquei uma transparência com uma tabela, e, por ter ficado alguns segundos em silêncio, a professora começou a fazer perguntas sem parar, fiquei desesperada e não conseguia responder, então ela pediu que eu sentasse, me criticou a ponto de insinuar que eu era incapaz e passou a falar todo o meu conteúdo, e eu saí da sala de aula para chorar.

Observamos no depoimento acima que, além de o aluno se sentir prejudicado pela forma como o professor conduziu a situação em questão, ocorreu a desarticulação do grupo, pois o aluno referiu ser um trabalho em grupo. Na realidade, porém, não foi isso o que ocorreu, pois cada um fez determinada parte do trabalho, e o fato de esse aluno ter digitado todo o trabalho não significa que compreendeu todo o conteúdo. O trabalho em grupo não deve ser visto como uma atividade em que cada uma fará seu trabalho individualmente. Trabalho em grupo/equipe pressupõe compartilhar idéias e sentimentos, diálogo e enfrentamento de conflitos.17

Atitudes como as referidas acima causam nos alunos sentimento de repulsa ao professor e dificuldade para o aprendizado. Portanto, se o aluno não for respeitado e considerado integralmente como ser humano, pode apresentar dificuldades no modo de ver e se relacionar com o outro. Assim, não podemos exigir dele que respeite, por exemplo, quando ele não aprendeu a valorizar o outro, pois só oferecemos ao outro aquilo que possuímos.18

Em outros relatos os alunos referiram que dependendo da postura do professor em sala de aula esta pode trazer benefícios ou malefícios para os alunos, tais como:

Estávamos tendo aula teórica com um determinado professor, e dois colegas conversavam. A professora que já estava irritada pelo fato dos mesmos a terem questionado sobre alguns nomes que estavam na sua transparência e que ela não conseguia responder, teve a atitude de colocá-los para fora da sala. Isto gerou descontentamento na classe, uma vez que a conversa dos alunos não estava relacionada a criticar à professora.

Tínhamos aula com uma determinada professora. Estávamos todos na sala, quando ela chegou e já atrasada, e um dos alunos, por brincadeira, disse que ela não podia chegar atrasada, pois se nós chegássemos atrasados não poderíamos entrar na sala, ela se irritou com o aluno e depois voltou-se para a sala e disse, que ela estava estressada, cansada, que não tinha que ficar ouvindo estas coisas de aluno. Acho que isto não é postura de professor. Se está cansada ou estressada, nós não temos nada com isso.

No primeiro ano, a professora solicitou que fizéssemos uma dinâmica, e eu não quis participar. Como minha mãe trabalhava na enfermagem e a professora a conhecia, ela me disse que eu não era digna de estar ali, e que não tinha perfil de enfermeiro. Sendo filha de quem eu era, que eu jamais chegaria onde minha mãe chegou. Ela me pegou pelo braço e apertou, isso me deixou traumatizada.

Os três depoimentos anteriores relacionados à postura do professor e que receberam referências negativas nos reportam a um questionamento: o desrespeito entre as duas classes (aluno e professor).

Para que o processo ensino-aprendizagem ocorra de forma adequada e eficiente, é necessário que haja respeito, ou seja, que o aluno respeite o professor, realizando as atividades propostas, e que o professor respeite o aluno, compreendendo seu momento de aprendizado, elaborando métodos que incentivem esse processo e respeite-o como indivíduo em formação.

Portanto, é necessário que ocorra interação entre professor-aluno em sala de aula. A interação em sala de aula deve ser uma dinâmica de envolvimento e interesse, na qual o professor permite ao aluno interagir com liberdade e trocar experiências. Professores e alunos necessitam desse encontro de adaptação social e cultural para que os preconceitos sejam rompidos e conflitos e resistências administrados.19

O espaço da sala de aula não resulta exclusivamente da relação professor-aluno, mas também age sobre tal relação, condicionando-a e domesticando-a. Reforça também que o aluno não é menos construtor que o professor, mas não atinge seu objetivo sem que haja mediação. O professor não é o único mediador possível. Sendo assim, o espaço ocupado pelo professor e o aluno em sala de aula não deve interferir negativamente nesse momento único de interação.20

Outro relato em relação à postura do professor em sala de aula apresentou referências positivas, como podemos observar a seguir:

Estávamos no laboratório de enfermagem para aprendermos a realizar exame físico, havia alguns colegas que já eram auxiliares e começaram a falar nomes técnicos que nós não conhecíamos, e a criticar quando eu perguntava. A professora chamou a atenção deles e disse que ali dentro ela iria tratar todos como se ninguém soubesse nada e que quem tivesse a coragem de criticar os outros teria que explicar toda a matéria e caso não conseguissem seriam punidos. Achei uma postura muito adequada, pois ela não deixou que os que sabiam mais humilhassem os que não sabiam.

Observamos no depoimento acima que o aluno considerou positiva a atitude do professor ao nivelar todos os alunos em um mesmo patamar de conhecimentos, porém isso vem prejudicar e até mesmo desmotivar os alunos que possuem maior embasamento teórico-prático. Sabemos que o professor deve ser um mediador do processo ensino-aprendizagem, deve proporcionar aos alunos métodos de aprendizado que, no caso em questão, beneficiem a ambos, ou seja, não prejudiquem o aprendizado do aluno que não possui um conhecimento tão abrangente, mas que também não permita ao aluno que já possui conhecimento mais avançado estacionar.

Outros relatos são considerados pelos alunos como benéficos para o seu aprendizado, quando o professor incentiva o aluno durante o processo de ensino-aprendizagem em atividades de laboratório e campo de estágio. O aluno acredita que os conhecimentos que possui podem ser acessados quando existe por parte do professor, pelo menos, a paciência de esperar que conduza seu pensar, mesmo sem a ajuda dele, para conseguir chegar a conclusões, mesmo que parcialmente corretas,21 como podemos observar a seguir:

Era a primeira vez que realizava sondagem vesical em uma mulher; estava muito nervosa e com medo de errar. A professora percebeu e foi comigo preparar o material, então ela ia me guiando e de forma gentil me dizendo o que estava faltando ou dava dicas. Depois foi comigo até a paciente disse para a paciente ficar tranqüila que eu era aluna, mas sabia o que estava fazendo; comecei a abrir os pacotes de material estéril e a professora foi me auxiliando. Quando ela percebia que eu ia fazer algo incorreto, pegava delicadamente em meu braço e me levava ao caminho certo. Quando terminei o procedimento, eu sabia que não tinha feito tudo correto, mas a professora me chamou e disse que eu precisava rever a técnica, mas que estava de parabéns, pois me esforcei para fazer tudo certo.

Essa atitude demonstra que o professor deve ser o facilitador do processo ensino-aprendizagem, deve criar oportunidades para as situações de aprendizagem, ser um oportunizador das experiências intensas e adequadas, capaz de despertar no aluno a motivação para a pergunta, para uma atitude investigativa que busque soluções e que fundamente sua intervenção na realidade.15

O aluno espera que o professor seja calmo e compreensivo, que entenda suas falhas por estar começando, que comente seus erros particularmente para que eles não se repitam,22 como podemos observar no relato a seguir:

A professora pediu que fizesse um trabalho, deveria ser um trabalho científico, mas quando entreguei para ela, ela corrigiu e estava cheio de anotações. Quando vi, pensei: "nossa a professora odiou", mas ao contrário ela disse que era um excelente trabalho só precisava de algumas modificações e que ela iria me ajudar a publicá-lo. Achei a atitude dela muito incentivadora, pois não acreditava que meu trabalho pudesse ter esse resultado.

Portanto, é função do professor estimular o aluno à descoberta e à prática dos valores pelos quais a educação ganha sentido e o próprio aluno se auto-realiza, o que se efetua por meio do processo ensino-aprendizagem.2

Verificamos também relatos com referências positivas quando o professor é considerado exemplo ideal de profissional, decorrente de sua atuação em atividades de campo de estágio, como apresentado no relato a seguir:

Eu estava fazendo estágio em uma maternidade, de repente o bebê nasceu e estava em parada cardiorrespiratória. Todos ficaram nervosos, menos a minha professora, que iniciou as manobras de reanimação e foi solicitando materiais com tranqüilidade e explicando, quando não sabíamos o que era, como se fosse um atendimento normal; até o médico ficou calmo com a postura dela, o nenê se recuperou e foi para o berçário, e depois daquele dia sonho em ser como ela.

Quando o aluno observa no professor sua capacidade não apenas profissional, mas seu respeito, suas atitudes de compreensão e tranqüilidade no processo de ensino-aprendizagem, independentemente da situação, desperta no aluno o desejo de se tornar um profissional senão igual, ao menos semelhante ao professor, pois o identifica como modelo ideal que deve ser seguido.

O aluno, para aprender, precisa realizar um trabalho cognitivo de análise e revisão de seus conhecimentos para que estes sejam significativos e propiciem desenvolvimento de competências.2 A influência do professor e de sua intervenção pedagógica é que pode auxiliar a tornar significativa a aprendizagem do aluno, porém, quando a didática imposta pelo professor em sala de aula dificulta o aprendizado, esta é vista pelos alunos como uma referência negativa para seu processo ensino-aprendizagem. como podemos verificar no relato a seguir:

Uma professora sempre dá aula lendo textos, sentada, e nunca passa os textos antes para a gente, e quando dá a fotocópia antes também não adianta nada, pois ela senta e fica só lendo, não entendo nada, e quando eu e meus colegas fomos falar com ela, nos disse que estávamos em uma faculdade e que tínhamos que buscar o nosso próprio conhecimento.

O aluno, ao ingressar em um curso superior no qual esta investindo seu futuro, buscando uma profissão, desenvolve inúmeras expectativas relacionadas ao seu aprendizado, porém muitas vezes depara com um ensino que não vem ao encontro de seus desejos e necessidades, principalmente quando não são esclarecidos ao aluno os objetivos do conteúdo ministrado e quando a didática utilizada pelo professor não contribui com o processo ensino-aprendizagem.

O trabalho educativo exige que o professor domine não só os conteúdos que serão objeto do processo ensino-aprendizagem, mas também as competências pedagógicas necessárias para conduzir esse processo.23

Aulas monótonas, desinteressantes e falta de feedback do aluno têm sido queixas freqüentes. Nossos alunos lêem pouco, escrevem pouco, praticam pouco e, no entanto, ocupam dois turnos diários durante a semana e um período mínimo de quatro anos por causa da enfermagem.24

Ser professor exige a construção sistemática e responsável de uma relação mediadora com os alunos, promovendo o encontro e o confronto dos diversos projetos existenciais da cada um com os conhecimentos, os comportamentos, as atitudes, os sentimentos e os valores gerados no processo histórico de construção da existência humana.25

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os incidentes críticos relacionados à “conduta do professor”, na percepção do aluno, indicaram-nos:

435 incidentes críticos, sendo 27,13% com referências positivas e 72,87% negativas;

as referências positivas e negativas se relacionam às subcategorias de situações relacionadas com a conduta do professor: professor dificulta a criatividade do aluno durante atividades em campo de estágio: (00) positiva e (135) negativas; professor não considera o momento de aprendizagem do aluno, interrompendo esse processo durante apresentação de seminário em sala de aula: (00) positiva e (73) negativas: postura do professor em sala de aula: (43) positivas e (89) negativas; professor incentiva o aluno durante o processo de aprendizagem em atividades no laboratório e campo de estágio: (36) positivas e (00) negativa; professor é considerado exemplo ideal de profissional, decorrente de sua atuação: (39) positivas e (00) negativa; didática imposta pelo professor em sala de aula dificulta o aprendizado do aluno: (00) positiva e (20) negativas.

Os dados encontrados demonstraram que os professores apresentam dificuldade para lidar com o despreparo e até mesmo com a imaturidade do aluno durante sua formação no Curso de Enfermagem. Isso se evidência pelo fato de o aluno atribuir à conduta do professor grande parte de suas angústias e medos.

A relação professor-aluno deve ser considerada ponto-chave num processo em que percebemos pessoas distintas, com experiências únicas, em ambientes e momentos específicos, sendo aproximadas com o objetivo de troca de conhecimentos.4

Os alunos consideram que o processo ensino-aprendizagem em sala de aula pode ser satisfatório quando ocorre qualidade nas relações humanas e destacam os professores que dão atenção, escutam, são honestos e respeitam o outro.4

Os alunos referiram, com ênfase, que a aprendizagem foi prejudicada nas situações em que o professor dificultou a criatividade do aluno durante a execução de determinada atividade, o que pôde ser evidenciado nas atitudes ríspidas e autoritárias do professor.

É necessário que ocorra interação entre professor-aluno em sala de aula. A interação em sala de aula deve ser uma dinâmica de envolvimento e interesse, e o professor deve permitir que o aluno interaja com liberdade e trocque experiências. Professores e alunos necessitam desse encontro de adaptação social e cultural para que os preconceitos sejam rompidos e conflitos e resistências administradas.26

Em relação à interrupção de atividades pelo professor, observou-se um expressivo número de relatos que vão desde substituir um material pelo outro para a execução de atividades; derrubar um pacote de gases no chão; esquecer-se da seqüência lógica durante sondagem vesical; esquecer-se de cortar os esparadrapos para fixação do cateter durante a punção venosa; ou, durante a apresentação de seminário, o professor interromper e solicitar ao aluno que retorne à carteira. Em quase todas as situações, o professor parou a atividade e a executou no lugar do aluno, ou, então, chamou-lhe a atenção diante de outras pessoas e não permitiu que continuasse a executar a atividade.

Portanto, o professor precisa refletir sobre suas atitudes, para que valorize o aluno como um ser em formação, respeite sua experiência de vida, compreenda o momento pelo qual ele passa para que a aprendizagem seja conduzida de forma eficaz. 14

 

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* Extraído da Dissertação Incidentes críticos do processo ensino-aprendizagem do curso de graduação em Enfermagem segundo a percepção de alunos e professores, apresentada a Escola de Enfermagem da USP-RP em 26 abril de 2005. Mestrado em Enfermagem Fundamental.

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