REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

Enfermagem UFMG

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Volume: 15.2 DOI: http://www.dx.doi.org/S1415-27622011000200011

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Pesquisa

Avaliação das coberturas para sítio de inserção do cateter venoso central no TMO: analise de custos

Cost analysis and evaluation of covers for a central venous catheter insertion site in BMT

Angélica Mônica AndradeI; Kelli dos Santos BorgesII; Helidea de Oliveira LimaIII

IEnfermeira. Mestranda em Enfermagem pela UFMG. Especialista em Enfermagem Saúde do Adulto pela UFJF
IIEnfermeira. Mestre em Saúde Coletiva pela UFJF. Especialista em Transplante pela UFMG
IIIMédica pós-graduada em Gestão Hospitalar pela Faculdade de Economia e Administração da UFJF e pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais. Mestranda em Gestão de Serviços de Saúde pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE/Lisboa)

Endereço para correspondência

Rua Macedonia nº 73, Canaã
Ipatinga-MG
E-mail: scolpaz@yahoo.com.br

Data de submissão: 17/9/2010
Data de aprovação: 19/4/2011

Resumo

A utilização de um cateter venoso central (CVC) torna-se necessária para manter um acesso venoso prolongado, sendo amplamente utilizado nos transplantes de medula óssea. A implantação de um CVC torna-se necessária para manter um acesso venoso seguro, por período prolongado, para que se receba periodicamente manuseios para aspiração sangüínea e administração de medicamentos e hemocomponentes. Contudo, a utilização das diferentes coberturas para o curativo do sítio de inserção do cateter é controversa quanto ao custo e à prevenção de infecção. Objetivou-se, com este estudo, analisar a utilização e o custo de diferentes tipos de coberturas de CVC em relação à periodicidade de sua troca e, também, a freqüência de infecções relacionadas ao dispositivo em um serviço de transplante de medula óssea. Foi realizada uma pesquisa retrospectiva com caráter exploratório e descritivo, mediante coleta de dados de prontuários de 68 pacientes. Foi possível observar que o período de permanência do filme transparente como cobertura variou de quatro a sete dias, enquanto para o de gaze estéril foi de um a dois dias. A utilização da gaze estéril para cobertura apresentou custo mais elevado em comparação com o uso de filme, dada a necessidade de trocas repetidas durante a semana. Não foi encontrada diferença estatística entre as diferentes coberturas utilizadas e a ocorrência de infecção. Conclui-se que há necessidade de constante avaliação do processo do cuidado em enfermagem, associada à assistência, à pesquisa e à gerência, uma vez que estudos sobre o impacto de procedimentos padronizados podem levarão aprimoramento do serviço da enfermagem e da instituição.

Palavras-chave: Cateteres de Demora; Economia da Enfermagem, Cuidados de Enfermagem

 

INTRODUÇÃO

A utilização de acesso venoso central se tornou indispensável para a terapêutica assistencial, sendo amplamente utilizada em transplantes de medula óssea, quimioterapia, nutrição parenteral total, hemodiálise, transfusões sanguíneas e avaliação hemodinâmica do paciente.1

O transplante de medula óssea (TMO), também denominado "transplante de células-tronco hematopoéticas" (TCTH), é um procedimento terapêutico que consiste na infusão de células-tronco, que são obtidas por meio da medula óssea, do sangue periférico ou do sangue do cordão umbilical.2 No transplante autólogo, utilizam-se as células progenitoras do próprio paciente, coletadas previamente.2-4 O TCTH é utilizado, principalmente, para o tratamento de doenças hematológicas e para alguns tipos de tumores sólidos, mas também é indicado para doenças hereditárias e imunológicas. Consiste na infusão de células-tronco hematopoéticas (CTH) com a finalidade de restabelecer a função normal da medula óssea. É indicado quando a doença envolve a medula óssea ou quando a toxicidade hematopoética é fator limitante para um tratamento mais agressivo.3

A implantação de um cateter venoso central (CVC) se torna necessária para manter um acesso venoso por longo tempo, recebendo periodicamente manuseios para aspiração sanguínea e administração de medicamentos.5 Os avanços tecnológicos contribuem para manter o acesso vascular por tempo mais prolongado e com maior frequência de uso, propriciando o aumento de infecções relacionadas ao procedimento.6 Ademais, o uso de CVC é um importante fator predisponente para infecções sanguíneas e aumento da mortalidade de usuários de tal dispositivo, gerando, consequentemente, aumento do custo hospitalar.7

Quanto ao curativo para tal dispositivo, não existe um consenso sobre qual oferece mais benefícios,8 porém, os cuidados de enfermagem são essenciais quanto à manipulação, observação e troca de curativos, que devem ser realizados de maneira criteriosa para a prevenção da contaminação do CVC. Para isso, é indispensável o uso de técnicas assépticas e a proteção da extremidade do cateter que minimiza o risco de contaminação intralumial. Como material de cobertura, pode ser utilizada a gaze estéril, fixada com esparadrapo hipoalergênico e películas transparentes de poliuretano. O curativo com gaze estéril necessita de troca em um período de 24 a 48 horas, enquanto o curativo com cobertura de filme de poliuretano deve ser trocado entre três e sete dias.9-10

Considerando tais fatores, os cuidados de enfermagem relacionados ao cateter do paciente que se submeterá ao transplante de medula óssea devem ser revisados, priorizados e normatizados, uma vez que existe maior suscetibilidade de infecção neles. A enfermagem é a única responsável pela manipulação desses dispositivos e o tem feito de acordo com seus próprios protocolos.11 Os protocolos de manutenção dos cateteres devem ser estabelecidos em parceria com o serviço de controle de infecção do hospital, como forma de prevenção de infecção desses instrumentos, com rotinas escritas e disponíveis para consulta pelos profissionais.12

De acordo com a Lei do Exercício Profissional da Enfermagem, Lei nº 7.498 - Decreto nº 94.406/87 -, entre as atividades privativas do enfermeiro incluem-se os cuidados diretos de enfermagem a pacientes graves com risco de vida, a prevenção e o controle sistemático da infecção hospitalar, prevenção e controle sistemático de danos que possam ser causados aos clientes durante a assistência de enfermagem.13 Tal lei respalda a importância de o enfermeiro buscar caminhos para prevenir possíveis agravos à saúde e para promover segurança e atendimento eficaz e eficiente em seu setor.

Conjugada a essa perspectiva, para o bom desempenho de um trabalho é necessário, o desenvolvimento de um planejamento em que se considerem as ações voltadas para a assistência à saúde de indivíduos, delimitando os recursos disponíveis e necessários, sejam eles materiais, humanos e financeiros, para tal fim. Na área da saúde, a crescente elevação dos custos tem estimulado a busca de racionalização na alocação de recursos e o equilíbrio entre custos e recursos financeiros, visando à eficiência e eficácia da assistência.14 São necessários, portanto, conhecimentos e habilidades no gerenciamento de custos, como instrumento estratégico de auxílio no processo de planejamento e de tomada de decisão. Nesse sentido, ressalte-se que o enfermeiro torna-se um profissional da área de saúde com grande potencial para assegurar uma assistência de qualidade e com custos racionais. Alguns autores afirmam que as enfermeiras podem ser responsáveis por 40% a 50% do fatura mento dos hospitais, uma vez que o trabalho da enfermagem contribui para a qualidade e a redução dos custos da assistência.14

Nos serviços de saúde, há necessidade de conhecer os custos, controlar os gastos e eliminar os desperdícios, sem prejuízo da qualidade, com eficiência na distribuição dos recursos, garantia de oferta de serviços qualificados e compatibilidade entre custos e orçamentos.15

Dessa forma, o objetivo com este artigo foi analisar a utilização e o custo de diferentes tipos de coberturas em cateter venoso central em relação à periodicidade de troca deles, bem como a frequência de infecções relacionadas ao dispositivo no Serviço de Transplante de Medula Óssea em pacientes submetidos ao processo terapêutico de um hospital público e de ensino de Juiz de Fora.

 

MATERIAL E MÉTODO

Para este estudo, foi realizada uma pesquisa retrospectiva com caráter exploratório e descritivo que visou relacionar o uso e o custo de coberturas de CVC.

Os dados foram coletados de 68 pacientes submetidos ao TMO autólogo no Hospital Universitário da UFJF, do período de 2006 a 2009, por meio de análise de prontuários e relatórios relacionados à manipulação dos cateteres venosos centrais, após a autorização do estudo pela Direção da instituição, dispensa do uso do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), autorização para a utilização das dependências da instituição em estudo e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa HU/UFJF.

Com critério de inclusão foram utilizados prontuários de pacientes submetidos ao transplante autólogo de medula óssea, que possuíam cateter venoso central, no HU/UFJF no período de janeiro de 2006 a outubro de 2009.

Os dados foram digitados e analisados com a utilização do programa estatístico SPSS. Posteriormente, foi realizada a análise descritiva propriamente dita das variáveis, de acordo com o referencial bibliográfico do estudo. A apresentação dos dados foi disposta por meio de gráficos e tabelas.

Foram utilizados métodos estatísticos por meio do programa SPSS para Windows. Para os dados categóricos, foram estabelecidas porcentagens, e a significância das diferenças (associação dos diferentes fatores com a variável infecção) foi dada pelo teste ℵ2 (qui-quadrado). Os resultados deste estudo foram comparados com aqueles da literatura nacional e internacional.

Foram analisados dados referentes à técnica de curativo do cateter (uso de gaze estéril ou curativo tipo filme transparente de poliuretano, frequência de troca de coberturas) e relacionados ao custo deles. Foi investigada a presença de infecção relacionada ao cateter, que implica a detecção de um mesmo organismo em culturas de sangue e culturas do cateter, em que a susceptibilidade do microrganismo seja a mesma. Dessa forma, foi considerada infecção relacionada ao cateter quando, durante a cultura, houve maior número de unidades formadoras de colônia na cultura do cateter em relação ao sangue periférico e colonização de cateter; quando houve detecção de microrganismos na superfície do cateter; e quando não houve desenvolvimento de cultura positiva em sangue periférico e/ou na cultura da ponta do cateter.

A infecção, no local de inserção do cateter, foi diagnosticada baseada na presença de pelo menos dois dos três sintomas: endurado, vermelhidão e sensibilidade próximos ao sítio de inserção. Infecção sistêmica pode ou não estar associada. O caso de cultura da ponta do cateter, com o crescimento de mais que 15 UFCs (unidades formadoras de colônia), foi interpretado como infecção relacionada ao cateter.

 

RESULTADOS

Foram analisados prontuários de 65 pacientes em 68 transplantes, 3 pacientes foram submetidos a 2 procedimentos no período. Cada transplante foi considerado como um caso isolado, não havendo associação entre os procedimentos.

Características dos pacientes

A maioria dos pacientes tinha como diagnóstico médico o mieloma múltiplo (52,9%). O segundo diagnóstico mais comum foi o Linfoma de Hodgkin, em 30,9% dos pacientes (TAB. 1).

 

 

Os pacientes receberam um cateter venoso central na sua admissão na unidade de internação, exceto aqueles que possuíam um cateter semi-implantado tunelizado. Os pacientes com cateter totalmente implantado tiveram os mesmos inativados e submetidos ao implante de um cateter semi-implantado não tunelizado (TAB. 2).

 

 

Os locais de acesso para a implantação do cateter venoso central mais frequentes foram aveia subclávia direita e a esquerda, 55,2% e 25,4%, respectivamente, entre os casos registrados (TAB. 3).

 

 

Coberturas utilizadas

Outra variável analisada foi o uso de diferentes tipos de cobertura para o curativo no sítio de inserção do cateter. Foram utilizados como cobertura o filme transparente de poliuretano, gaze estéril e o uso intercalado de filme e gaze estéril. Em um prontuário, não havia dados relacionados ao uso de cobertura. Assim, foram analisados neste item os dados referentes a 67 pacientes. Dentre estes, a cobertura utilizada com maior frequência foi o filme transparente, aproximadamente 51 % (n=34), enquanto o uso de gaze estéril foi de 21 % (n=14) e o uso de filme e gaze estéril intercalado foi de 28% (n=19), como demonstrado no GRÁF. 1, em que estão descritas as percentagens do uso das diferentes coberturas.

 

 

Quanto ao aspecto da frequência de trocas de curativo, foram analisados a periodicidade de duração dos dois tipos de cobertura, filme transparente e gaze estéril. Nesse sentido, percebeu-se que entre os pacientes que tiveram como curativo o uso de filme (n=34), 29 apresentaram permanência contínua de 4 a 7 dias de tal cobertura (GRÁF. 2).

 

 

Em relação ao curativo com gaze estéril (n=14), observa-se que 43% (n=6) tiveram permanência de 24 a 48 horas com a mesma cobertura (GRÁF. 3).

 

 

De acordo com a presença de culturas positivas ou identificação clínica de infecção, verificou-se que em, aproximadamente, 21,0% (n=14) dos pacientes envolvidos neste estudo havia a presença de infecção relacionada ao cateter venoso central (GRÁF. 4).

 

 

Testes foram realizados com a intenção de verificar a presença de associação entre o diferente tipo de cobertura utilizado e a presença de infecção e colonização relacionada ao cateter entre os 67 prontuários analisados.

Dessa forma, identificou-se que 14 pacientes desenvolveram infecção relacionada a cateter. Quando comparado com o uso de cobertura, foi possível observar uma frequência maior de infecção relacionada ao cateter entre os pacientes que utilizaram filme e gaze estéril concomitantemente, conforme apresentado na TAB. 4. Contudo, não foi identificada significância estatística (p=0,387).

 

 

Observa-se que 15 pacientes desenvolveram apenas colonização de cateter. A associação entre colonização e tipo de cobertura indica que os pacientes em uso de filme mostraram maior tendência em desenvolver colonização de cateter, mas também não foi observada diferença estatística significativa (p=0,224) (TAB. 5).

 

 

Análise dos custos das coberturas utilizadas

Torna-se significativo descrever os recursos, materiais e humanos, necessários para a realização dos curativos de cateter venoso central no setor de TMO. Para esta discussão, realizou-se um levantamento, no Setor de Compras da instituição, dos valores dos recursos e valor total de cada item necessário para a realização do curativo de acordo com o protocolo do setor envolvido no estudo, para o uso do filme transparente de poliuretano e da gaze estéril.

Para o curativo utilizando filme de poliuretano, os recursos materiais e humanos necessários foram descritos na TAB. 6.

Conforme apresentado, para a realização de cada procedimento, o custo aproximado envolvido foi de R$ 17,74. Para a realização de curativo de gaze estéril os recursos necessários foram descritos na TAB. 7.

O custo relacionado a esse tipo de curativo é R$ 7,12 por procedimento, considerando uma troca a cada 24 horas. Conforme protocolo estabelecido na instituição pelo serviço de controle de infecção hospitalar, o procedimento gera um custo semanal de R$ 49,84.

 

DISCUSSÃO

Neste estudo, aponta-se que a cobertura utilizada com maior frequência foi o filme transparente, em aproximadamente 51 % dos pacientes. Em relação à frequência de trocas de curativo, na utilização de filme, a cobertura apresentou uma permanência contínua de 4 a 7 dias em quase 80% dos casos, enquanto no uso de gaze estéril observou-se que 54% tiveram permanência de um a dois dias. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) preconiza que o curativo de óstio de cateter pode ser tanto com gaze estéril e esparadrapo quanto com filme de poliuretano, sendo preferível o curativo com gaze estéril em pacientes com perspiração abundante, sangramento ou exsudação local.10

É importante destacar que a periodicidade de troca para cobertura com gaze consiste em 24 horas a 48 horas e para filme transparente até no máximo sete dias ou quando apresentar sujidade, umidade, enrugamento, soltura ou algum outro comprometimento.10-16 Cabe ressaltar que os curativos devem ser inspecionados diariamente, assim como a avaliação do sítio de inserção. Quando comprometidos, os curativos devem ser trocados.

Neste estudo, alguns curativos com gaze estéril permaneceram mais que 48 horas (3 pacientes-21,5%). Tal fato demonstra a importância da revisão constante dos protocolos estabelecidos, da avaliação das técnicas utilizadas e do estabelecimento de instrumentos que verifiquem a periodicidade de troca dos curativos. Quando se consideram pacientes que fazem uso de cateter venoso central, é importante reconhecer que estes possuem uma porta de entrada para microrganismos e as técnicas e protocolos devem visar à diminuição dos riscos relacionados a esse procedimento. Quando tais medidas não são respeitadas, os pacientes ficam mais susceptíveis a infecções e, consequentemente, ao aumento dos custos relacionado ao tratamento de tal complicação.

Em uma pesquisa bibliográfica que compara o uso de curativos realizados em CVC, concluiu-se que a utilização de gaze estéril apresenta como vantagens ser um produto de baixo custo e de facilidade no uso. Como desvantagens, foram apontadas trocas frequentes, não visualização e monitoração contínua do sítio de inserção, menor tempo de permanência, risco de soltura de fios e fibras que atuam como corpo estranho, podendo provocar inflamação e infecção. Quanto ao curativo realizado com filme transparente, foram observadas como vantagens a adaptabilidade aos contornos do corpo, a visualização e a monitoração direta do acesso vascular, ação como barreira à contaminação da ferida, impermeabilidade à água e a outros agentes e troca em período maior de tempo, diminuindo, assim, sua manipulação e, consequentemente, menor risco de infecção. Como desvantagens, foram apontadas a hipersensibilidade e a contraindicação de serem usados nas primeiras 24 horas.17

Neste estudo, foi possível perceber que, dadas as trocas frequentes necessárias, ao utilizar cobertura com gaze estéril, o custo do curativo por semana torna-se maior quando comparado ao uso de cobertura com filme de poliuretano. Em relação à inspeção diária, ao utilizar curativo com gaze estéril, faz-se necessário retirar o curativo para visualização do sítio de inserção para avaliar a presença de alterações como apresentação de sinais flogísticos.

De acordo com Silva,17 uma das vantagens do uso do filme transparente é a possível redução da taxa de infecção vascular, além da visualização direta do local de inserção sem a remoção do curativo que proporciona bem-estar e conforto ao paciente.17 Em nosso estudo, foi encontrada na população a presença de, aproximadamente, 32% de infecção entre os pacientes que tiveram uso intercalado de filme transparente de poliuretano e de gaze estéril para o curativo do sítio de inserção do cateter. Quanto a esse aspecto, infere-se que tal percentagem seja consequência da substituição da cobertura de filme por gaze estéril, uma vez que na presença de secreção no sítio de inserção do cateter, um dos sinais de infecção, haja orientação para realizar curativo com gaze estéril. A presença de infecção foi semelhante no grupo que utilizou exclusivamente filme transparente e gaze estéril. Contudo, a análise ficou prejudicada dado o número de pacientes ser reduzido.

Corroborando este estudo, alguns trabalhos menciona-se que não foram encontradas diferenças entre a utilização de curativos com gaze ou aqueles de poliuretano na inserção dos cateteres no que diz respeito à prevenção de infecção, ao mesmo tempo em que autores afirmam que não existe um consenso sobre a associação entre o risco de infecção e diferentes tipos de cobertura de cateteres intravasculares.6,18,19

Nessa perspectiva, para a realização de trocas de curativo, as técnicas de limpeza da pele, assim como o tipo de material de cobertura, variam de acordo com o protocolo de cada instituição. As principais condutas adotadas na realização de curativo em sítio de inserção de CVC, para a prevenção de infecção, consistem em limpeza com solução fisiológica (0,9%), que gera uma limpeza mecânica ou hidrolítica do local, secando com gaze posteriormente; antissepsia com clorexidina alcoólica, que possui uma atividade germicida; e oclusão com camada fina de gaze estéril fixada com fita hipoalergênica ou oclusão com filme transparente.

Para a antissepsia do sítio de inserção do cateter, o CDC descreve que há preferência pela cloro-hexidina a 2%, embora o polivinilpirrolidona-iodo (PVPI) alcoólico e aquoso ou o álcool também possam ser utilizados.10 A utilização de cloro-hexidina para a limpeza da inserção do cateter é mais indicada por causa do seu efeito residual, de 4 a 6 horas, mas não proíbe a utilização de outros antissépticos.10 Um consenso entre autores mostra que o treinamento da equipe para manipulação do cateter, lavagem das mãos e adoção de medidas de barreira para inserção deste é fundamental para a diminuição do risco de infecção relacionada a esse dispositivo18,20,21.

Nesse cenário, observa-se que os intervalos de troca do curativo transparente são maiores do que aqueles com gaze, reduzindo, assim, os insumos que lhe são necessários, o tempo de assistência da enfermagem e, consequentemente, o custo hospitalar. A realização de cada procedimento de curativo com o uso de filme transparente de poliuretano como o cobertura do sítio de inserção do cateter envolve recursos materiais e humanos com um custo aproximado de R$ 17,74 e para o uso de gaze estéril um valor de R$ 7,12. Destaque-se, dessa forma, um custo com tal procedimento 2,5 vezes mais dispendioso para a instituição em uma semana, o que acarreta um valor 11,2 vezes maior se comparado com o uso de filme mensalmente.

Assim, a não utilização de filme como cobertura em razão dos custos relacionados com esse procedimento não é justificada. Mas torna-se necessária a padronização das rotinas para a utilização de coberturas. A gaze estéril será sempre indicada nas primeiras 24 horas de instalação do cateter, na presença de sangramento e secreção. O filme é indicado quando não há esse tipo de complicação. Entretanto, em algumas situações, como a soltura do filme, torna-se necessária a troca de mais de um curativo por semana, o que poderia levar a um custo de R$ 35,48. Nesse sentido, caso se tornem necessárias mais de duas trocas semanais, deve-se avaliar os motivos de ocorrência e, em casos de presença de sangramento ou secreção abundante, o uso de filme pode não ser indicado.

É importante considerar que as técnicas utilizadas para a realização dos curativos de sítio de inserção variam de acordo com o protocolo de cada instituição. Os dados foram baseados no acordo com o protocolo estabelecido no Hospital Universitário da UFJF.

De acordo com a técnica preconizada pelo CDC, a troca da cobertura de filme transparente deve ser realizada em no máximo sete dias e da cobertura de gaze estéril a cada 24 horas.10 Portanto, neste estudo, foi possível demonstrar que os custos com o uso de gaze são maiores que os custos com a cobertura com filme.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com este estudo, teve-se o objetivo de analisar a utilização e o custo de diferentes tipos de coberturas em cateter venoso central em relação à sua periodicidade de troca e também à frequência de infecções relacionadas ao dispositivo no Serviço de Transplante de Medula Óssea em pacientes submetidos ao processo terapêutico de um hospital público e de ensino de Juiz de Fora.

Destaque-se que, entre os resultados encontrados, o período de permanência mais frequente do uso de filme transparente como cobertura de CVC foi de quatro a sete dias, enquanto para gaze estéril foi de um a dois dias. Nesse sentido, demonstrou-se um custo mais elevado em relação ao uso de gaze estéril, quando comparado ao uso de filme. Quando utilizado o curativo de gaze estéril, o custo é 2,5 vezes mais dispendioso para a instituição em uma semana, o que acarreta um valor 11,2 vezes maior se comparado com o uso de filme mensalmente.

Em relação à correlação entre o índice de infecção associado ao tipo de cobertura, verificou-se, neste estudo, que não houve diferença estatística entre eles. Ressalte-se, entretanto, a importância da realização de avaliações sistemáticas para a confirmação de tal aspecto.

Destaque-se que cada cobertura possui sua importância e não há justificativa para a substituição de um tipo de cobertura em detrimento da outra. Contudo, se bem indicado, o uso de cobertura de filme requer menor número de trocas, levando ao menor custo, à menor manipulação do sítio de inserção e, consequentemente, reduz o risco de contaminação, facilita a visualização do sítio de inserção por toda a equipe sem que seja necessária a retirada do curativo.

Outros estudos prospectivos necessitam ser desenvolvidos para comparação de outros aspectos relacionados às coberturas utilizadas para curativo em sítio de inserção do cateter. Estudos comparando as soluções de limpeza e antissépticos, assim como reações adversas relacionadas a reações cutâneas e motivo para troca das coberturas são necessários para que protocolos sejam estabelecidos.

Quando consideramos pacientes do transplante de medula óssea, tais cuidados devem ser ainda mais ressaltados e os protocolos de manejo de curativos, ainda mais rigorosos, dada a condição clínica desses pacientes. A literatura nacional possui poucos estudos que abordam tais aspectos não apenas nesse grupo de pacientes, mas no que diz respeito aos cuidados relativos ao cateter venoso central de maneira geral.

Conclui-se, portanto, que há necessidade de constante avaliação do processo do cuidado em enfermagem, associado à assistência, pesquisa e gerência, uma vez que estudos sobre o impacto de procedimentos padronizados podem levar ao aprimoramento do serviço da enfermagem e da instituição. A partir de tais estudos, torna-se necessária a elaboração de protocolos institucionais para o manuseio de cateteres, que devem ser confeccionados com base em uma relação cientificamente comprovada e mediante análises de custo-eficácia de tais medidas.

 

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