REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 21:e1068 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20170078

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Pesquisa

Profissionais mediadores da qualidade e segurança do paciente como estratégia para o cuidado seguro

PROFESSIONAL PATIENT QUALITY AND SAFETY MEDIATORS AS A STRATEGY FOR SAFE HEALTH CARE

Cintia Silva Fassarella1; Suellen Sales Ferreira2; Flavia Giron Camerini3; Danielle de Mendonça Henrique3; Aline Affonso Luna4; Luana Ferreira de Almeida5

1. Enfermeira. Doutora em Ciências de Enfermagem. Professora Assistente. Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Faculdade de Enfermagem. Professora Adjunta. Universidade do Grande Rio - Unigranrio, Escola de Ciências da Saúde. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
2. Acadêmica. Unigranrio, Escola de Ciências da Saúde, Curso de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
3. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta. UERJ. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
4. Enfermeira. Doutora em Enfermagem e Biociências. Professora Assistente. UERJ, Faculdade de Enfermagem. Professora Adjunta. Unigranrio, Escola de Ciências da Saúde. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
5. Enfermeira. Doutora em Educação em Ciências e Saúde. Professora Adjunta. UERJ, Faculdade de Enfermagem. Coordenadora. Hospital Universitário Pedro Ernesto, Núcleo de Segurança do Paciente. Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Endereço para correspondência

Cintia Silva Fassarella
E-mail: cintiafassarella@gmail.com

Submetido em: 13/06/2017
Aprovado em: 23/10/2017

Resumo

OBJETIVO: caracterizar o mediador da qualidade e segurança do paciente; e identificar as ações e atribuições dos mediadores frente às estratégias implantadas pelo gestor de risco para melhoria dos cuidados de saúde.
MÉTODOS: estudo transversal, descritivo e exploratório, de abordagem quantitativa, realizado em um hospital universitário acreditado no Porto, Portugal, entre junho e julho de 2014, a partir de um questionário semiestruturado, contendo variáveis da caracterização dos profissionais e de atribuições e ações dos mediadores.
RESULTADOS: participaram do estudo 71 mediadores da qualidade e segurança do paciente, tendo a maioria mulheres entre 36 e 40 anos, enfermeiras, licenciadas, sem formação em gestão, experiência profissional na instituição há 11-20 anos e na função de mediador com experiência de um a cinco anos. As atribuições desempenhadas dos mediadores foram: estabelecer interlocução entre departamento de qualidade e equipe (38%), orientar medidas de segurança do paciente (33%) e contribuir para a formação de novos profissionais mediadores (32%). As ações desenvolvidas foram: cirurgia segura (83%), prevenção de infecção associada ao cuidado de saúde (83%), queda (82%), medicação (80%) e lesão por pressão (79%).
CONCLUSÕES: embora não referida pelos participantes, notou-se a pertinência da iniciativa como uma medida inovadora e pioneira e no aspecto da tecnologia leve em saúde. Percebeu-se evolução nas relações entre os membros da equipe e da produção de comunicação.

Palavras-chave: Gestão de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde; Qualidade da Assistência à Saúde; Segurança do Paciente.

 

INTRODUÇÃO

No contexto atual, a organização de saúde hospitalar tem sido campo de inúmeros avanços tecnológicos e científicos por meio da utilização de métodos, técnicas e tecnologias cada vez mais sofisticados e complexos.1 No entanto, a respeito dos recursos tecnológicos e humanos existentes nas organizações em saúde, ainda se fazem necessário mais avanços para se reduzir o número de incidentes indesejáveis e melhorar a prestação de cuidado à saúde.2

Embora as tecnologias sejam divididas teoricamente em leve, leve-dura e dura, elas se inter-relacionam.3 Nesse sentido, os profissionais de saúde inseridos nas organizações de saúde necessitam das tecnologias ditas leves, que são capazes de proporcionar a relação interprofissional, produção de comunicação efetiva e o encadeamento de redes. Diante dessas considerações, entende-se por inovação tecnológica em saúde a introdução e aplicação intencional de ideias, processos, produtos ou procedimentos que concomitantemente sejam pertinentes para cuidado mais seguro nas organizações em saúde.4

No que concerne ao cuidado seguro e relacionando às políticas públicas, o Ministério da Saúde em Portugal publicou o Plano Nacional para a Segurança dos Doentes (PNSD) 20152020. Esse plano acata a recomendação do Conselho da União Europeia sobre a segurança dos pacientes e aborda estratégias visando reforçar a melhoria contínua da qualidade e da segurança nos cuidados.5

O Plano Nacional de Portugal tem como principal objetivo apoiar os gestores de riscos na aplicação de metodologia e na busca de metas que visam melhorar a gestão de riscos relacionados à assistência à saúde, sobretudo porque, a segurança do paciente é uma responsabilidade coletiva que decorre das competências individuais e da gestão. Nesse sentido, a segurança do paciente pode ser estruturada com base na responsabilidade de todos os profissionais envolvidos nos cuidados.5

Sabe-se que na organização de saúde hospitalar a gestão dos riscos relacionados à assistência à saúde demanda uma abordagem sistêmica, conjunta, organizada e constantemente assistida. Desse modo, a implantação de inovações tecnológicas associadas à gestão dos riscos e à assistência à saúde é, assim, um processo coletivo que tem como propósito assegurar a segurança possível dos pacientes, prevenindo incidentes indesejáveis, que podem ser capazes de comprometer a qualidade do serviço de saúde.6

Por esse motivo que a instituição de saúde em estudo implantou a figura do profissional mediador da qualidade e segurança do paciente (MedQSP), tendo a preocupação com a cobertura de todos os níveis assistenciais e de apoio da instituição. Embora esses profissionais sejam em sua maioria profissionais de saúde, existe a preocupação de envolver outras áreas que não lidam diretamente com o paciente. Espera-se ter pelo menos um representante de cada serviço/ unidade, pois se entende que as demais áreas também são essenciais para a integração multiprofissional e o adequado funcionamento da instituição de saúde.

Percebe-se que o MedQSP é aquele profissional que realiza o elo entre a equipe da sua unidade/serviço e o departamento de gestão de risco, qualidade e segurança do paciente do hospital, com carga horária de trabalho determinada para esse fim, auxiliando no desenvolvimento de competência e habilidade, assim como na manutenção de estratégia, melhorando a assistência prestada pela equipe e assegurando prestação de cuidado mais seguro.

Certamente, essa estratégia pioneira e inovadora implantada na instituição de saúde de Portugal é de extrema relevância, pois agrega melhoria na prestação de cuidado de saúde, além de possibilitar a disseminação para outras organizações de saúde. Tal estratégia visa criar uma rede de profissionais com propostas predefinidas, por meio de ações transversais como disseminação da cultura de segurança, efetividade da comunicação interprofissional, distribuição do conhecimento e da informação direcionada para a segurança e de intervenções voltadas para problemas específicos, melhorando à assistência à saúde em todos os pontos de cuidados de forma integrada, participativa, coletiva e em um processo de melhoria contínua.

Diante desse contexto, as questões norteadoras deste estudo foram: como se caracteriza o mediador da qualidade e segurança do paciente? E quais são as ações e atribuições dos mediadores frente às estratégias implantadas pela gestão de risco para melhoria dos cuidados de saúde?

Os objetivos do estudo foram caracterizar o mediador da qualidade e segurança do paciente; e identificar as ações e atribuições dos mediadores diante das estratégias implantadas pelo gestor de risco para melhoria dos cuidados de saúde.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo transversal, descritivo e exploratório, com abordagem quantitativa, realizado em um hospital de grande porte, público, universitário, acreditado pela Caspe Healthcare Knowledge Systems (CHKS), localizado no Porto, Portugal.

Os participantes foram os profissionais da instituição considerados mediadores da qualidade e segurança do paciente. Os mediadores são funcionários da instituição com habilitação acadêmica variada, desde o ensino básico, secundário, bacharel, licenciatura e mestrado. A todos esses profissionais foram aplicados os critérios de inclusão: ter no mínimo um ano na função, desenvolver atribuições; e ter a responsabilidade como mediador na instituição e ser profissional de saúde. E os critérios de exclusão foram aqueles participantes que se encontravam de férias, de licença e que se recusaram a assinar o termo de consentimento livre e esclarecido.

Para a população total de 146 mediadores da qualidade na instituição estudada, a amostra foi composta por todos os mediadores da instituição que atenderam aos critérios de inclusão e exclusão descritos, perfazendo o total de 71 mediadores de segurança que responderam ao questionário, de acordo com os objetivos do estudo.

A coleta de dados ocorreu nos meses de junho e julho de 2014, pela pesquisadora principal, durante o período laboral dos participantes e contou com a técnica do questionário semiestruturado autoaplicável. O questionário é composto de duas partes, a primeira parte contendo variáveis de identificação, formação profissional e habilitação acadêmica; e a segunda com variáveis da gestão hospitalar, acreditação, funções/ responsabilidades como MedQSP e ações/iniciativas de segurança do paciente.

Após a coleta de dados, os mesmos foram organizados em banco de dados usando programa Microsoft Excel® 2013 e analisados por meio da estatística descritiva, com medidas de tendência central e de dispersão, usando o programa informático de estatística Statistical Package for Social Science (SPSS) 21.0 for Windows.

A anuência do hospital envolvido no estudo foi determinada mediante autorização da direção do gabinete da qualidade e segurança do paciente, assim como da direção geral do hospital.

O presente estudo obedeceu aos preceitos éticos relativos ao desenvolvimento de estudos com seres humanos, de Portugal, no qual foi submetido à Comissão de Ética em Pesquisa para a Saúde, sendo aprovado sob o protocolo n° Ref. 2014.032 (024-DEFI/031-CES).

 

RESULTADOS

Foram analisadas as respostas de 71 MedQSP, composta na sua maioria por sexo feminino (80,28%), faixa etária de 36 a 40 anos (23,94%), com média de idade de 42 anos. A formação profissional dos mediadores eram enfermeiros (67,61%), tinham licenciatura (81,69%) e não apresentavam formação em gestão (76,06%).

Em relação à experiência profissional, a maioria relata ter tempo de exercício profissional e de experiência na instituição de 11 a 20 anos (45,07 e 46,48%, respectivamente). Já no tocante ao tempo de exercício como MedQSP, a maioria (63,38%) está recentemente na função, há 1-5 anos, e não tem experiência anterior como MedQSP (88,73%) (Tabela 1).

 

 

Outro fato de destaque neste estudo é a questão direcionada para as atribuições desempenhadas pelos MedQSPs. Percebe-se que a maior atribuição (27; 38,03%) é estabelecer interlocução entre departamento de qualidade e equipe, além de orientar medidas de segurança do paciente (24; 33,80%) e contribuir para a formação de novos profissionais mediadores (23; 32,39%) (Tabela 2).

 

 

A seguir destacam-se as ações desenvolvidas na instituição para prevenir incidentes. Os dados revelam o foco em iniciativas voltadas para a cirurgia segura e de prevenção de infecção (59; 83,10%), seguido pela prevenção de queda (58; 81,69%) e de incidentes envolvendo medicação (57; 80,28%) (Figura 1).

 


Figura 1 - Ações desenvolvidas na instituição para prevenir incidentes. Porto, 2017.

 

DISCUSSÃO

A partir dos objetivos do estudo, a discussão foi dividida em caracterização do MedQSP e identificação das ações e atribuições MedQSP diante das estratégias implantadas pelo gestor de risco para melhoria dos cuidados de saúde.

Caracterização dos mediadores da qualidade e segurança do paciente

Quando se explora o assunto segurança do paciente, foca-se em promover e apoiar a implementação de iniciativa voltada para esse assunto, porém, para que as iniciativas sejam implementadas e desenvolvidas, é preciso que haja estrutura institucional e profissionais adequados para que se possa ter o feedback dos resultados para a gestão.

Os profissionais que estão envolvidos diretamente com a melhoria da segurança do paciente são aqueles que apresentam uma cultura de segurança solidificada. Com isso, não se observa apenas a melhoria da assistência ao paciente a partir da mensuração dos indicadores da qualidade, mas também passa a ser um ganho econômico. Nesse sentido, entende-se que o investimento na figura do MedQSP pode significar um investimento da cultura de segurança do paciente.7 A literatura científica portuguesa com o foco voltado para o ganho econômico ainda é incipiente, porém se entende que é um ponto importante para ser discutido, visto a relevância desses profissionais na assistência de qualidade na instituição estudada.2

Os resultados demonstram que os profissionais estudados na instituição são em sua maioria enfermeiros, jovens, do sexo feminino, licenciados e não possuem formação em gestão, o que torna isso um fator relevante a ser analisado. Os líderes são escolhidos, em parte, pela sua habilidade com as pessoas8, mas o conhecimento voltado para a prática é à base das ações do mediador na melhoria da assistência. Corroborado a ideia, um pesquisador afirma que características individuais dos profissionais como competências, formação e experiência podem evitar a ocorrência de incidentes indesejáveis.1

Os MedQSPs caracterizados neste estudo são profissionais com longo tempo de atuação profissional (11-20 anos), o que o torna um profissional experiente. É importante ressaltar que quando se trabalha com uma equipe com uma base teórica qualificada e sólida, estreita-se ainda mais a margem de erros e promove-se uma cultura organizacional.9 Em relação ao tempo de exercício na instituição, observa-se que a experiência foi adquirida dentro da própria instituição estudada. Isso denota que esse profissional dispõe de um conhecimento aprofundado do processo em que atua, diante das necessidades internas e mudanças constantes.

Esses dados são enfatizados quando se analisa o tempo em que esses profissionais exercem a função como mediadores. Os resultados mostram que a maioria (63,38%) dos profissionais possui curto tempo como MedQSP – ente um e cinco anos. Por outro lado, esses mediadores, em sua maioria (88,73%), não referiram experiência anterior na função, o que demonstra que a implementação do mediador é uma estratégia tecnológica inovadora na instituição estudada.

Em síntese, por ser uma estratégia inovadora, sabe-se que esses profissionais se deparam com muitos desafios para implementar e coordenar essas políticas de segurança. Essas estratégias devem ser consideradas e abordadas de forma atuante, a fim de diminuir uma atitude pouco colaborativa dos profissionais. Portanto, os MedQSPs devem atuar auxiliando, envolvendo e estimulando no desenvolvimento de competências e habilidades, relacionadas a melhorias contínuas no quesito qualidade e segurança do paciente.

Identificação das atribuições e ações dos MedQSP

As atribuições desses profissionais em Portugal, que auxiliam os gestores em ações de segurança do paciente10, caracterizam-se por dispor de uma gama de prestação de cuidados de saúde, que inclui a implantação de tecnologias, qualificação nas unidades, informação transparente, qualidade clínica e organizacional, gestão integrada, avaliação e orientação dos usuários de saúde. Impõe-se, então, o desafio aos serviços prestadores de cuidados de saúde de introduzir melhoria ininterrupta de qualidade e segurança, visando a ações de promoção da saúde e prevenção de incidentes.11

Nesse sentido, conforme apresentado na Tabela 2, as principais atribuições que são desempenhadas pelos MedQSP foram: estabelecer elo entre departamento de qualidade e equipe (38,03%); orientar medidas de segurança do paciente (33,80%); contribuir para a formação de novos profissionais mediadores (32,39%); colaborar e realizar auditoria interna (29,58%); e atualizar e implementar normas e procedimentos (25,35%). Após apresentar esses dados, é possível inferir que as principais funções mencionadas são de referência na segurança do paciente baseada nas prioridades globais da Organização Mundial da Saúde12 e no Plano Nacional de Saúde em Portugal.5

Uma das funções consideradas importantes para a implementação de melhoria contínua foi pouco mencionada no estudo, o que chama a atenção para a importância de realizar e incentivar a notificação de incidentes. Com base nas funções dos MedQSPs, fica explícito que há a responsabilidade desses profissionais no que diz respeito a comunicação, treinamento e incentivo à notificação de incidente.

É nesse cenário que a tecnologia leve é inserida neste estudo, por entender que os profissionais de saúde são exigidos de atualização de conhecimentos, que necessita de contributo de relevantes esforços profissionais e institucionais, para enfrentarem o desafio de distinguirem os aspectos que têm que ser incorporados nas atividades diárias, na organização dos cuidados ou na gestão das instituições, à luz das melhores e mais recentes evidências científicas.5,13

Pensando no aspecto da inovação tecnológica idealizada pela instituição ao introduzir os MedQSPs, acredita-se que as demais instituições também podem se preocupar com a qualidade do cuidado prestado à saúde, com o propósito de fortalecer uma cultura da segurança.5,14

As ações desempenhadas pelos MedQSPs na instituição estudada para prevenir incidentes foram aquelas consideradas pela legislação portuguesa5 e por órgãos internacionais como prioritárias, como aquelas direcionadas para a cirurgia segura, prevenção de infecção associada ao cuidado de saúde, prevenção de queda e de lesão por pressão e aspectos com medicação.12

De modo geral, a estratégia adotada na instituição estudada teve início em torno de uma década e meia, após as frequentes reuniões dos líderes da qualidade e segurança do paciente. A criação dos MedQSPs teve como objetivo envolver diretamente os profissionais da assistência, uma vez que se acreditava que ter a participação ativa desses profissionais poderia garantir melhores resultados, adesão das iniciativas e avanços nos indicadores mensurados.

Diante disso, a seleção para exercer a função de MedQSP foi realizada pelos próprios líderes a partir de indicação, considerando-se alguns requisitos básicos, entre eles: um representante de cada serviço/área do hospital; colaboração com responsabilidade na melhoria contínua da assistência; disponibilidade em participar das reuniões periódicas com os demais MedQSP e líderes da estratégia, a fim de receber capacitação frequente e participar das novas diretrizes a serem implementadas; treinamento periódico dos membros da equipe na área de atuação do MedQSP. Desse modo, os MedQSPs, ao serem selecionados para desempenhar e conciliar a função, dispõem de uma carga horária inserida na totalidade, desconhecendo qualquer tipo de remuneração ou gratificação específica.

Os resultados deste estudo indicam que essas ações de melhoria devem ser voltadas não apenas para uma prática clínica específica, mas também para o desenvolvimento de uma cultura da segurança no cuidado à saúde. Entende-se que a ação de melhoria é definida como ação empreendida para tornar melhor ou compensar qualquer dano após um incidente.15

Sabe-se que a cultura individual e grupal dentro da organização pode influenciar nos processos, normas e rotinas.16 Para se criar uma cultura de segurança, significa vencer barreiras e desenvolver um ambiente de trabalho colaborativo, no qual os membros da equipe assistencial tratam um ao outro como iguais e com respeito, independentemente da função de trabalho ou título. Envolve impor responsabilidade pessoal e organizacional.17

As atribuições dos profissionais responsáveis pela gestão da segurança no serviço de saúde em Portugal podem ser encontradas no Manual de Acreditação de Unidades de Saúde, que em síntese compreende: garantir que sejam elaborados planos de formação contínua tendo em consideração as necessidades dos profissionais e da unidade; avaliar a aplicabilidade ao posto de trabalho das novas competências adquiridas pelos seus profissionais; garantir que as atividades de formação realizadas pelos profissionais gerem valor acrescentado; orientar os planos de desenvolvimento e formação para a melhoria dos resultados assistenciais; avaliar as competências profissionais periodicamente para que os planos de desenvolvimento individual possam ser ajustados às competências.14,18

Além de definir as atribuições e ações dos MedQSPs, faz-se necessário conscientizar que gerentes, líderes e profissionais multidisciplinares trabalhem em ambiente que estimulem uma cultura de segurança, aberta, justa e participativa, o que pode minimizar a ocorrência de erros e de danos aos usuários do serviço. Para que aconteçam essas ações, deve-se entender que as funções dos mediadores podem ser frequentemente ratificadas e atualizadas, pois além de facilitar a demanda de serviços desses profissionais, auxiliam e norteiam uma assistência segura ao paciente.

Por fim, para dar conta das atribuições e ações, os Med-QSPs participam de reuniões periódicas e recebem capacitação mensalmente pelo departamento de gestão de risco, qualidade e segurança do paciente do hospital. Essa capacitação periódica permite a introdução de novas estratégias e o monitoramento dos indicadores de qualidade na instituição, possibilitando a transferência de informação pelo MedQSP do serviço/ unidade aos demais membros da equipe.

 

CONCLUSÃO

Ao realizar este estudo, notou-se a pertinência da temática como inovação tecnológica em saúde e como uma iniciativa relevante na instituição estudada. Ao se caracterizar os MedQSPs, identifica-se o predomínio de mulheres entre 46 e 50 anos, enfermeiras, licenciadas, sem formação em gestão, experiência profissional e na instituição há 11-20 anos, no entanto, pouca experiência na função como MedQSP.

A principal atribuição exercida por esses profissionais é criar elo entre a equipe da unidade/serviço e o departamento de gestão de risco, qualidade e segurança do paciente do hospital. Essa função é imprescindível para garantir a implantação, continuidade e manutenção das iniciativas de segurança do paciente, assim como na monitorização e divulgação dos resultados associados às iniciativas de melhorias contínuas.

As ações desenvolvidas na instituição estudada para prevenir incidentes foram aquelas consideradas pelas legislações atuais como emergentes, como cirurgia segura, prevenção de infecção, de queda e lesão por pressão e medicação segura.

Acredita-se que o estudo contribuiu para identificar algumas ações de segurança do paciente desenvolvidas pelos MedQSPs e também na divulgação de suas atribuições, visando ações de promoção e prevenção das incidentes.

Diante disso, é relevante destacar que garantir segurança do paciente é fruto do esforço e comprometimento de toda a equipe envolvida direta ou indiretamente na assistência, em ações voltadas para o cuidado seguro do paciente.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta a limitação de ser a prática de uma instituição portuguesa, sem expansão a outras instituições. No entanto, tem desenvolvido resultados pertinentes, trazendo avanços nas ações de segurança do paciente.

Outra limitação relaciona-se à temática da inovação tecnológica dita como leve no fomento de iniciativas de relações interpessoais e multidisciplinares, de comunicação e de promoção de rede. A literatura revela a necessidade de realização de investigações que tragam avanços e inovações tecnológicas, à luz da segurança do paciente, sobretudo na adoção de iniciativa que visa à promoção de melhoria da prestação de cuidado. Em síntese, tem-se como uma das limitações a originalidade do objeto estudado, dificultando a ampliação nas discussões sobre essa temática.

 

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