REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 20:e974 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20160044

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Pesquisa

A ludoterapia e a criança hospitalizada na perspectiva dos pais

The play therapy and child hospitalized in perspective of parents

Fernanda Cristina Custodia de Faria Fioreti1; Bruna Figueredo Manzo2; Alline Esther Ferreira Regino3

1. Enfermeira. Especialista em CTI Neonatal e Pediátrico. Hospital Municipal Odilon Behrens. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Escola de Enfermagem-EE. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Acadêmica do Curso de Enfermagem. UFMG, EE. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Fernanda Cristina Custodia de Faria Fioreti
E-mail: fernandafioretienfermeira@hotmail.com

Submetido em: 12/08/2015
Aprovado em: 23/09/2016

Resumo

A hospitalização traz transtornos que, na infância, tornam-se mais evidentes nas manifestações de insatisfação momentânea ou prejuízos, podendo permanecer mesmo após a alta hospitalar. Na Pediatria as crianças são submetidas a procedimentos dolorosos, além de depararem com situações variadas como a presença constante de pessoas estranhas ao seu convívio habitual, como profissionais de saúde de diversas áreas, outros pacientes internados e seus acompanhantes. Nesse cenário, a aplicação da ludoterapia no meio hospitalar transforma-se em um método benéfico no processo de adaptação da criança. Trata-se de pesquisa qualitativa, descritiva, que buscou analisar o uso do brincar na assistência à criança hospitalizada na perspectiva dos pais. O estudo foi realizado na Pediatria de um Hospital Municipal de Belo Horizonte-MG. Foram entrevistados 13 pais por meio de roteiro semiestruturado e realizada a análise de conteúdo, segundo Bardin, para interpretação dos dados. Os achados evidenciaram que o brincar é instrumento de grande valor para minimizar o estresse da internação e contribuir para melhor adaptação da criança ao ambiente hospitalar. Ademais, o mesmo traz benefícios referentes à promoção do bem-estar, diversão, redução da dor e socialização durante a hospitalização. Concluiu-se, dessa maneira, que a utilização do brincar pode ser muito benéfica na rotina da Pediatria, favorecendo um cuidado mais humanizado e integral, além da possibilidade de diminuir os prejuízos no desenvolvimento da criança, causados pela experiência da hospitalização.

Palavras-chave: Jogos e Brinquedos; Criança Hospitalizada; Enfermagem Pediátrica; Ludoterapia.

 

INTRODUÇÃO

A hospitalização é uma experiência estressante para a criança, pois envolve profundas adaptações às mudanças que ocorrem no seu cotidiano. Sabe-se que essa situação traz transtornos que, na infância, tornam-se mais evidentes nas manifestações de insatisfação momentânea ou prejuízos, podendo permanecer mesmo após a alta hospitalar. A maioria das crianças tem pensamento fantasioso e egocêntrico e, em decorrência disso, algumas delas apresentam dificuldades na compreensão dos fatos e situações vivenciadas, passando a crer que a doença e/ou hospitalização é uma punição por mau comportamento ou algum erro.1

As crianças submetidas a uma rotina hospitalar vivenciam diversas condutas terapêuticas que incluem procedimentos dolorosos, ingestão de medicamentos com sabores desagradáveis, além de se depararem com situações variadas como a presença constante de pessoas estranhas ao seu convívio habitual como profissionais de saúde de diversas áreas, outros pacientes internados e seus acompanhantes. Além disso, existem outros pontos que compõem a dinâmica hospitalar, como o cumprimento de normas e rotinas rigorosamente estipuladas e a adaptação a uma alimentação não habitual, que podem agravar seu estado clínico, sua condição psicológica - incluindo o estresse - e social dificultando, dessa forma, sua adaptação durante esse momento em que sua saúde se encontra debilitada.2,3

Em face da necessidade de reafirmar o papel da criança na sociedade, destaca-se a importância do lúdico para a criança hospitalizada. Assim, em 24 de março de 2005, o Congresso Nacional aprovou a Lei n° 11.104, que tornou realidade a Brinquedoteca Hospitalar, lei na qual se obriga a instalação de brinquedotecas com a presença de um educador em unidades de saúde que atendam crianças em regime de internação.4,5

Nesse cenário, a aplicação da ludoterapia no meio hospitalar transforma-se em um método benéfico no processo de adaptação da criança, diante de transformações que ocorrerão no momento em que ela é submetida à internação. Dessa forma, a ludoterapia ajuda a criança na fase de aceitação do processo de hospitalização, sendo um método pelo qual o brincar é o meio natural e permite que a criança, em especial, estabeleça uma conexão entre a sua realidade e o imaginário, por meio de brinquedos e jogos.6,7

O uso do brincar representa uma possibilidade de desempenhar importante papel entre as crianças hospitalizadas. Estudiosos ressaltam que o brincar é uma necessidade, tanto da criança saudável quanto em processo de adoecimento.8 Por meio dele a criança cria, recria, socializa-se, aprende e se desenvolve, fazendo com que essa necessidade não deixe de existir quando a criança adoece.

A utilização do brincar como forma de explicação para a criança sobre algo que será vivenciado por ela faz com que haja a compreensão de diferentes conceitos, permitindo que a criança desenvolva seu raciocínio lógico a respeito da assistência que recebe. Ao manipular objetos, conversar e contar histórias, a criança utiliza a comunicação verbal e amplia sua linguagem, podendo compreender melhor o mundo à sua volta, reorganizar seus sentimentos e ter a ansiedade diminuída, o que irá facilitar a aceitação de novas situações e a compreensão do que acontece em um hospital, esclarecendo, assim, conceitos equivocados que possam surgir durante sua internação, reduzindo o sofrimento e mais cooperação e adesão ao tratamento.9

Sintetizando, sabe-se que atividades de recreação devem estar presentes em todas as fases do crescimento e desenvolvimento da criança e do adolescente, mesmo durante períodos de hospitalização. Tais atividades favorecem o desenvolvimento motor, sensorial e cognitivo da criança, minimizam o estresse, a ansiedade e o desconforto gerados pela internação, contribuem para a socialização das crianças e dos acompanhantes e melhoram a interação entre as crianças, suas famílias e os profissionais da equipe de saúde. A introdução desse tipo de atividades torna-se, portanto, essencial no contexto hospitalar.

Diante desses apontamentos, o interesse pelo tema firmou-se a partir das necessidades identificadas pela experiência na Pediatria. A vivência no serviço de saúde permitiu acompanhar o grande número de internações prolongadas nas unidades pediátricas, condições estressoras para a criança e família, além de crianças em condições crônicas.

Nesse cenário percebeu-se que o cuidado voltado para crianças tem mantido sua centralidade nas necessidades biológicas, desconsiderando-se as dimensões psicológica, social e emocional do indivíduo em crescimento e desenvolvimento. Adicionalmente, a participação dos familiares e/ou acompanhantes no processo de cuidado ainda é pouco valorizada.

Como recurso facilitador da hospitalização pediátrica, tem-se o brincar. Nesse contexto, o projeto "A enfermagem no cuidado à criança e ao adolescente: construção da sistematização do cuidado orientada pela integralidade" articula parceria entre a Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG) e um hospital municipal de Belo Horizonte. Esse projeto busca desenvolver atividades sistematizadas junto a crianças, familiares e profissionais da unidade de internação pediátrica, com o objetivo de construir um cuidado que favoreça o enfrentamento do processo de adoecimento e hospitalização vivenciado por crianças/adolescentes, familiares e, ainda, de estimular o empoderamento destes para o cuidado.

As atividades são desenvolvidas por acadêmicos de enfermagem e planejadas mensalmente, em concordância entre docentes, discentes e profissionais da equipe multidisciplinar da unidade de internação pediátrica do hospital onde são realizadas as atividades. As atividades de recreação e estímulo, tanto individuais quanto em grupo, são desenvolvidas pelos discentes, sob a supervisão dos docentes e da equipe multidisciplinar do hospital, perfazendo um total de 24 horas semanais.

Quanto à inserção da equipe multiprofissional, destaca-se que a partir da interação e observação dos discentes com as crianças, adolescentes e seus familiares, é possível a discussão acerca do cuidado a ser realizado, possibilitando a modificação de práticas e a sua continuidade.

Levando em consideração a experiência desse projeto utilizando o brincar na internação hospitalar de crianças, surgiram alguns questionamentos: qual é a percepção dos pais/acompanhantes acerca da utilização do brincar na hospitalização de crianças?

Como eles veem as implicações desse método no cotidiano da criança hospitalizada?

Assim, busca-se por meio deste estudo analisar o uso do brincar na assistência à criança hospitalizada na perspectiva dos pais.

Este estudo poderá contribuir para melhor compreensão acerca da influência do projeto do brincar na Pediatria, na perspectiva de pais e acompanhantes. Ademais, será uma oportunidade de aprimorar as atividades realizadas e contribuir para uma assistência mais humanizada, menos traumática e mais integral. Ressalta-se escassez de pesquisas produzidas na área da enfermagem que abordem essa temática.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo descritivo de abordagem qualitativa em que se buscam investigações que se baseiam na descrição e interpretação de fenômenos, a partir de significados explícitos, objetivos e difundidos pelo número de ocorrências.10 O estudo foi desenvolvido na Unidade Pediátrica de um hospital municipal de grande porte de Belo Horizonte. Este se constitui em referência para as urgências clínicas e cirúrgicas no estado de Minas Gerais.

A pesquisa foi realizada com 13 pais/acompanhantes de crianças hospitalizadas na respectiva unidade e que vivenciaram na companhia dos seus filhos três ou mais oficinas em que o brincar foi utilizado como método para auxiliar no processo de aceitação da hospitalização. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, no período de abril a maio de 2015. Foi usado critério de saturação para definir a amostra, o que significa a suspensão de inclusão de novos participantes, quando os dados apresentam redundância ou repetição.11,12 Ressalta-se que não houve recusa dos pais a participar da pesquisa ou a solicitação de interrupção da participação.

Os sujeitos participaram da pesquisa de forma voluntária, foram orientados em relação à possibilidade de desistência a qualquer momento, sem qualquer ônus para si ou para a instituição de trabalho, e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

A entrevista foi baseada em um roteiro semiestruturado com perguntas que se referiam à percepção dos pais/acompanhantes durante a vivência nas atividades do brincar e a possíveis implicações do brinquedo para crianças hospitalizadas.

As entrevistas foram gravadas mediante autorização prévia e foram transcritas na íntegra, a fim de serem analisadas. Para manter o anonimato, os fragmentos das falas de cada entrevistado apareceram codificados pela letra A seguida de um algarismo numérico para representar a ordem de participação, de 1 a 13, por exemplo, A1 (Acompanhante 1).

Os preceitos bioéticos descritos na Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde foram respeitados. A pesquisa foi submetida à avaliação do Comitê de Ética e Pesquisa do hospital e autorizada sob Parecer 1.106.019.

A análise dos dados foi fundamentada na análise de conteúdo, que consta de três fases distintas: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados.11,12 A pré-análise remete à ordenação dos dados, após transcrição na íntegra das entrevistas e organização do material para determinar as unidades de registros e a forma de categorização. A segunda etapa consiste na exploração do material para o procedimento de codificação, classificação e agregação dos achados. Por último, a terceira etapa foi o tratamento dos resultados de acordo com o referencial teórico encontrado. Os dados foram analisados e organizados em categorias temáticas de acordo com a proposta de interpretação qualitativa de dados e com o referencial teórico encontrado.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Caracterização dos pais

Os entrevistados eram todos do sexo feminino, estando a média de idade entre 20 e 25 anos. Das crianças que participaram das oficinas, 38,5% encontravam-se em tratamento clínico e 68,5% em tratamento cirúrgico. A idade das crianças variou de um a 10 anos. O tempo médio de hospitalização das crianças foi de 15 dias.

O processo de análise permitiu organizar os dados em unidades de significado que serão apresentadas a seguir:

A percepção do brincar no ambiente hospitalar na perspectiva dos pais

Ao serem questionados a respeito da percepção sobre o uso do brincar na Pediatria, os pais consideram o instrumento de grande valor para minimizar o estresse da internação e contribuir para melhor adaptação da criança no ambiente hospitalar.

"Eu acho que a utilização é importante para a criança esquecer um pouco desse ambiente, né? De hospital, de doença... eu acho que contribui até pra melhora dela"(A3).

Dessa forma, os relatos dos sujeitos da pesquisa confirmam os benefícios da utilização do brincar na hospitalização. Os participantes referiram que a utilização desse método auxilia na minimização das tensões geradas pela hospitalização, promovendo alívio e os impactos negativos da experiência.

"Eu acho muito, muito bom para as crianças. É assim, incentiva mais, passa mais o tempo porque é tenso para eles ficar aqui com medicamento e essas coisas, né? É assim, tão bom para eles" (A5).

Dessa forma, estudos demonstram que o brincar possibilita a redução da ansiedade, estresse e angústias infantis causadas por experiências atípicas, como a hospitalização. Ademais, auxilia a criança hospitalizada a compreender melhor o momento específico que ela vive e promover a continuidade do seu desenvolvimento.1 O brincar também pode ser considerado a atividade mais importante da vida de uma criança, pois é por meio deste que se comunica com o meio onde vive e expressa sentimentos das mais variadas ordens, bem como suas críticas quanto ao meio e à família, promovendo, assim, o desenvolvimento harmonioso de sua personalidade. Há influência positiva deste no restabelecimento físico e emocional da criança, o que acelera sua recuperação.9

Sabe-se que o próprio processo de hospitalização, atrelado às mudanças na rotina da criança, pode ser um momento de estresse, evidenciado por medo, irritabilidade, ansiedade, isolamento social, tempo ocioso, entre outros.13 Os estudos mostram que o brincar no ambiente hospitalar auxilia no diagnóstico, estimula a recuperação, transforma o ambiente e favorece o cuidar da criança numa atmosfera de amparo e reconhecimento de suas necessidades, podendo aliar o cuidado a uma brincadeira.9,13

Por meio do brincar, a criança distrai, expressa sentimentos e esquece a realidade na qual está inserida. Conforme relatos a seguir:

"Porque a criança já está aqui com medo, já está com aquela ansiedade... então os brinquedos... brincando com as crianças eles distraem demais da conta e o trabalho delas aqui... na parte da tarde você nem vê as crianças, elas ficam todos na brinquedoteca" (A2).

"Teve uma contação de estória, meu filho ficou supercontente, sabe? Esquece que está com soro, esquece que está internado. Então, eu acho muito bacana" (A3).

Observou-se que as mães se sentem mais calmas ao perceberem a utilização do brincar com seus filhos, os quais expressam sinais de distração, alegria e superação quanto à hospitalização, pois enquanto as crianças brincam, elas se distraem e parecem se esquecer do ambiente em que estão. A atividade lúdica no ambiente hospitalar pode proporcionar a sua transformação, visto muitas vezes como um ambiente de dor, punição e sofrimento, em um lugar mais prazeroso no qual a criança consiga se adaptar mais facilmente.1

Neste estudo, a oportunidade do brincar favorece a socialização das crianças diminuindo o risco do isolamento social. Outras pesquisas encontram resultados semelhantes ao atual, mostrando que o brincar proporciona a criação de um meio mais humanizado, distanciando-se do estereótipo de medo e de ansiedade presentes frequentemente na criança hospitalizada onde esse pequeno ser é submetido a procedimentos considerados dolorosos e angustiantes.9

O brincar e a diminuição da dor

Os pais reconhecem que as ações do brincar são eficazes na distração da dor, na redução de sentimentos negativos e das queixas, fazendo com que, muitas vezes, a criança não sofra demasiadamente devido a esse sintoma. É o que evidenciamos nos seguintes trechos das entrevistas:

"Às vezes os meninos estão sentindo dor, sabe? Aí, elas chegam lá, brincam com eles, conversam com eles... começam a brincar com ela, diverte com ela e de repente ela esquece da dor, entendeu?" (A4).

"Como ela ficava muito quietinha, sentindo muita dor, quando ia brincar, ela ficava mais alegrinha, pelo menos esquecia um pouco" (A5).

"Porque ela ficava dormindo pra esquecer as dores, aí como aqui tem atividades, ela distraiu. Ela preferiu vir e ficar brincando com as crianças, aí distrai, esquece, né, a dor!" (A8).

A hospitalização representa para a criança uma situação diferente de todas as já vivenciadas. Encontra-se em um ambiente impessoal, diferente do seu contexto diário, distante de seus familiares e amigos e está cercada de pessoas estranhas que a todo o momento a tocam e realizam procedimentos que, não raras vezes, lhe causam desconforto e dor.3

A importância do manejo da dor aguda relaciona-se a benefícios proporcionados aos pacientes. Entre esses benefícios encontram-se a mobilização precoce, a diminuição do período de internação e a consequente redução de custos. Por meio do alívio da dor são ofertadas à criança condições para que ela se restabeleça de forma adequada, atendendo aos princípios da humanização e da ética, essenciais no cuidado do enfermeiro.1

Em nossa experiência na Pediatria, o brincar desvia o foco de atenção da criança do procedimento propriamente dito e do ambiente hospitalar, diminuindo a ansiedade, dor e sofrimento diante da situação vivenciada.

O brincar e o estabelecimento de vínculo

Os entrevistados mencionaram de forma positiva as atividades do brincar e a influência desses momentos no que se refere às relações com seus filhos. O estreitamento de vínculo, promovido pelo uso do brinquedo durante a hospitalização, foi evidenciado pelas falas:

"Por questão de tempo, eu não sou muito presente. Então, oportunidade de brincar a gente quase não tem, e aqui foi diferente por isso, né? Participar com ele, poder brincar com ele, questão de proximidade mesmo. Porque, como eu trabalho e estudo, eu acabo vendo ele muito pouco. E fim de semana, geralmente ele está com os avós ou com o pai e a gente quase não brinca. E aqui no hospital com as atividades com os brinquedos, a gente ficou mais próximo, tive a oportunidade de brincar e divertir com ele" (A3).

"Mudou o modo de eu brincar com ele. Brincar com mais frequência! Porque antes eu brincava com pouca frequência, né?" (A9).

Embora algumas famílias mantenham o padrão tradicional, em que a mãe permanece em casa exclusivamente cuidando dos filhos, na sociedade contemporânea têm-se observado mudanças nessa configuração. Há grupos familiares em que pai e mãe dedicam-se ao trabalho, muitas vezes integralmente, sendo essa uma atitude necessária devido às dificuldades cotidianas e obrigações financeiras, requerendo-se o apoio social para o cuidado dos filhos.14 O que se percebe no período de internação, entretanto, é que os acompanhantes participam das atividades lúdicas ofertadas e, além de incentivarem seus filhos a brincar com outras crianças, brincam com eles, estreitam o vínculo e com o auxílio das brincadeiras trocam experiências e enfrentam juntos aquele período estressor.2

Preenchendo as lacunas provocadas pela hospitalização

Foi evidenciada nos relatos dos entrevistados a importância do brincar durante a hospitalização de seus filhos e o reconhecimento de que essa medida preenche as lacunas provocadas pela separação com os familiares e seus pertences, assim como o sofrimento causado por procedimento intrusivo.

"Para ela não ficar pensando assim, que está longe de casa, sem as coisas dela, sabe? Eu acho muito importante para as crianças brincar" (A6).

"[...] porque é muito triste você ficar entre agulhas e agulhas. Aqui eles distraem, os brinquedos são tão bacanas paras crianças... para todas essas crianças aqui" (A8).

Os depoimentos corroboram os estudos que retratam o uso do brinquedo na assistência à criança como um ingrediente indispensável a uma concepção de assistência atraumática. Esse tipo de assistência, também denominado cuidado sem traumas, consiste em uma filosofia que pressupõe o uso de intervenções que eliminem ou minimizem o desconforto físico e psicológico vivenciado pelas crianças e suas famílias.

A assistência atraumática está em conformidade com o que é preconizado pela Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde. Diante disso, o uso do brinquedo está entre as estratégias que tornam possível a criação de um espaço hospitalar mais humanizado, distanciando-se dos estereótipos do medo e da ansiedade, tão presentes no cotidiano das crianças, ao serem submetidas a procedimentos considerados dolorosos e angustiantes. O estudo enfoca, ainda, que o brincar aparece como sinal de recuperação na perspectiva das mães e, dessa forma, ver os filhos divertindo no contexto da hospitalização permite que elas se sintam menos angustiadas e ansiosas.15,16

O brinquedo também surge como uma alternativa ao suprimento das necessidades pré-escolares, independentemente do lugar onde a criança esteja,15 como evidenciado nesta fala:

"[...] porque onde a gente mora ele fica na creche, então ele sente falta. Aqui recompõe pra ele a falta da creche lá!" (A11).

Estudos demonstram que, entre as diversas vantagens apresentadas pelo uso de brincadeiras no hospital, está a capacidade de conduzir as crianças a experiências que as façam sentirem-se vivas, mesmo em situações estressantes. Essa experiência mantém a evolução do seu processo de desenvolvimento.9

O brincar favorece a socialização da criança, ao permitir que ela vivencie papéis sociais e aprenda a se relacionar com os demais; quando lhe possibilita dramatizar papéis e conflitos que está enfrentando, aliviando a tensão emocional.16

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio deste estudo, constatou-se, com base na percepção dos pais, que o brincar é bastante eficaz no tratamento da criança hospitalizada, pois facilita a comunicação, participação e motivação da criança em todo o seu processo de hospitalização, o que o torna o cuidado mais integral e humano.

O uso desse instrumento proporcionou, de acordo com os entrevistados, significativa melhora tanto no aspecto emocional quanto clínico da criança, além de servir para promover uma relação de confiança entre familiares e criança. Como benefícios da utilização dessa ferramenta, pode-se ressaltar a maior aproximação dos pais, melhor compreensão das crianças quanto aos cuidados a serem realizados e diminuição do estresse causado pela hospitalização.

Sendo assim, espera-se que esta investigação incentive a implantação da atividade lúdica para promover um tratamento humanizado e que os profissionais de saúde atuem de forma mais eficaz na redução dos transtornos provocados pela hospitalização na criança, visando sempre ao seu bem-estar.

Por fim, ressalta-se que esta pesquisa foi restrita a uma unidade de internação pediátrica pública, o que limita a generalidade dos resultados obtidos. Portanto, recomenda-se a produção de novas investigações que possam investigar o uso do brincar na assistência à criança hospitalizada na perspectiva dos pais.

 

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