REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 15.1

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Pesquisa

Percepção e perspectivas de gestantes sobre o processo do parto a partir de oficinas educativas

Pregnant women's perception and perspective on the labour process in educational workshops

Maria Rita de C. B. AlmeidaI; Kleyde Ventura de SouzaII; Virgínia Beatriz MacielIII; Juliana Thomé RibeiroIII; Maria Luiza de Medeiros AmaroIII; Mariana Julia Pioli da CostaIII; Sabrina StrapassonIII

IEnfermeira obstetra. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Paraná. Professora Assistente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) da disciplina de Atenção à Saúde da Mulher. E-mail: mariarita.cassia@gmail.com
IIEnfermeira obstetra. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora adjunta do Departamento Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EE/UFMG). E-mail: kleydeventura@uol.com.br
IIIAcadêmica do 8º período do curso de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Curitiba-PR, Brasil

Endereço para correspondência

Maria Rita de C. B. Almeida
Rua Imaculada Conceição, 1155, Prado Velho
CEP 80242-980, Curitiba, Paraná, Brasil
Endereço eletrônico

Data de submissão: 22/12/2009
Data de aprovação: 14/1/2011

Resumo

Estudo qualitativo cujo objetivo foi descrever a percepção e as perspectivas de gestantes sobre o processo de parto. Participaram dez gestantes inscritas na primeira edição de oficinas educativas, inseridas em um programa pioneiro promovido pelo Departamento de Recursos Humanos de uma instituição de ensino superior, situada na capital do Paraná. As oficinas foram realizadas no período de setembro a outubro de 2008 e contaram com a participação de professores e funcionários da instituição, que abordaram temáticas relativas ao ciclo gravídico puerperal. A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas individuais, no local de trabalho das participantes, e gravadas com equipamento digital. Utilizou-se um roteiro semiestruturado para coleta de dados. Após a transcrição, os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo. Foram identificadas duas categorias temáticas: a) a participação em oficinas educativas possibilitou o compartilhar experiências, fortalecendo a vivência da gestação e b) a (re)significação de experiência em oficinas educativas contribuiu para a ampliação de horizontes e o descortinar de perspectivas sobre o processo de parto. Os resultados mostram que a modalidade educativa sob a forma de oficina possibilita o compartilhar de experiências e pode contribuir para o fortalecimento das mulheres nas suas perceptivas e decisões sobre o parto. Além dos resultados alcançados, a iniciativa de formação do programa mereceu destaque. As oficinas deram visibilidade e demonstraram a importância de ampliar, para além das instituições de saúde, a realização de um tipo de modalidade educativa que envolve gestantes em seu próprio ambiente de trabalho.

Palavras-chave: Gestantes; Educação em Saúde; Promoção da Saúde; Parto Normal

 

INTRODUÇÃO

A gravidez é um momento singular na vida das mulheres, permeado por importantes mudanças físicas e emocionais, as quais, por sua vez, estão intrinsecamente relacionadas aos contextos culturais, socioeconômicos, condições de acesso a serviços, qualificação dos profissionais que as assistem, bem como ao modelo assistencial de saúde.1 Por ser um processo multifacetado, a gravidez demanda um aprendizado contínuo, afiançado na promoção da saúde e voltado para as necessidades dessas mulheres.

Nesse sentido, as ações educativas no pré-natal são fundamentais não apenas pela importância de ações voltadas para a preservação da saúde materna e fetal, mas também pela possibilidade da mediação entre a ação cuidativa-educativa e o fazer-pensar das mulheres envolvidas. Dessa forma, as duas partes, os profissionais e as mulheres, se fortalecem, de maneira que as últimas podem vivenciar um processo de gestar e parir seguro e prazeroso.

Desse ponto de vista, as ações que denominamos de cuidativo-educativas devem permear todas as etapas do ciclo gravídico-puerperal. É nesse sentido que os profissionais de saúde passam a ter papel relevante e de grande envolvimento, pois auxiliam e podem contribuir com a mulher na busca de sua autoconfiança nos processos de gestação, parto e puerpério.2

As atividades educativas no pré-natal têm sido descritas em vários estudos como uma ação relevante, particularmente por seus resultados positivos e porque possibilita o chamado suporte social. Outro aspecto favorável é seu caráter informativo e de apoio, características capazes de diminuir o estresse e o medo diante do desconhecido, aqui em nosso caso o parto e a própria maternagem/maternidade.3 No âmbito da saúde, destaque-se que essas ações, desenvolvidas individual ou coletivamente, devem ser priorizadas e também organizadas com vista a incluir companheiros e/ou familiares das gestantes.4

Assim, a formação de grupos de gestantes tem se configurado como um meio de preparar a mulher e seu companheiro no transcorrer do processo gravídico, de modo a desvendar mitos e dúvidas, bem como possibilitar a expressãodeanseios, problemas e necessidades relativas ao momento gestacional.5

Nessa perspectiva, considerando a importância da formação de grupos de gestantes voltados para a educação em saúde, o Departamento de Recursos Humanos (DRH) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e sua mantenedora, a Associação Paranaense de Cultura (APC), criaram o Programa Ser Mãe em 2008. A iniciativa consiste na realização de um conjunto de Oficinas Educativas com temas relativos ao ciclo gravídico-puerperal e cuidados com o recémnascido. O trabalho tem, também, o propósito de acolher as gestantes trabalhadoras da instituição durante sua jornada de trabalho, possibilitando compartilhar de conhecimentos, vivências e experiências num ambiente aconchegante e harmonioso.

Tratou-se de um programa pioneiro na instituição, que contou com a participação de uma equipe de saúde multidisciplinar, formada por professores e profissionais da própria PUCPR na elaboração, organização e desenvolvimento das atividades do programa. Dado seu sucesso, especialmente em relação à repercussão das oficinas entre as participantes, a instituição passou a realizar o programa regularmente.

Enfatize-se, aqui, a importância das atividades educativas por meio do processo grupal. Essas práticas dão lugar a um espaço de oportunidades, no qual as mulheres conseguem compartilhar suas histórias, percepções e experiências vivenciadas. Percebe-se, também, a necessidade que elas têm de ser acolhidas por profissionais sensíveis à importância do diálogo, visando à manutenção, ao bem-estar e à promoção da saúde.6,7

A realização de oficinas educativas com gestantes configura-se como uma estratégia de educação em saúde muito profícua, uma vez que a gravidez é um período bastante mobilizador na maioria da vida das mulheres. Assim, as pesquisadoras sentiram-se motivadas a realizar este estudo, cujo objetivo foi descrever a percepção e as perspectivas de gestantes sobre o processo de parto.

 

MATERIAL E MÉTODO

Este estudo originou-se da primeira edição do Programa Ser Mãe (DRH/PUCPR/APC), que contou com a realização de quatro oficinas para gestantes trabalhadoras da instituição que o promoveu. Em sua concepção, essas oficinas foram tomadas como uma prática de intervenção psicossocial,8 estruturada sob a forma de grupo. Entenda-se este último como um ambiente micro-organizado no espaço de trabalho das gestantes voltado para a promoção da saúde individual e coletiva das participantes, além de dinâmico, pois mediado pelas interações nele originadas.9

Considerando o propósito deste estudo, optou-se pela pesquisa qualitativa, uma vez que nesse tipo de investigação o foco volta-se para os espaços microssociais, grupos e interações pessoais, privilegiando a compreensão ou a interpretação dos significados que as pessoas estudadas atribuem ao sentido de suas experiências.10 Nesse tipo de pesquisa busca-se, igualmente, apreender a realidade, considerando as situações investigadas e a possibilidade de transformação dessas situações.11

Cada uma das oficinas contou com, pelos menos, dois facilitadores, professores (dentre os quais os autores do estudo) e/ou profissionais de saúde da PUCPR, que delinearam, em conjunto, aspectos relativos a temáticas, abordagens pedagógicas e metodológicas. Buscouse instrumentalizar as participantes para as situações próprias do ciclo gravídico-puerperal.

Na Oficina 1, os temas abordados foram: a fisiologia e os aspectos psicoemocionais da gravidez; na Oficina 2, cujo tema central foi o processo de parto e nascimento, foram enfatizadas as evidências científicas que sustentam o resgate do parto como um processo fisiológico e a importância da centralidade da mulher e de sua família nesse processo; na Oficina 3, os temas abrangidos foram o manejo da amamentação e os cuidados no período puerperal; já na Oficina 4, tratou-se da atenção à saúde bucal no ciclo gravídico-puerperal e dos cuidados com o recém-nascido, além de aspectos relativos aos direitos trabalhistas das gestantes.

As oficinas foram realizadas nos meses de setembro a outubro de 2008, nas dependências do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS), da PUCPR, em encontros quinzenais, previamente agendados, no período vespertino, com cerca de quatro horas de duração. As participantes eram liberadas de suas atividades laborais para participar das oficinas sem qualquer prejuízo do ponto de vista trabalhista.

Integraram o estudo 10 das 20 participantes do Programa Ser Mãe que atenderam ao critério de inclusão: participação integral em todas as oficinas e de exclusão: afastamento de suas atividades profissionais durante o período de coleta dos dados. O convite para a participar no estudo foi feito na última oficina, quando as participantes foram informadas sobre os objetivos e procedimentos do estudo.

Após a finalização das oficinas, as participantes identificadas como potenciais sujeitos do estudo, com base nos critérios estabelecidos, receberam convite individual feito por contato telefônico. Após sua concordância, outro convite foi enviado por correio eletrônico. Nessa última correspondência, foram constatadas informações sobre os objetivos, procedimentos de coleta de dados - entrevista individual, com base em um roteiro semiestruturado -, bem como os aspectos éticos que envolvem pesquisas com seres humanos, como prevê a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), explicitados no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), igualmente enviado por e-mail.

Após essa etapa, iniciou-se o agendamento das entrevistas (data, horário e local), via correio eletrônico ou contato telefônico, de acordo com a conveniência das participantes. As entrevistadoras atuaram em dupla, no local previamente agendado ao longo dos 30 dias subsequentes à finalização das oficinas. Algumas entrevistadas preferiram o horário de término de sua jornada de trabalho, mas a maioria elegeu o próprio horário de trabalho. É importante salientar que as chefias das mulheres investigadas estavam cientes não somente a respeito da pesquisa, mas que a entrevista poderia ser realizada no horário de trabalho. Essa condição foi acordada com o DRH/PUCPR/APC, para que não houvesse nenhum tipo de dificuldade ou prejuízo para as participantes.

As entrevistas, cujo tempo de duração variou de 40 a 50 minutos, foram realizadas em sala reservada, procurando-se resguardar o bom desenvolvimento da entrevista, e gravada com auxílio de equipamento digital para assegurar a fidedignidade do relato. Inicialmente, apresentou-se o objetivo com o estudo e discutiu-se o conteúdo do TCLE. Após a leitura e assinatura desse documento em duas vias (uma para a participante e outra para as pesquisadoras), iniciou-se a entrevista, que foi transcrita, na íntegra, pela dupla de entrevistadores. A transcrição foi realizada o mais rápido possível após a coleta dos dados, e os depoimentos, devidamente organizados, deram origem ao corpus do estudo.

O processo de análise e de interpretação do corpus do estudo foi realizado por uma dupla, entre as autoras do estudo, identificadas como as mais experientes para desenvolver esse tipo de atividade. Na fase seguinte, elas apresentaram e discutiram os resultados do processo com as demais autoras. Utilizou-se a análise de conteúdo, na sua modalidade temática. Essa metodologia é definida por Bardin12 como uma ferramenta de estudo e análise de material qualitativo que possibilita buscar a melhor compreensão de uma comunicação ou discurso, extraindo os aspectos mais relevantes.

Neste estudo, respeitaram-se os principais aspectos dessa estratégia metodológica, que consiste na pré-análise, seguida da exploração do material e do tratamento final dos dados e sua interpretação.12 Dessa forma, as informações foram organizadas à luz de critérios de escolha e delimitações orientados pela investigação dos temas relacionados ao objeto do estudo. A organização das informações permitiu a delimitação de duas unidades temáticas, consideradas pelas autoras como as mais relevantes para a consecução dos propósitos do estudo.

O estudo foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas (CEP) da PUCPR, conforme as diretrizes da Resolução nº 196/96 do CNS, sob o Parecer nº 0002257/08. Em conformidade com essas diretrizes, foi solicitada concordância da autoridade institucional para a realização do trabalho. Reiteramos que todas as participantes assinaram o TCLE, elaborado em linguagem acessível. No documento, foram enfatizados a justificativa, os objetivos e os procedimentos do estudo. Da parte das autoras, o texto garantia a prestação de esclarecimentos sobre os procedimentos já referidos, a liberdade da participante de retirar o consentimento a qualquer momento, sem nenhum tipo de penalização, além de sigilo e privacidade.

 

RESULTADOS

A caracterização das mulheres em relação à idade mostrou que elas tinham entre 24 e 39 anos. Quanto aos anos de estudo, oito delas contavam com mais de 12 anos e duas, com até 10 anos de estudo. A renda familiar variou de dois a sete salários mínimos e todas viviam em união estável. Seis delas eram primigestas e quatro vivenciaram a experiência de outra ou mais de uma gravidez no passado. Quanto ao período gestacional, seis delas estavam no primeiro trimentre de gravidez e quatro, no segundo trimestre. Todas relataram que tinham um plano de saúde e que haviam iniciado as consultas de pré-natal. No entanto, nenhuma delas referiu ter sido convidada a particitipar ou ter participado de atividades educativas em grupo. As depoentes ressaltaram, ainda, que as informações relativas ao cuidado com a saúde eram fornecidas no decorrer da consulta pré-natal ou por folhetos informativos recebidos durante a mesma.

Com base no corpus do estudo, as unidades de registro foram agrupadas por semelhança e deram origem a um conjunto de núcleos de sentido que, por sua vez, possibilitaram a delimitação de duas unidades temáticas, elaboradas com o intuito de buscar respostas para apreender os objetivos deste estudo, apresentadas a seguir.

A participação em oficinas educativas possibilitou compartilhar experiências, fortalecendo a vivência da gestação

A atividade educativa sob a forma de oficinas foi apontada como profícua para compartilhar experiências entre as gestantes, uma vez que tiveram a oportunidade de manifestar sua experiência, expressar anseios, temores e dúvidas. Dentre os relatos colhidos, destacamos os seguintes:

É nesse ambiente que as gestantes têm a oportunidade de manifestar e expor suas experiências com as outras mães [...] o pessoal que já conviveu [vivenciou o período gestacional] ou que estava na expectativa de viver [a gestação] pela primeira vez, [...] juntar as duas coisas foi bem interessante. (Gestante 1).

Com certeza foi muito produtivo [...]. Gestante tem muito isso de compartilhar experiências; [...] enriquece bastante. (Gestante 2).

Além disso, compartilhar experiências, vivências e sentimentos entre as mulheres foi compreendido de forma favorável, pois possibilitou ampliarconhecimentos, proporcionando um aprendizado grupal.

Houve muitas trocas no grupo e, para mim, isso facilitou o esclarecimento de algumas dúvidas que eu tinha sobre a gestação. (Gestante 4).

Achei interessante participar das oficinas porque muitas mulheres já haviam tido outras gestações, e a gente que nunca vivenciou a primeira gestação pôde compartilhar com pessoas que já tiveram filhos tirando dúvidas. Elas também nos mostraram quais experiências que elas tiveram. (Gestante 7).

Para mim, foi ótimo, tirei muitas dúvidas e aprendi muitas coisas; acho que só teve a complementar esse momento [período gestacional]. (Gestante 3).

O envolvimento e a interação entre as gestantes, durante o processo grupal, possibilitaram que elas percebessem a semelhançaentresuas vivências, suscitando uma sensação de tranquilidade no processo relativo à experiência de gestar. Nesse sentido, destacam-se os trechos que reforçam esta percepção:

Gera uma tranquilidade saber que o que estava sentindo era o que elas também sentiam, as dúvidas que eu tinha elas também tinham; isso ajudou bastante. (Gestante 3).

Acho que o benefício do grupo é muito bom. Vi que outras pessoas estavam vivendo a mesma coisa que eu. (Gestante 6).

Para mim foi muito bom e ajudou bastante. Passar para outras pessoas, outras mães [conhecimento e experiência] e falar, sabe, aquela dúvida que você tinha quando você tava grávida. Então agora eu descobri que é assim! Achei que foi muito válido; todo mundo tem que participar mesmo. (Gestante 9).

Aqui, entram em cena os aspectos relacionados à segunda unidade temática, que se refere às perspectivas de gestantes sobre seu processo de parir, baseando-se oficinas educativas.

A(res)significação de experiência com base nas oficinas educativas contribuiu para a ampliação de horizontes e o descortinar de perspectivas sobre o processo de parto

As experiências sobre o processo de parto foram marcadas por narrativas que evidenciaram as lembranças, que trouxeram à tona sentimentos como medos e também as adversidades que cercam esse momento, reveladas nos seguintes depoimentos:

O que eu conheço do parto é o que a minha mãe falava [...]. Na época dela muitas coisas eram diferentes, que com o tempo foram se perdendo [...]. O nenê nascia e já ia para o colo da mãe [...]; ela já amamentava o filho assim que nascia [...]. Agora a gente está sendo mais conscientizada dessa necessidade. (Gestante 2)

Você interna, você perde a identidade, você entra lá dentro tiram toda sua roupa, tiram tudo de você, e você vira apenas um número. No pré-parto, a cada hora vinha uma pessoa diferente fazer um toque. A pessoa não se apresentava, chegava, colocava a luva, [...] sabe, como se fosse um animal, digamos assim, que não precisa de atenção nada. Sofri muito. (Gestante 1)

Dá pra ver que foi o medo que me fez sofrer; eu não sabia de nada e eu sofri bastante [parto anterior]. (Gestante 8)

No entanto, as oficinas educativas ofereceram a possibilidade de as mulheres refletirem sobre as experiências anteriores, lançar novos olhares sobre o processo da parturição e a possibilidade de transmudar:

No meu primeiro filho fizeram um monte de coisas erradas comigo [...] e se dessa vez fizerem eu vou falar: 'Não é bem assim, eu não quero assim, quero que seja desse jeito' [...]. Não sei se era porque eu era muito nova, ou por não conhecer essas duas coisas juntas. (Gestante 1).

Tudo isso fizeram comigo e eu não sabia [...]; você tá lá dentro, acha eu está tudo certo. Se é assim que eles estão fazendo, tá correto; e não é bem assim. A gente aprofunda e vê que podia ser de outra forma. [...] podia ter reclamado. (Gestante 2).

As discussões contribuíram para a compreensão mais profunda dos temas relativos ao processo de parto, fortalecendo a autoconfiança, consolidando de forma positiva essa experiência, ajudando, dessa maneira, a superar as experiências adversas.

Eu estava com muito medo, por causa da minha primeira gravidez; eu perdi o medo, eu quero ir para o meu parto tranquila, igual eu estou agora, sem medo.(Gestante 3)

Certamente a oficina me fez pensar de forma diferente sobre o parto normal, com mais segurança e admiração. (Gestante 4)

Eu sempre quis normal, eu espero que seja isso eu já tinha em mente [...]. Eu acho que as oficinas que falaram de parto vieram mesmo a completar. (Gestante 6).

Eu tinha muito medo de parto normal [...], mas agora deu pra perder todo esse medo, porque eles explicam muito [...]. Os encontros ajudaram a perder um pouco o medo do parto normal, porque, como eu sofri na primeira, eu tava disposta a pagar uma cesárea [...]; mas agora eu vou deixar correr tudo normal. (Gestante 8).

Os relatos confirmam que o grupo é um espaço fértil de possibilidades quando o tema é preparar as gestantes para que reflitam sobre o processo de gestar e parir. A integração entre as participantes foi bastante positiva, pois possibilitou que elas compartilhassem suas experiências. No decurso das oficinas, houve reflexão sobre a possibilidade de tornar diferente a vivência da gestação e do parto, abrindo espaço para nova realidade. Reconhecidamente, é na ação recíproca do encontro, oportunizado pelas oficinas educativas que as mulheres se fortalecem, acreditam em si mesmas e se entregam confiantes ao processo de gestar e parir.

 

DISCUSSÃO

Os anseios provenientes da vivência da mulher durante a gestação podem levar a sentimentos como medo, preocupação e incerteza, além de influenciar a maneira de perceber as manifestações e as alterações que ela vivencia nesse momento.13 Essas impressões estão relacionadas às grandes mudanças que ocorrem no período gestacional. A experiência única de "ser mãe" faz da gestante um ser frágil e vulnerável à nova realidade. Nesse momento, ela precisa iniciar um processo de adaptação e reposicionamento de seu papel. Isso exige da mulher a capacidade de dar sentido a essa vivência.

A experiência advinda do processo de gestar e parir é de grande magnitude na vida das mulheres. Sua importância é tamanha que as expectativas transcendem o processo de gestação, continuam sendo referidas após o parto e são lembradas durante toda a sua vida. No entanto, esse processo encontra-se tão enfraquecido pela força dos contextos sociais, culturais e do modelo tecnocrático vigente na maioria dos serviços de saúde que as lembranças dele originadas são diametralmente opostas às suas expectativas.

Nesse contexto, a atividade em grupo com gestantes vem a ser uma ferramenta importante no processo de compreensão das modificações e adaptações do período gestacional, bem como na apropriação dessa experiência como algo singular e que, por isso, demandam cuidados individualizados. No tocante às práticas educativas, as necessidades e expectativas, também, devem ser consideradas, de forma que as participantes possam ter acesso a informações e orientações que subsidiem suas escolhas e tomadas de decisão em relação à sua saúde e ao bem-estar.

Na atividade grupal em saúde, o indivíduo tem a chance de compreender que outras pessoas podem vivenciar o processo saúde-doença com revelações clínicas semelhantes. Essa interação amplia o nível de conhecimento do indivíduo, uma vez que permite o compartilhamento de experiências e a ampliação e fortalecimento de saberes.14 Assim, a ação educativa consiste em um instrumento eficaz, capaz de facilitar e permitir que a gestante, ao entrar em contato com outras pessoas do grupo, construa seu próprio conhecimento e transforme o seu modo de pensar e agir.

As atividades em grupo, a relação com outras gestantes e profissionais qualificados são estratégias eficazes na ação educativa. Essas práticas permitem, também, o desenvolvimento das potencialidades, a transformação e o fortalecimento das futuras mães para as decisões ligadas ao parto.

Ressalte-se a importância do trabalho dos profissionais comprometidos com a promoção da saúde da gestante. Eles propiciam, em sua prática, não somente espaços de discussões que envolvem vários componentes afetivos,15 mas cumprem, também, a tarefa de aliar oconhecimento popular ao o saber cientifico.8

Esse suporte gera um clima de sensibilização quanto os aspectos relativos às mudanças do período gestacional. Propicia, ainda, um ambiente que facilita a vivência positiva do ciclo gravídico-puerperal.15 Tudo isso, aliado a um processo elaborativo de autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal.

Além disso, o grupo educativo possibilita ampliar perspectivas não somente concernentes às mudanças e adaptações do processo gestacional, mas a uma possível transformação da realidade.8 Essa transformação pode acontecer à medida que o grupo educativo evolui e suas integrantes se reconhecem como indivíduos críticos e reflexivos. Assim, conseguem desenvolver uma autocrítica da sua própria ação e se apresentam como pessoas capazes e conhecedoras dos seus direitos, retomando sua autonomia diante do parto.

A partir daí, têm maior compreensão de si mesmas, passando a viabilizar mudanças que promovam o agir ativamente no parto e o exercício do papel de protagonistas.Conquistam,dessaforma,umaparticipação mais segura e respeitosa, de acordo com a própria expectativa,16,17 e consequente empoderamento.18

Destaque-se, portanto, a importância da vivência da mulher nas oficinas educativas, com vista à sua retomada como sujeito do cenário do parto. Uma atitude acolhedora e atenciosa, o compartilhamento de saberes, a informação, a orientação e o reforço dos seus direitos permitem à mulher maior clareza, segurança e tranquilidade. Tais situações propiciam, por meio do diálogo e do encontro, a (re)construção de conhecimentos e a (re)valorização de suas experiências, possibilitando a transformação e a abertura de novos horizontes. A saudável consequência desse processo é o resgate da mulher como agente do próprio parto.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com o propósito de conhecer a percepção das gestantes sobre oficinas educativas e descrever suas perspectivas sobre o processo de parto, confirma-se, ao longo deste estudo, que esse processo coloca a mulher em uma situação de fragilidade emocional.

Mostrou-se, neste estudo, que compartilhar experiências nos grupos de gestantes é, para as mulheres, um pontochave do processo educativo, possibilitando não somente a apreensão de conhecimentos, mas a elaboração dos sentimentos e expectativas em relação ao processo por elas vivido, que se estende ao parto. Identificou-se, ainda, que as oficinas produziram mudanças quanto à possibilidade de transformação pessoal das participantes, no sentido do desenvolvimento de potencialidades e do fortalecimento das decisões relacionadas ao parto, podendo implicar o reposicionamento dessas mulheres em relação ao processo de gestar e parir.

Assim, confirma-se a importância da valorização das subjetividades e das experiências no desenvolvimento de modalidades educativas com gestantes, apesar das limitações identificadas no estudo, como ter sido aplicado apenas em uma das edições do programa e a participação das investigadoras no desenvolvimento das oficinas.

Ressalte-se, igualmente, a relevância desse tipo de atividade no ambiente de trabalho das pesquisadas, no qual tiveram flexibilidade de horário em suas atividades laborais, facilitando a participação nos grupos. Portanto, enfatize-se que a educação em saúde, um dos pilares da promoção da saúde, pode ser realizada em espaços diversos dos tradicionalmente constituídos, como os serviços de saúde.

Espera-se que os dados produzidos neste estudo motivem o aperfeiçoamento desta proposta, por meio de outras pesquisas, e que contribuam para a (re) criação de espaços e práticas educativas. Enseja-se, igualmente, que sensibilize gestores e profissionais de outras instituições de ensino do campo da saúde para a importância desse tipo de atividade educativa, de forma a contemplar além das mulheres gestantes, seus companheiros, familiares ou pessoas de sua escolha.

 

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