REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 20:e939 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20160009

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Revisão Sistemática

Satisfação e sofrimento no trabalho do enfermeiro docente: uma revisão integrativa

Satisfaction and suffering in the work of the nursing teacher: an integrative review

Carla Godinho Duarte1; Valéria Lerch Lunardi2; Edison Luiz Devos Barlem 3

1. Enfermeira. Mestranda. Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - IFRS, Curso Técnico em Enfermagem. Rio Grande, RS - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Permanente Voluntária da FURG, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Rio Grande, RS - Brasil
3. Enfermeiro. Doutor em Enfermagem. Professor Adjunto da FURG, Escola de Enfermagem. Rio Grande, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Carla Godinho Duarte
E-mail: carla-g-duarte@hotmail.com

Submetido em: 19/06/2015
Aprovado em: 11/11/2015

Resumo

A educação é um dos principais papéis que o enfermeiro assume em sua prática profissional. A prática docente tem sido permeada por muitos fatores, os quais têm repercutido em satisfação e sofrimento na atividade docente. O estudo teve como objetivo conhecer a produção científica sobre as facilidades e dificuldades na prática de enfermeiros docentes no ensino da Enfermagem. Realizou-se revisão integrativa considerando os artigos publicados na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS e SciELO, a partir dos descritores enfermagem, ensino e docentes de enfermagem, totalizando 19 artigos analisados. Após análise textual discursiva, emergiram duas categorias: satisfação no trabalho docente relacionada ao compromisso com o aprendizado do aluno, o reconhecimento da capacidade didático-pedagógica e a relação professor-aluno permeada pelo diálogo e escuta; e sofrimento no trabalho docente, relacionado à reduzida valorização e reconhecimento do fazer, comportamentos inadequados dos alunos e inadequações por parte das políticas institucionais e organizacionais das fontes empregadoras. Assim, faz-se necessário repensar a prática docente, implementando-se estratégias, instrumentalizando-se e articulando-se com os pares para que, cada vez mais, seja possível evidenciar a responsabilidade e o compromisso do docente na formação de recursos humanos, na tentativa de superar dificuldades existentes em ambientes em que há desrespeito e desvalorização do trabalho docente e de suas responsabilidades.

Palavras-chave: Satisfação no Emprego; Docentes de Enfermagem; Ensino; Educação em Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

A enfermagem é uma profissão que visa assistir, cuidar, pesquisar e educar. Pode-se considerar que educar é um dos principais papéis que o enfermeiro assume em sua prática profissional, não somente enfocando a educação em saúde, mas também a formação de novos profissionais que, além de aspectos técnicos e científicos, precisam compreender a dimensão do seu fazer, o compromisso e a responsabilidade que assumem ao cuidar de outras vidas.

As relações que se estabelecem de forma horizontal, baseadas no diálogo, no respeito à individualidade, na compreensão do papel de cada envolvido no processo de ensinar e aprender, podem fortalecer a consciência e o compromisso que se assume diante dos diversos contextos sociais em que se está inserido.

Nesse sentido, ensinar não é transferir conhecimentos e conteúdos, mas sim criar as possibilidades para sua produção ou construção, considerando a historicidade de cada indivíduo envolvido nesse processo.1

Quando as relações entre educador e educando se desenvolvem dessa forma, eles podem tomar consciência de sua incompletude, ou seja, se perceberem como seres inacabados, em constante busca pelo saber, pelo novo; desse modo, precisam ser despertados, no exercício de sua curiosidade e da capacidade crítica, capaz de movê-los no mundo, intervindo em seus espaços.1

Nessa perspectiva, o trabalho do professor precisa se desenvolver em espaços nos quais ocorra a construção do conhecimento conjunta com o estudante para que este tenha a formação que se espera, que envolve uma visão crítica sobre a realidade, com vistas à prática profissional socialmente comprometida, ética e competente.2 Destaca-se a crença na proposta de uma educação baseada no diálogo, na reflexão, no desenvolvimento conjunto do conhecimento, em que todos os atores envolvidos nesse processo têm o real compromisso com o saber e com a formação de futuros profissionais. O exercício da docência requer compromisso social e moral com a educação, uma vez que as atividades são desenvolvidas em cursos de formação profissional, ou seja, a formação de um profissional que desenvolverá suas ações, cuidando de outros seres humanos.

Nesse contexto, reflexões sobre os aspectos positivos do ser docente reforçam o prazer que o processo de ensino-aprendizagem traz, especialmente quando ocorre em espaços que permitem o reconhecimento e a valorização do saber e do trabalho docente, favorecendo práticas de cuidado de si, já que a essência da assistência de enfermagem é o cuidado, seja em práticas assistenciais, seja na prática docente.3

Ainda, no trabalho docente, assistir o outro implica, igualmente, assistir/cuidar do discente a fim de que ele apreenda o cuidado a outro ser humano. Todo esse processo de aprendizado precisa acontecer em espaços de transformação social visando à construção de sujeitos éticos e sujeitos do cuidado.4

O enfermeiro docente compromissado com a construção do conhecimento, com vistas à formação de recursos humanos que desenvolverão a prática do cuidado, se percebe, muitas vezes, imerso em um contexto de trabalho com muitas exigências e responsabilidades. Frequentemente se vê, também, pouco instrumentalizado e sem o apoio necessário para implementar estratégias a fim de superar tais situações.

O trabalho do enfermeiro docente na formação de profissionais que desenvolverão a prática do cuidar de outros seres humanos está envolto por situações que podem influenciar e afetar diretamente seu trabalho, configurando-se como fatores impeditivos do cuidado de si pelo docente ou como fatores geradores de sofrimento no processo de trabalho do enfermeiro docente. Desta forma, constatam-se dificuldades referentes à educação básica do estudante, que repercutem no desenvolvimento das demais competências necessárias à sua formação, associadas à falta de tempo, comprometimento e desinteresse do estudante. Essas dificuldades são agravadas por comportamentos e condutas inadequadas que não condizem com os preceitos da profissão buscada, ambientes de ensino que não favorecem o aprimoramento do docente, com cargas horárias elevadas, remuneração insuficiente, desvalorização e não reconhecimento da ação docente.2,3,5-7

A possibilidade de conhecer o que vem sendo produzido sobre o trabalho do enfermeiro docente, enfocando, especificamente, as facilidades e dificuldades vivenciadas em sua prática, pode fortalecer docentes para o enfrentamento das situações desfavoráveis ao trabalho, o que justifica a relevância desta pesquisa, ressaltando-se, também, sua contribuição à produção do conhecimento.

Assim, diante do exposto, este estudo teve como objetivo conhecer a produção científica sobre as facilidades e dificuldades na prática de enfermeiros docentes no ensino da enfermagem.

 

METODOLOGIA

Realizou-se revisão integrativa de literatura8 de modo a reunir e sintetizar, de forma sistemática e ordenada, resultados de múltiplos estudos publicados sobre o tema referente às facilidades e dificuldades no trabalho do enfermeiro docente, contribuindo no seu aprofundamento.

A partir das orientações de como implementar uma revisão integrativa de literatura8, na primeira etapa estabeleceram-se o tema e a questão de pesquisa: qual o conhecimento produzido acerca das facilidades e dificuldades no trabalho docente de enfermagem nos últimos 10 anos?

Na segunda etapa, realizou-se o levantamento bibliográfico a partir das bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), utilizando os descritores: enfermagem, ensino e docentes de enfermagem. Ainda nesta fase foram definidos os seguintes critérios de inclusão para seleção dos artigos: estarem indexados nas bases de dados já citadas, com os referidos descritores, redigidos em português, inglês e espanhol, publicados no período de 2005 a 2015, com resumo para sua primeira análise e com acesso ao texto completo, nas próprias bases de dados. Foram excluídos os artigos que não atendiam ao objetivo da pesquisa, teses, dissertações, publicações na forma de cartas, resenhas, comentários, resumos em anais, livros, capítulos de livros e boletins informativos. Na busca às bases de dados, de acordo com os critérios estabelecidos, chegou-se ao total de 218 artigos, porém 46 não estavam disponíveis e 14 deles se repetiram nas bases.

Na terceira etapa, os 158 textos foram avaliados quanto à qualidade dos dados e à sua relação com o problema de pesquisa. Obteve-se, ao final desta fase, o total de 19 artigos para análise.

Na quarta e quinta etapas, ou seja, de análise e interpretação dos dados, os artigos foram lidos exaustivamente e analisados na íntegra, mediante análise textual discursiva,9 de maneira a responder à questão de pesquisa e ao objetivo do estudo. Os dados foram aproximados, conforme identificação de suas semelhanças e diferenças, construindo-se duas categorias temáticas: satisfação no trabalho docente e sofrimento no trabalho docente.

Os 19 artigos selecionados para análise são apresentados na Tabela 1.

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Satisfação no trabalho docente

A satisfação no trabalho docente está relacionada ao seu compromisso com o aprendizado do estudante, à valorização e reconhecimento de sua capacidade didático-pedagógica e, ainda, a uma relação professor-estudante permeada pelo diálogo e escuta, aspectos que parecem contribuir positivamente em seu fazer.

Compromisso com a formação

A satisfação do trabalho docente é evidenciada pelos professores mediante seu compromisso e responsabilidade pelo aprendizado do estudante e pela construção do conhecimento, diante da possibilidade de participar ativamente nesse processo, com vistas à formação de um profissional comprometido com as práticas do cuidado, em todas as suas instâncias.10 O prazer de aprender do professor associado à responsabilidade assumida na docência revela o compromisso e a seriedade com sua tarefa profissional docente.11

Assim, o compromisso da docente com sua prática educativa pode ser evidenciado no triângulo compreendido nessa ação, formado pelo docente, estudante e paciente, em que sua atuação prática não é a realização apenas de um ato, mas reveste-se de um caráter cuidador e do intuito de estimular no estudante a consciência da relevância e da repercussão da sua ação.12

No processo de construção do conhecimento, faz-se necessário o reconhecimento do outro como ser humano visando ao cuidado integral e humanizado. Neste sentido, existe a preocupação do docente com o estudante quando este adentra em um campo prático, tendo clareza dos objetivos a serem alcançados com a atividade proposta, com enfoque no conhecimento e na realização das técnicas, mas, indiscutivelmente, tendo preocupação em contribuir com a formação de um profissional capaz de, realmente, cuidar do outro de forma integral, garantindo-lhe um cuidado humanizado, respeitoso e empático.13,14

O estudante é estimulado a incorporar o valor ético em seu processo de formação; agindo assim, ele passa a valorizar o outro como ser humano, com especificidades e individualidades, respeitando a dor, o sofrimento, a alegria, diante da assistência prestada ao cliente.15

Nessa perspectiva, a prática educativa comprometida com o ensino e com o cuidado se desenvolve por meio de uma educação baseada na sensibilidade, que possibilita a ação reflexiva e crítica sobre a realidade, com vistas à transformação social.4 Desta forma, a ação docente comprometida com a formação do educando, que desenvolverá o cuidado em suas práticas, perpassa o ensino das técnicas e do saber científico, procurando estimular, no estudante, um pensamento crítico e reflexivo, comprometido com o cuidado, respeitando valores éticos e morais e, especialmente, que desenvolva a sensibilidade no ato do cuidado, reconhecendo e respeitando o outro em sua subjetividade.

Valorização do trabalho docente

Sentir-se valorizado e reconhecido por sua capacidade didático-pedagógica, criatividade e envolvimento no processo de ensino-aprendizagem também se constitui em fonte de satisfação no trabalho.10

A motivação na docência pode contribuir para a mudança e o desenvolvimento da profissão. Essa motivação pode ser assumida pelo docente por saber que representa, em muitos espaços, um modelo profissional com influência significativa sobre o estudante,16 uma referência, um modelo; assim, seu pensar e agir precisam ser condizentes.17

Um compromisso ainda maior funda-se nessa prática em que não basta formar profissionais, ensinando os desafios da profissão, mas sim a formação de profissionais comprometidos com o fazer, com a reflexão, com o outro, sem perderem o entusiasmo para o cuidado.18

Nessa perspectiva, os docentes evidenciam a necessidade de se comprometerem com as questões pedagógicas a fim de que ocorra uma transformação na formação de profissionais de enfermagem; por isso, a manifestação da necessidade de uma formação específica para a docência, mobilizando o profissional a sair de uma zona de conforto do conhecido para trilhar novos caminhos, de modo a desenvolver uma prática docente efetiva e transformadora, envolvendo todos os responsáveis pela mudança: professores, alunos e instituição.19,20

A valorização é o sentimento de que o trabalho tem sentido e valor por si mesmo, é importante e significativo para a organização e a sociedade. O reconhecimento é o sentimento de ser aceito e admirado no trabalho e ter liberdade para expressar sua individualidade.21:40 O reconhecimento e a valorização da ação docente, bem como de seu desempenho, podem funcionar como incentivo em sua prática profissional e, possivelmente, contribuírem para que sua ação seja desenvolvida com mais dedicação e entusiasmo, repercutindo na formação do estudante.

Relação professor-estudante

A construção das relações em cenários cujos atores desenvolvem a capacidade de diálogo e escuta, como o contato, a interação, as trocas e a convivência com os jovens, configura-se como fontes de satisfação na prática docente.16,22 O sentimento de satisfação emerge do relacionamento do enfermeiro docente com o estudante, que se desenvolve em espaço de interações e de convivência e não de dominação, intervenção e transmissão de conhecimentos de forma verticalizada.14

O diálogo e o compartilhamento de experiências emergem nos discursos como aspectos que integram e favorecem o trabalho docente, tanto nas relações professor-aluno quanto nas relações enfermeiro-docente e enfermeiro-clínico. A criação de espaços de expressão permeados pelo diálogo e pela escuta, sem depreciação do que é dito, parece contribuir para que o aluno repense suas inseguranças e incertezas, favorecendo assim o processo de ensino e aprendizagem.23

Em um estudo, seis docentes de duas instituições de ensino que acompanham atividades práticas de enfermagem em unidades de tratamento intensivo (UTI) de adultos denotaram que se consideram facilitadores do processo de ensino e aprendizagem. As especificidades das práticas e do ambiente da UTI caracterizam-se por favorecerem uma aproximação, com contato constante entre o docente e o estudante, para o desenvolvimento das habilidades necessárias ao cuidado a esses pacientes. Enfatizam, ainda, que suas atividades de estágio na terapia intensiva podem ser vistas sob dois ângulos como uma tarefa difícil, mas, ao mesmo tempo, como um estímulo, configurando-se em um ambiente em que o medo e a insegurança do aluno podem dar espaço para a motivação, despertando nele o desejo de aprender. Ressaltam também que essa forma de existência compartilhada traz, para o processo de ensino-aprendizagem, a satisfação e o estímulo de ensinar e aprender a assistência ao paciente crítico.13

A satisfação no trabalho docente pode ser percebida em ambientes em que a interação entre os profissionais ocorre de forma a respeitar e valorizar as ações dos envolvidos nesse contexto. A relação entre o enfermeiro clínico e o enfermeiro docente deve ser construída com base no reconhecimento e respeito aos seus espaços de trabalho, com vistas a aceitar as diferenças, compartilhar experiências, mantendo assim uma comunicação efetiva.14

As relações que se estabelecem de forma horizontal, baseadas no diálogo, no respeito à individualidade, na compreensão do papel de cada envolvido no processo de ensinar e aprender, podem fortalecer a consciência e o compromisso que se assume diante dos diversos contextos sociais em que se está inserido.

Sofrimento no trabalho docente

As dificuldades vivenciadas no trabalho docente estão relacionadas à reduzida valorização e reconhecimento de seu fazer, abrangendo diferentes aspectos associados, como o elevado número de alunos por campo e docente; relações com a instituição empregadora, com a disponibilidade de uma estrutura física inadequada e com recursos escassos, pressão organizacional, no tocante ao vínculo empregatício e remuneração, além de uma frágil formação para a docência e manifestações de desinteresse do estudante.

Reduzida valorização do trabalho docente

Em pesquisa realizada na Escola de Enfermagem da Universidade de Valparaíso, no Chile, foi constatado que cada docente acompanha sete estudantes em atividades práticas, sendo responsável por selecionar os pacientes de acordo com os objetivos do programa, prestar cuidados, distribuir tarefas, supervisionar, orientar e apoiar os estudantes com vistas a uma integração teórico-prática, promovendo sua aproximação com o ambiente profissional. Tais atividades podem gerar, em muitos docentes, ansiedade e insegurança por não conseguirem atender a todas essas demandas e, ainda, pela falta de valorização adequada de todas as implicações do seu trabalho, seja por parte dos alunos, pelos usuários do serviço ou pelos próprios enfermeiros e demais trabalhadores da saúde. Há aparente desconsideração da relevância e seriedade do trabalho dos docentes, enfrentam elevada demanda de exigências para o desempenho de suas atividades.14

Aspectos relacionados à instituição também geram sofrimento no trabalho docente e se mostram em termos de uma estrutura física inadequada para o ensino, recursos materiais indisponíveis, apesar de necessários, com campos de estágio que também não condizem com as condições necessárias à aprendizagem.10,19

Questões relacionadas à pressão organizacional, referentes à instabilidade contratual e às cargas horárias a serem assumidas a cada semestre, além da própria manutenção do vínculo empregatício, têm se configurado como fontes de sofrimento para os docentes.10 A grande rotatividade nas universidades devido a críticas relacionadas ao seu desempenho e didática, bem como aos campos de atividades práticas que nem sempre possibilitam o alcance dos objetivos das disciplinas, é geradora de estresse.24

Em alguns espaços, ainda, a relação entre o enfermeiro clínico e o enfermeiro docente tem se configurado como geradora de ansiedade, havendo inadequado compartilhamento das informações por parte do enfermeiro clínico ao enfermeiro docente. Deste modo, o enfermeiro docente não consegue atuar nos campos de atividades práticas de forma plena e espontânea, pois seu relacionamento interpessoal e a sociabilização com os pares mostram-se comprometidos.10,14

Esses aspectos têm se configurado como fatores geradores de sofrimento no trabalho do enfermeiro docente.3 Nesse contexto, o docente engajado no processo de construção de um profissional ético e comprometido sente-se não apenas desvalorizado quanto ao seu papel como, por vezes, desrespeitado em sua ação docente.

Vivências de desrespeito e desvalorização da ação docente têm contribuído para que os mesmos se sintam desestimulados e desmotivados para buscar mudanças em sua prática, comportamentos que, possivelmente, podem contribuir para o adoecimento da docente, afetando, assim, sua vida pessoal e profissional.3

Desinteresse dos estudantes

Incontestavelmente, o desinteresse dos estudantes aparece como um fator importante no trabalho docente capaz de lhe gerar sofrimento. O docente se vê engajado e comprometido com a construção do profissional, porém percebe que os estudantes não correspondem do mesmo modo às práticas educativas propostas e implementadas, possivelmente não as identificando como relevantes no seu processo de formação profissional.10

Ainda, em relação ao desinteresse de muitos estudantes, há referências à sua deficiência em conteúdos de embasamento teórico; os discentes, frequentemente, avançam nos semestres dos cursos, apresentando, entretanto, importantes lacunas de aprendizagem.10,13,22,25 É possível que tais manifestações evidenciadas nos estudantes decorram de um ingresso precoce na instituição de ensino, ainda imaturos, não visualizando suficientemente o necessário compromisso a ser assumido ao optarem por frequentar um curso cujo futuro profissional envolve a prestação de cuidados, direta e indiretamente ao outro.19 A imaturidade do aluno repercute negativamente no processo de ensino e aprendizagem e no fazer docente, gerando sofrimento e dilemas morais, especialmente quando o estudante aborda com rechaço um paciente ou o atende de forma mais descomprometida, em decorrência da vulnerabilidade de sua condição social.17

As dificuldades apresentadas pelos estudantes oriundas da educação básica, possivelmente, interferem em seu processo de aprendizagem de conteúdos iniciais de enfermagem, por sua vez, dificultando a aquisição de conhecimentos específicos, o que pode afetar a formação e, consequentemente, a qualidade do cuidado prestado.2

O desinteresse e o descompromisso do estudante em seu processo de formação, não levando em consideração a necessidade de uma conduta séria e comprometida com sua formação e com os preceitos da profissão buscada, podem repercutir negativamente na prática docente, pois este reconhece as demandas da enfermagem e quer estimular no estudante essa percepção. Entretanto, diante de tais comportamentos, a docente percebe a desvalorização e o desrespeito ao seu trabalho, bem como a falta de comprometimento com a profissão, o que, possivelmente, poderá interferir na qualidade da prática assistencial prestada.

Frágil formação para a docência

Outra fonte de sofrimento evidenciada pelos docentes decorre da constatação do seu despreparo para o desempenho da atividade docente. A formação para a docência tem sido tema de muitas discussões, especialmente a partir de um movimento de transformação do ensino superior no Brasil, em detrimento de uma prática de recrutamento de enfermeiros-docentes para as universidades, que vigorou por muitas décadas, sob a lógica de "quem sabe fazer sabe ensinar".23

Culminando com a necessária transição existente entre uma proposta de educação tradicional para uma transformadora, então, existe uma lacuna na preparação para o exercício da docência.26 Tornar-se professor, especialmente um professor que deseja mudanças e transformação na prática da enfermagem, requer competências que não lhe são inatas, mas que precisam ser adquiridas, pois o bacharelado forma enfermeiros e, para ser professor, há a necessidade de uma formação específica.19 Em muitos espaços, o critério de seleção dos professores para as universidades ocorre mediante a comprovação de um saber técnico, do saber fazer, em detrimento de uma competência didático-pedagógica.27

Associado à fragilidade evidenciada na formação para a docência, com repercussão negativa no trabalho docente, encontra-se o conflito entre as metodologias adotadas, as quais transitam entre o modelo tradicional, vertical, do professor detentor e transmissor do conhecimento, para um ensino transformador, com vistas à construção do pensamento crítico e reflexivo.25,26,28 A formação de um profissional autônomo, crítico e reflexivo constitui uma necessidade do mundo do trabalho; entretanto, os professores enfrentam tanto barreiras nas instituições de ensino quanto nas assistenciais para a formação desse profissional.29

Parece ser mais fácil verbalizar a necessidade de formar profissionais com capacidade de exercer autonomia, reflexão e criticidade do que aceitar e enfrentar a atuação de um futuro profissional ou mesmo de um profissional com capacidade de ser autônomo, reflexivo e crítico. Outro aspecto que dificulta o trabalho docente e que pode estar relacionado à formação para a docência é a desarticulação do currículo que, em muitas instituições, é compartimentado, assim como a falta de integração entre as disciplinas e entre os professores, dificultando o desenvolvimento integral do estudante.23 Somado a isso, destaca-se o processo de avaliação do conhecimento, em que mesmo professores que utilizam metodologias ativas, quando no processo de avaliação, limitam-se apenas ao uso do método de provas e testes.26

O despreparo para atuar na docência pode configurar-se como um entrave, não somente no aspecto didático pedagógico, mas no processo como um todo. Muitas vezes, o enfermeiro docente não se percebe suficientemente instrumentalizado para agir em seu contexto de atuação, o qual não favorece o desenvolvimento de uma ação docente de qualidade que prime pelo desenvolvimento do estudante e pela qualidade da assistência dos serviços prestados, reconhecendo cotidianamente a desvalorização de seu trabalho e de seu compromisso na formação de profissionais que irão cuidar de outras pessoas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho do enfermeiro docente na formação de profissionais que desenvolverão a prática do cuidado está envolto por situações que podem influenciar seu trabalho positivamente. Desta forma, contribuem para a satisfação na ação docente o seu compromisso na participação do processo de ensino-aprendizagem junto com o estudante; a valorização e o reconhecimento da capacidade didático-pedagógica do docente envolvido nesse processo, bem como a relação baseada no diálogo e na escuta que se estabelece entre docente e aluno na prática educacional.

Entretanto, o mesmo trabalho do enfermeiro docente também pode ser influenciado negativamente pelas relações e condições do trabalho. O sofrimento docente pode ocorrer ao perceber que a complexidade de sua ação é pouco valorizada e reconhecida a partir das ações e comportamentos dos alunos que não coincidem com os preceitos da formação almejada, bem como por parte das políticas institucionais e organizacionais das fontes empregadoras.

Diante do compromisso com a educação e a formação de recursos humanos, evidencia-se a complexidade das ações do enfermeiro docente que, além de cuidar, assume a responsabilidade de ensinar o cuidado. Esse é um grande desafio, pois é preciso que se tenha a consciência de que competências técnicas não são suficientes para o desenvolvimento do cuidado, fazendo-se necessária a construção do conhecimento com vistas à formação ética, à capacidade de empoderamento de sua prática, à empatia e à solidariedade no âmbito do fazer.

Assim, faz-se necessário repensar a prática docente, implementando-se estratégias, instrumentalizando-se e articulando-se com os pares para que, cada vez mais, seja possível evidenciar a responsabilidade e o compromisso docente na formação de recursos humanos, na tentativa de superar as dificuldades existentes em ambientes em que há desrespeito e desvalorização do trabalho docente e de suas responsabilidades.

Considera-se que a identificação de artigos predominantemente produzidos no Brasil constitui-se a principal limitação do estudo. Assim, torna-se relevante ampliar a busca da produção científica referente às facilidades e dificuldades na prática de enfermeiros docentes no ensino da enfermagem, de modo a conhecer como essa problemática vem sendo enfrentada, especialmente em outros países.

 

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